Rosental Alves: MOOCs não são ameaça aos cursos universitários de jornalismo

porJames Breiner
Mar 13, 2014 em Jornalismo digital

Mark Glaser da PBS MediaShift reuniu um painel de especialistas para um bate-papo online sobre como os cursos online massivos e abertas (MOOCs, em inglês) estão afetando as universidades e educação profissional. Alguns trechos desta fascinante conversa de 40 minutos estão abaixo.

Rosental Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas na Universidade do Texas, produz MOOCs sobre temas de jornalismo desde 2012.

Uma das coisas surpreendentes sobre estes cursos é quantos não-jornalistas estão participando, disse Alves. Há uma fome de aprender as habilidades jornalísticas de coletar, verificar e apresentar informações, disse ele.

(Muitos dos meus 2.000 colegas não eram jornalistas quando eu fiz o curso do centro sobre visualização de dados oferecidos por Alberto Cairo.)

Outra surpresa, Alves disse, foi que 75 por cento das pessoas no MOOC de visualização de dados falou que a experiência foi melhor que instrução presencial. Ele atribui isso ao fato de que muitos estudantes formaram comunidades em redes sociais e uns ajudaram aos outros.

O Centro Knight está oferecendo agora o seu oitavo MOOC, desta vez sobre "Mídias Sociais para Jornalistas", com 6.300 pessoas inscritas de 149 países. Ao todo, 28.000 pessoas se registraram nos MOOCs livres no primeiro ano.

Não é ameaça às universidades

Alves não vê esses MOOCs como ameaça para os cursos universitários, pois são workshops sobre temas muito específicos, como jornalismo de dados e jornalismo empreendedor. Ele não se incomoda com o fato de que nem todos que se inscrevem concluem os cursos.

"Nossos MOOCs são uma experiência humana. Não é um livro. Não é um curso autodirigido. Tem um começo, um meio e um fim, e é liderado por um instrutor. Não são aulas de faculdade. É uma oficina e uma comunidade. Nós não esperamos que todos que venham façam [tudo]. Nós não me importamos se você vir, assistir a um vídeo e sair." -- Rosental Alves

Daniel Seaton, um pós-doutor do MIT e coautor de um estudo de experiências das Universidade Harvard e MIT com MOOCs, contou como os desenvolvedores de um dos MOOCs de física esperam que atraia uma audiência global de estudantes animados com física.

Para sua surpresa, metade dos inscritos eram professores de física. Assim, em versões posteriores do curso, os desenvolvedores moldaram o material do curso com esse público em mente.

Seaton disse que a variedade de abordagens em MOOCs, desde cursos para crédito acadêmico com exames a comunidades informais online, torna difícil fazer generalizações. No entanto, ele acrescentou que cerca de dois terços das pessoas fazendo os cursos não têm diploma, o que sugere que MOOCs são uma força para a democratização da informação.

Os professores que preparam MOOCs ficam muitas vezes chocados com a quantidade de trabalho necessário para prepará-los, disse Seaton. Todo o material do curso e tecnologia naturalmente devem ser desenvolvidos a partir do zero.

Custos exorbitantes da faculdade

Felix Salmon, colunista da Reuters, espera que MOOCs possam ajudar a reduzir o custo "exorbitante" de uma educação universitária nos Estados Unidos, permitindo a participação em cursos fora do campus. Ele sugeriu que algumas universidades de segundo e terceiro nível podem oferecer cursos por professores de universidades de elite via MOOCs e, assim, melhorar a qualidade a um custo baixo.

Universidades americanas têm gastado muito com serviços como instalações esportivas que têm pouco a ver com educação, mas elevam seu custo, disse Salmon.

Quanto a saber se MOOCs ameaçam o modelo de negócios das universidades, ele disse: "Eu estou preocupado mais com os alunos do que com as universidades. Você não pode se dar ao luxo de ir para a faculdade e não pode se dar ao luxo de não ir para a faculdade". As duas tendências, sugeriu ele, levarão a uma maior desigualdade de renda e divisão socioeconômica, pois menos alunos de famílias de renda modesta ou baixa poderão se beneficiar do ensino superior.

"O valor real de MOOCs é tornar a educação mais acessível fisicamente e economicamente", disse Salmon.

Para as universidades, MOOCs podem ser valiosos através dos dados que trazem sobre as pessoas matriculadas nos cursos. Organizações com fins lucrativos de ensino também devem conseguir encontrar um modelo de negócio em MOOCs e ajudar a reduzir o custo da educação universitária tradicional, ele afirmou.

Tecnologia em sua infância

Andrew Lih da American University disse que a tecnologia e métodos de ensino de MOOCs são relativamente pouco sofisticados agora, o que torna a experiência menos do que ideal.

Ele descreveu sua própria experiência infeliz no curso de visualização de dados mencionado acima, que foi oferecido pelo Centro Knight. Ele tinha se inscrito porque queria experimentar o ensino de um mestre na área de visualização de dados, Alberto Cairo.

Em vez disso, ele se sentiu sobrecarregado pela "enxurrada de comentários" dos participantes do curso. "Mesmo a seção de introdução era demais para consumir. Foi difícil dar sentido ao fluxo de material que vinha. Foi difícil filtrar [as informações]". Ele abandonou o curso.

Os desenvolvedores do curso devem pensar mais como arquitetos ou urbanistas, disse ele, porque projetam espaços para maximizar as interações positivas entre as pessoas.

Uma das vantagens de morar em um campus universitário, Lih disse, é a oportunidade que alunos e professores de diferentes departamentos podem se encontrar e interagir uns com os outros. Este acaso deve ser parte do projeto MOOC, sugeriu ele.

Este post foi publicado originalmente no blog News Entrepreneurs e traduzido pela IJNet com permissão.

James Breiner é consultor em jornalismo online e liderança. Foi codiretor do Global Business Journalism Program na Universidade Tsinghua e bolsista do programa Knight International Journalism Fellow, tendo lançado e dirigido o Centro de Periodismo Digital na Universidade de Guadalajara. Visite seus sites News Entrepreneurs e Periodismo Emprendedor en Iberoamérica e siga-o no Twitter.

Imagem sob licença CC no Flickr via The Next Web