Quando as mídias digitais e sociais devem ser o foco central do treinamento em jornalismo mundial?

por Jessica Weiss
Aug 12, 2014 em Jornalismo digital

Em eventos como intensivos de jornalismo de dados e hackatonas, o treinamento de jornalismo em todo o mundo reflete as grandes mudanças no cenário da mídia na última década. Hoje, os jornalistas muitas vezes aprendem a tuitar e fazer visualizações de dados em vez de como conduzir entrevistas ou escrever notícias urgentes.

O veterano jornalista e instrutor de mídia Bill Ristow desceve a evolução no treinamento de mídia internacional em um novo relatório do Center for International Media Assistance (CIMA). “Journalism Training In The Digital Era: Views From the Field" (em tradução livre, "Treinamento de Jornalismo na Era Digital: Perspectivas do Campo"), destaca a importância de assegurar que o treinamento mantenha o ritmo com a mudança tecnológica e levanta preocupações sobre os potenciais perigos de concentrar uma parte tão grande do treinamento em mídia digital e inovação. O relatório pergunta:

Estamos devidamente adaptando o trabalho aos ambientes tecnológicos loucamente variados do mundo em desenvolvimento? Estamos erroneamente assumindo que os problemas que os meios de comunicação ocidentais têm enfrentado são os mesmos enfrentados pelas mídias em outro lugar? Estamos sendo ofuscados pelos "brinquedos brilhantes" das mídias digitais, oferecendo coisas que não são realmente úteis em contextos locais? Estamos colocando a plataforma muito à frente do conteúdo e correndo um sério risco de prejudicar o trabalho extremamente importante de apoio às técnicas de jornalismo e treinamento de negócios para organizações de mídia?"

No campo, o domínio da mídia digital pode não ser sempre a necessidade mais importante. O jornalista ugandês e ex-presidente da escola de jornalismo da Universidade Makerere de Uganda, Peter Mwesige, compartilhou com Ristow o que ele acredita ser as cinco mais importantes necessidades de treinamento na África. Os três primeiros itens são entender o funcionamento das grandes instituições, melhor compreensão da política pública e fortalecer a capacidade analítica.

"Somente o quinto item, jornalismo de dados, é um pouco ligado à tendência em direção ao trabalho do desenvolvimento da mídia digital e social", escreveu Ristow.

"A mistura tem que estar lá", disse Jerome Aumente, professor emérito da Escola de Comunicação e Informação da Universidade Rutgers. "O que você deve fazer é alinhá-la com as realidades do país onde você está e calibrá-la para corresponder [à realidade]. Não há nenhum sentido ensinar tecnologia sofisticada para uma região que ainda é basicamente focada no jornal."

O relatório estabelece as cinco principais sugestões para doadores e organizações de mídia de desenvolvimento manterem em mente à medida que desenvolvem projetos na área:

  1. Analise cuidadosamente o ambiente e as condições que cercam cada intervenção ampla. Isso inclui o clima legal e empresarial, bem como outros projetos ou programas de desenvolvimento. Também é importante analisar o "nível e a natureza da demanda local para o trabalho que está sendo proposto", disse o relatório. Enquanto jornalistas podem querer treinamento em ferramentas digitais", é importante saber se [os jornalistas] poderão usar o treinamento em seu local de trabalho, se a gestão de suas organizações de notícias apoia a formação, ou ...se essa formação pode colocar os jornalistas em risco de serem alvos de um regime hostil", o relatório observou.

  2. Diagnostique o específico "ecossistema de mídia" e as condições tecnológicas do país. Esforços de treinamento precisam ser "projetados e adaptados para um ambiente particular", disse o relatório, "incluindo sua capacidade para suportar técnicas e abordagens específicas digitais. "Muitas vezes, as condições técnicas são muito diferentes das do Ocidente e podem variar amplamente na região, portanto, uma abordagem "tamanho único" raramente é bem sucedida.

  3. Enfatize uma mistura de soluções. A intervenção deve "manter uma forte ênfase calculada, com base no núcleo do jornalismo e no apoio à sustentabilidade dos negócios de mídia, mesmo quando o foco é a formação de plataformas digitais", disse o relatório.

  4. Invista mais na investigação, especialmente na parte inicial dos projetos. Para isso, o relatório disse que "as universidades podem dar uma contribuição inestimável para melhorar o nosso conhecimento sobre quais programas funcionam melhor em que condições."

  5. Avalie com rigor os novos tipos de projetos. Avaliações mais fortes são importantes no geral, mas são "especialmente importantes para o trabalho digital impulsionado pela evolução", disse o relatório, "porque as lições aprendidas no início terão impacto maior sobre os projetos futuros. "

Leia o relatório completo aqui (em inglês).

Jessica Weiss é uma jornalista freelance com base em Bogotá, Colômbia.

Foto do treinamento "India Unheard" cortesia de Video Volunteers sob licença Creative Commons