Reação do Brasil a ataques raciais nas mídias sociais mostra evolução, diz Joyce Ribeiro

porKiratiana Freelon
Jul 29, 2015 em Diversidade

A jornalista afro-brasileira Joyce Ribeiro sofreu seu primeiro incidente de racismo digital há 10 anos. Ela diz que, naquela época, não sabia reagir adequadamente ao ataque. Joyce é apresentadora do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Sua experiência mais recente com racismo digital aconteceu em novembro do ano passado, quando um comentário racista sobre ela foi enviado para o perfil da rede social de sua emissora. Dessa vez, porém, ela não ignorou o ataque.

Na entrevista abaixo com a IJNet, Joyce explica como ela reagiu ao incidente e por que a experiência recente de Maria Júlia Coutinho com racismo digital mostra que o Brasil está mudando para melhor.

IJNet: O que houve quando você recebeu a primeira agressão em 2005? 

Joyce Ribeiro: Uma pessoa me mandou algumas mensagens racistas pelas redes sociais da emissora. E daquela vez pouco foi feito. Na realidade, a gente não foi investigar e não procuramos a pessoa, então acabou que foi um fato isolado. Acho que foi pelo Orkut, na época, porque foi há 10 anos. Foi a primeira vez.

IJNet: Como você se sentiu nessa primeira vez?

Joyce: Eu me senti tão agredida quanto dessa segunda vez. Mas hoje, 10 anos depois, eu tenho outra consciência. A comunidade brasileira, a comunidade negra brasileira também, tem outra consciência, e essa atitude imediata de procurar a punição é muito mais intensa hoje do que foi há 10 anos comigo, então eu acredito que o meu posicionamento também teve uma evolução. Uma evolução enquanto cidadã. Graças a Deus as coisas estão evoluindo na sociedade, como a luta pelos direitos efetivos da gente. Da primeira vez, acabou passando meio que “batido”, uma agressão no meio de outros comentários. Hoje isso já não aconteceria mais, pelo meu posicionamento. Eu não deixaria acontecer dessa forma.

IJNet: O que você gostaria de ter feito para combater esse ato de racismo?

Joyce: O meu comportamento naquela época deveria ter sido igual ao que eu fiz hoje. Deveria ter procurado uma denúncia na Polícia. Naquela época eu não fiz isso, há 10 anos, em 2005. Eu não procurei a Polícia. E agora, dessa vez eu fui atrás, eu procurei TODOS os meus direitos: fui à delegacia, fiz a denúncia e passei esse trabalho. Fiz um boletim de ocorrência para que a Polícia investigasse. Eu procurei a Polícia dessa vez. Toda mulher que receber um ataque tem que procurar a Polícia e denunciar.

IJNet: O que você acha sobre como a Rede Globo e Maju lidaram com o racismo que ela sofreu

Joyce: Eu acho que foi um comportamento correto. Eu acho que eles se posicionaram contra a agressão que ela sofreu, não esqueceram o fato, saíram em defesa da Maju e auxiliaram para que ela conseguisse também se defender da maneira mais correta. Então, eu acho que o caminho foi certo. Isso mostra que as coisas mudam. Devagar, né, mas esse tipo de comportamento mostra já um início de evolução da sociedade.

IJNet: Que tipo de evolução?

Joyce: Evolução de aprender como se comportar de maneira mais correta em relação à sociedade como um todo. Negros, brancos, gays, católicos, protestantes... tudo. As pessoas quando se sentem agredidas numa situação como essa... por exemplo: a Maju foi atacada...certo? Ela se sentiu ofendida, e as pessoas, os companheiros de trabalho dela, se sentiram ofendidos com aquelas palavras que ela recebeu. Como é um canal muito grande, isso se espalha. O Brasil inteiro soube da agressão. E o comportamento de não aceitar esse tipo de racismo acaba sendo passado para toda a sociedade, então a população aprende como se defender.

IJNet: Quando você começou sua carreira no jornalismo, na televisão, você sabia que racismo era um problema? Racismo do público era um problema? 

Joyce: Eu sabia que eu enfrentaria esse tipo de problema sim, eu sabia. E eu sabia que eu poderia enfrentar algumas situações vindas do público, mas que eu também enfrentaria outras situações no dia-a-dia de trabalho, com profissionais, colegas. Eu sabia disso. Mas isso nunca me fez desistir. Eu nunca pensei em desistir por causa disso. Mas a dificuldade racial no Brasil é grande, é muito grande. E para quem tenta ocupar posições de destaque, é maior ainda.

IJNet: Quando você estava estudando jornalismo, ouviu falar de racismo contra Glória Maria? Ou lia sobre as experiências de racismo que ela sofreu?

Joyce: Não é difícil imaginar o quanto foi difícil pra ela. O tamanho da dificuldade que ela enfrentou e quanta coragem ela precisou ter pra continuar. Porque se eu estou falando que há 10 anos, quando eu entrei na emissora que eu trabalho, eu já sofri agressões que me deixaram revoltada, se a gente pensar em... 25 anos atrás, como não era mais difícil ainda? Como era naquela situação? Onde as pessoas nem estavam preparadas para buscar seus direitos, nem se tinha essa consciência de ‘direito de se defender contra o racismo’. Então era muito mais difícil, e ela ainda assim conseguiu fazer um trabalho brilhante durante todos esses anos.

Serviu de exemplo para mim e para tantas outras jornalistas que com certeza se inspiraram, quer dizer, as jornalistas da minha época queriam fazer o mesmo que a Glória Maria fez. Queriam a mesma carreira brilhante que ela fez. Então ela é uma guerreira, uma vitoriosa, sem dúvida, e corajosa antes de tudo, porque eu posso bem imaginar que o que ela passou não foi fácil.​

Imagem principal: Charge política de Maju usada com permissão do autor RIBS - imagem secundária de Joyce Ribeiro, cortesia de Joyce Ribeiro