Publicação digital pretende manter vivo interesse pela ciência na Espanha

porMaite Fernandez
Feb 11 em Miscellaneous

A medida que o panorama da mídia continua a mudar, os meios de comunicação tradicionais estão cortando ou eliminando a informação especializada, incluindo a cobertura de ciência.

Na Espanha, um novo site pretende não só preencher esse vazio, mas se tornar a publicação de referência sobre ciência no mundo da língua espanhola.

Lançada no ano passado, a Materia é dedicada à ciência, ambiente, saúde e tecnologia.

Como muitas outras mídias novas na Espanha, onde a crise econômica e as demissões maciças têm gerado um impulso empreendedor, a história da Materia começa com o fechamento de um jornal. O jornal Público concluiu sua edição impressa em fevereiro de 2012, deixando cerca de 126 pessoas sem emprego.

O Público tinha uma forte cobertura de notícias científicas. Com seu fechamento, os leitores expressaram sua tristeza, lamentando o vazio em reportagens de ciência e tecnologia que o jornal deixaria para trás. Seus repórteres decidiram, então, continuar sua cobertura de ciência, criando a Materia.

"Vamos continuar fazendo o que fazemos, o que é a notícia de ciência diária", disse Patricia Fernández de Lis, ex-redatora-chefe do Público e diretora da Materia.

O conteúdo na Materia deve atender a dois requisitos editoriais: a informação deve ser qualidade e especializada para não especialistas. Isto é, deve ser ao mesmo tempo acessível ao público em geral e não apenas para cientistas.

Com 185 mil usuários únicos mensais (70 por cento na Espanha e 30 por cento na América Latina), mais de 1,5 milhões de vistas de páginas acumuladas e mais de 43 mil seguidores no Twitter, a Materia parece ter encontrou um nicho negligenciado.

Ao contrário de muitos blogs populares de ciência, esta publicação é produzida em uma redação. Liderando uma equipe de sete pessoas com base em Madri, Fernández de Lis explicou que "acreditamos no valor de uma redação física ao selecionar, editar e publicar conteúdo. Nós estamos constantemente falando sobre o conteúdo que publicamos."

Isto resulta também em um espécie de manifesto que explica o que é a Materia (e o que não é). A publicação não é "um recipiente de histórias de freelancers sem qualquer estrutura editorial" e não irá incluir um "catálogo de gadgets e lançamentos comerciais."

Com artigos como um estudo sobre como neurologistas do regime nazista usaram os cérebros de suas vítimas para pesquisa e como conexões "seguras" de Internet podem não ser tão seguras afinal, a Materia se recusa a seguir a cobertura que tantos outros veículos fazem.

"Há muita informação teoricamente de ciência e tecnologia que é na verdade informação comercial disfarçada de inovação", disse ela. "'Esta nova versão de um telefone foi lançada'. Nós não acreditamos que isso seja informação científica verdadeiramente relevante."

O conteúdo da Materia é publicado sob uma versão da licença Creative Commons (CC), permitindo a sua reprodução integral em outros meios de comunicação com atribuições próprias para a fonte original. Através deste mecanismo, seus artigos são republicados em mais de 200 publicações de notícias em todo o mundo, incluindo El Comercio (Peru), El Observador (Uruguai) e 20 Minutos (Espanha).

O site adotou a licença CC por vários motivos, entre eles, para que a notícia de ciência alcance o máximo de exposição possível.

"A única diferença entre uma sociedade próspera e sociedades que estão se tornando prósperas... é o investimento em ciência. E o investimento em ciência também tem a ver com a divulgação da ciência. Acreditamos que essa informação tem de chegar ao maior número possível de pessoas onde quer que estejam", disse Fernández de Lis.

Mas a republicação é também uma resposta ao ecossistema de novas mídias. "Embora a reprodução integral das matérias em outros meios de comunicação não traga benefícios econômicos imediatos... traz um benefício nesta nova 'economia da atenção', como falam os gurus da Internet", disse ela.

A Materia ganha visibilidade por ser citada em outras publicações e ser classificada no alto dos motores de busca. "Quanto mais gente coloca links a nós, melhor é nossa posição no Google", observou ela.

O site também está experimentando com várias formas de financiamento, como a propaganda seletiva (pois não aceitam anúncios de horóscopos, dietas da moda, empresas poluentes ou qualquer outra empresa ou atividade que consideram ofensivo). Também planejam criar um conteúdo especial para tablets e smartphones, organizar conferências e eventos relacionados com ciência e patrocínio dos leitores.

"Os leitores têm que começar a perceber que fazer jornalismo bom custa dinheiro. E se eles realmente querem um bom jornalismo na Internet, têm que pagar de alguma forma ", disse ela.

_Foto: Imagem da página da Materia no Facebook_

Maite Fernández é chefe de redaçāo da IJNet. Nativa do Uruguai, Fernández trabalhou como repórter para o jornal diário nacional El Observador e para seu site, elobservador.com.uy. Ela é bilíngue em inglês e espanhol e tem mestrado em jornalismo multimídia pela Universidade de Maryland. Viciada em café sem salvaçāo, Fernández se interessa por todas as coisas Web, jornalismo de dados, tecnologia e boxe.