Projeto Marshall investiga sistema de justiça criminal nos EUA

por Jessica Weiss
Aug 19, 2014 em Jornalismo digital

Em 2004, Todd Willingham do Texas foi executado por iniciar um incêndio que matou suas três filhas 13 anos antes. O caso se baseava no testemunho de um informante da prisão que alegou que Willingham confessou o crime a ele.

Mas agora, o informante disse que mentiu.

Quando uma investigação de 5.000 palavras chamada “The Prosecutor and the Snitch” (em tradução livre, "O Procurador e o Dedo-Duro") foi publicada sobre o caso no início de agosto, o mundo conheceu uma história angustiante sobre a justiça criminal dos Estados Unidos. Também deu um gostinho do que está por vir da nova startup de jornalismo inovador que a publicou.

O Projeto Marshall, cujo nome é uma homenagem a Thurgood Marshall -- que foi um juiz do Supremo Tribunal de Justiça e defensor de direitos civis americano --, é um novo veículo de jornalismo sem fins lucrativos focado exclusivamente em cobrir o sistema de justiça criminal nos Estados Unidos. A organização pretende abordar temas como a reforma de sentenciamento, a má conduta do Ministério Público e a guerra contra as drogas.

Mas talvez o mais notável é a forma como as histórias serão contadas: "gráficos interativos, mapas, tabelas, palavras, tudo na mesma página, tudo de uma forma em que o leitor não é retirado da história, independentemente do formato sendo consumido", editor-gerente do projeto para a televisão digital, Gabriel Dance, ex-editor interativo do jornal Guardian, disse ao journalism.co.uk.

O Projeto Marshall promete "combinar o melhor do jornalismo antigo e novo", segundo seu website.

O projeto foi anunciado no ano passado por Neil Barsky, um ex-jornalista que se tornou gerente de hedge fund. Além de Dance, a equipe editorial do projeto é liderada pelo ex-editor executivo do New York Times, Bill Keller, que será o editor-chefe, e o premiado ex-jornalista do New York Times Tim Golden, que será o chefe de redação para as investigações e notícias. O lançamento do projeto está programado para outubro.

O núcleo do estilo jornalístico do Projeto Marshall se baseia em "encontrar diferentes maneiras de contar histórias", disse Keller ao journalism.co.uk. "Boa redação jornalística combinada com o que você pode fazer online e com as mídias sociais para contar a história visualmente significam que podemos chegar a um público que a pesquisa acadêmica mais séria não pode alcançar."

Embora o projeto ainda terá um escritor primário trabalhando em cada investigação, "repórteres interativos" também irão trabalhar nas matérias, disse Dance.

A plataforma vai oferecer investigações curtas e longas distribuídas na Web, bem como através de redações e outras parcerias, Keller disse ao Nieman Journalism Lab no início deste ano. A história de Willingham, por exemplo, foi publicada no site do Projeto Marshall, bem como no Washington Post.

Essa história, que é principalmente em texto, saiu do modelo narrativo interativo do projeto, pois a decisão de publicar a história veio quando um grupo de pressão buscava apresentar uma queixa contra o promotor envolvido no caso. "Encontrar pontos de uma história que podem ser melhor contados de uma maneira diferente do texto," Dance disse ao journalism.co.uk, "é uma abordagem que teria sido tomada com a história de Willingham."

Além de publicar suas próprias investigações, o projeto "vai fazer curadoria da enxurrada diária de notícias sobre justiça criminal a partir de publicações em todo o país, destacar o trabalho de grupos de defesa da direita e da esquerda, organizar debates, e conduzir uma discussão animada nas redes sociais", de acordo com o site.

O objetivo final, disse, é conduzir um debate nacional que pode "nos ajudar a confrontar nossos conturbados tribunais e prisões."

O orçamento anual de funcionamento da organização sem fins lucrativos será entre US$ 4 e milhões, com financiamento vindo de Barsky, entidades filantrópicas e um número de doadores, de acordo com o Nieman Lab.

O Projeto de Marshall está sendo anunciado como mais um sinal de que o jornalismo sem fins lucrativos, veio para ficar. "Considerando que costumava ser apenas algumas espécies, agora uma infinidade de novas mutações está saindo das páginas, utilizando tecnologia barata para lançar startups em nichos diferentes", escreveu Gillian Tett na revista Financial Times.

Estas organizações sem fins lucrativos "tocam no desejo de algumas pessoas ricas em apoiar iniciativas cívicas - e produzir jornalismo investigativo de profundidade em áreas que a mídia muitas vezes ignora, porque é fora de moda ou simplesmente não viável comercialmente", Tett escreveu.

Barsky disse ao Nieman Lab que acredita que o jornalismo sem fins lucrativos tem o potencial de ser mais sustentável ao longo do tempo do que o jornalismo com fins lucrativos.

"A organização sem fins lucrativos tem que se sustentar sendo excelente e tendo um impacto. O mesmo acontece com a [organização de] fins lucrativos, francamente", disse ele. "Mas a diferença é que existem pessoas de boa vontade lá fora que estão dispostas a nos apoiar se fizemos um ótimo trabalho."

Jessica Weiss é uma jornalista freelance com base em Bogotá, Colômbia.

Imagem sob licença CC no Flickr via 710928003