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Publicação feita por refugiados e para refugiados em Berlim

porYermi Brenner
Jan 28 em Empreendedorismo de mídia
Redação de 2017

Quase um milhão de sírios, iraquianos e afegãos se refugiaram na Alemanha desde 2012. A integração social desses recém-chegados é um dos principais desafios que a sociedade alemã enfrenta atualmente. Na linha de frente dos esforços de integração de refugiados está Amal, uma publicação online que apresenta notícias locais alemãs em árabe e persa.

Julia Gerlach, jornalista alemã e editora-chefe da Amal, lidera uma equipe de oito repórteres e vários freelancers, que vieram para a Alemanha nos últimos anos como refugiados de países como a Síria e o Afeganistão. O objetivo da Amal, que é financiada pela Igreja Evangélica na Alemanha, é facilitar a integração de recém-chegados à sociedade, oferecendo-lhes informações de que precisam em uma linguagem que possam compreender.

A IJNet conversou com Gerlach --que fundou a Amal junto com sua irmã jornalista Cornelia Gerlach-- para saber mais sobre como a agência de notícias começou, quais desafios a equipe enfrentou ao longo do caminho e que papel a publicação desempenha na sociedade alemã.

IJNet: Como e por que você criou a Amal?

Julia Gerlach: A ideia surgiu em 2015 quando voltei para a Alemanha depois de trabalhar como correspondente no Egito. Naquela época, havia todos esses refugiados sírios vindo para a Alemanha. Nós percebemos que havia alguns jornalistas entre eles, e que para esses jornalistas sírios, seria especialmente difícil encontrar emprego aqui por causa da barreira da língua. Ao mesmo tempo, havia muita desinformação sendo disseminada nos locais que acomodavam os refugiados que chegavam: muitos rumores e conspirações. Achamos que seria uma boa ideia abordar esses dois desafios contratando jornalistas refugiados para criar jornalismo sobre o que é importante em Berlim e na Alemanha como um todo.

Qual é o foco da redação?

Nós fazemos apenas jornalismo local, por isso não estamos informando sobre a Síria, Irã, Afeganistão ou qualquer outro país. É importante mantermos este princípio porque nos afasta da política dos países de origem dos refugiados. Somos mais confiáveis para nossos leitores se nos mantivermos longe dos conflitos que existem em outras partes do mundo.

Como a Amal beneficia a sociedade alemã?

Para participar da sociedade, você precisa saber o que está acontecendo: onde ir no fim de semana para se divertir, onde levar seus filhos para passear ou o que o prefeito de Berlim está dizendo sobre determinados assuntos. Por exemplo, para um tópico como o debate sobre o lenço de cabeça (autoridades de Berlim proibiram professores de usar símbolos religiosos durante a aula), sobre o qual informamos recentemente, é importante que mães e pais entendam para que saibam discutir com seus filhos. Se você quer que todos façam parte da sociedade, precisa mantê-los informados. Queremos que todos sejam parte da sociedade, porque pessoas que não são tendem a ter problemas ou a causar problemas.

Pesquisas mostram que aprender a língua local é vital para os refugiados que se integram na sociedade. Não é contraprodutivo fornecer informações aos recém-chegados em sua língua nativa?

Nós diríamos que não, porque quando a pessoa chega aqui leva um bom tempo até que seja capaz de ler o jornal. Ela deve poder participar da sociedade antes de ler o jornal. As pessoas se sentem mais encorajadas a se integrar à sociedade se souberem aonde ir e como participar.

Como você recrutou e treinou seus repórteres?

Fizemos uma chamada entre os refugiados, e depois tivemos entrevistas e escolhemos os 10 candidatos mais qualificados. Nós só aceitamos pessoas que trabalharam como jornalistas em seus países de origem ou tiveram treinamento como jornalistas. Começamos com um workshop de dois meses em que praticamos o jornalismo na Alemanha, [respondendo a perguntas como] a quem você precisa ligar se precisar de informações específicas, qual é a estrutura das leis, como funciona a sociedade, como você aborda e fala com as pessoas e quais são os costumes e hábitos locais que você deve conhecer. Também fizemos muito trabalho de equipe porque as pessoas vieram de diferentes países e tinham origens e ideias políticas ou religiosas diversas. Fazê-los trabalhar juntos nem sempre foi fácil.

Muitos projetos da sociedade civil lançados em resposta ao afluxo de refugiados em 2015 e 2016 estão chegando ao fim, muitas vezes porque o financiamento parou. Amal, no entanto, acabou de conseguir financiamento adicional e está expandindo para Hamburgo. Como vocês conseguiram isso?

Convencemos as pessoas de que nosso projeto será necessário no futuro porque o número de pessoas na Alemanha que precisam de informações em árabe ou farsi não diminuirá nos próximos anos. Este novo financiamento nos permite expandir para outras cidades alemãs e abrir filiais. Também é muito importante  expandir para o interior do país.

O modelo Amal --refugiados reportando notícias locais para refugiados-- é replicável em outros países?

Sim, posso imaginar que esse tipo de projeto pode ser replicado em Bruxelas ou em outras cidades onde há um grande número de recém-chegados.


Imagem cortesia da Amal