Reportagem usa métodos científicos para investigar água na Nigéria

porIrene Wangui
Jan 04 em Jornalismo investigativo

Em Lagos, a cidade mais populosa da Nigéria, as autoridades têm dificuldades em fornecer acesso a água potável, criando um mercado em expansão para a água potável embalada. As fábricas produzem água engarrafada, bem como água de saquinho comumente embalada em sacos de polietileno de meio litro. A água de saquinho, conhecida localmente como "água pura", é popular entre os consumidores por sua aparência higiênica e preço mais baixo.

Um projeto de reportagem investigativa da jornalista nigeriana Hannah Ojo expôs recentemente o alto nível de contaminantes encontrados na água de saquinho, levando o governo a agir contra fábricas de água que não seguem os regulamentos.

Durante um período de três meses, Hannah coletou amostras das água vendidas em Lagos, que foram submetidas a testes no laboratório da Universidade de Lagos. No total, 30 amostras de diferentes fabricantes de água foram testadas para determinar se suas propriedades químicas, físicas e microbiológicas atendiam aos padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a água potável. O jornal Nation publicou os resultados do laboratório, listando as marcas de água cujas amostras não conseguiram cumprir os padrões.

"A maioria das amostras de água testadas continha altos níveis de contaminantes", disse Hannah. "Graças à abordagem de laboratório, conseguimos apresentar nossos leitores com evidências para ajudá-los a fazer melhores escolhas."

A investigação foi financiada através do impactAFRICA do Code for Africa, um projeto de subsídios de jornalismo que apoia a reportagem baseada em dados em todo o continente. Uma das principais preocupações de Hannah foi o fato de que a taxa de doenças transmitidas pela água no estado de Lagos é bastante alta.

"Com a matéria, eu queria que várias agências reguladoras --como a Agência Nacional de Administração e Controle de Alimentos e Drogas (NAFDAC, em inglês) e a Comissão Reguladora da Água do Estado de Lagos (LWRC, em inglês)-- prestassem mais atenção à questão", Hannah disse.

Seus esforços foram recompensados. Assim que ela publicou a matéria, funcionários da LWRC invadiram várias fábricas de água para coletar amostras para testes de laboratório independentes. Em 20 de outubro, o governo do estado de Lagos revogou ainda as licenças de quatro empresas de engarrafamento de água por não cumprir a lei estadual sobre água. O público também reagiu à matéria de várias maneiras, com alguns indo para as mídias sociais para compartilhar sua experiência com os saquinhos de água. Outros solicitaram que a investigação fosse expandida além de Lagos para outras partes do país.

Ao trabalhar na matéria, Hannah teve que adotar uma abordagem mais científica para reunir evidências empíricas que informariam a cobertura. Ela conversou amplamente com especialistas, incluindo cientistas de alimentos, patologistas químicos e epidemiologistas para ajudar na interpretação dos dados do laboratório. Ela encoraja jornalistas a buscar uma abordagem científica para ser minucioso mas equilibrado em suas reportagens.

"É importante apresentar uma visão equilibrada chegando em todos os lados e oferecendo-lhes a palavra, mesmo quando a evidência é contra eles", disse ela.

Irene Wangui é consultora do programa África do Centro Internacional para Jornalistas. 

Imagem sob licença CC no Flickr via Wonderlane