Plantando e cultivando o jornalismo de dados no Panamá

por Sandra Crucianelli
Jun 18, 2014 em Diversos

Em todo o mundo, as equipes de jornalismo de dados estão regando as sementes da reportagem baseada em dados. Estão assumindo as tarefas complexas de encontrar notícias escondidas em tabelas, bancos de dados e outros lugares, e alcançar grandes resultados.

Desde a conclusão da minha bolsa do Knight International Journalism Fellowship do ICFJ no ano passado, eu tive a sorte de ajudar a construir várias equipes.

A bolsa foi minha primeira experiência criando uma equipe de reportagem de dados para ser integrada em uma redação, o que eu fiz no jornal La Nación da Argentina. Deu certo, mas o mais importante foi que a experiência brilhou uma luz em relação a outros países e meios de comunicação, inspirando-me a repetir a experiência. Isso ocorreu em países tão diversos e distantes como o México e o Líbano e, mais recentemente, no Panamá, onde, em fevereiro, eu fiz parte de uma iniciativa patrocinada pelo ICFJ e Connectas, com apoio logístico da CELAP.

Eu visitei esse país da América Central durante o período de preparação para as suas eleições de maio. Os resultados reafirmaram a tendência do Panamá de alternar partidos, quando os eleitores escolhem um partido um ano e seu oponente na eleição seguinte, e assim por diante. (Na maioria dos países da América Latina, o mesmo partido está no poder há 10 ou 20 anos.) As ruas foram inundadas com propaganda eleitoral. As redações sentiram uma profunda responsabilidade em dar aos cidadãos a melhor cobertura possível.

Com a missão de dar o início ao jornalismo de dados, quatro grupos de jornalistas participaram de uma série de três workshops em fevereiro, março e abril. O jornal La Prensa, do Grupo EPASA, Telemetro e NexTV colaboraram com o entusiasmo e o desejo de aprender. Além disso, duas plataformas foram desenvolvidas para promover a transparência eleitoral: Candidatos Panamá Ruta 2014 e Decisión 2014.

Quando eu cheguei no Panamá, nenhum jornalista havia recebido instrução formal em jornalismo de dados. Mas depois de várias sessões de formação, repórteres e editores aprenderam técnicas de pesquisa, extração, processamento e visualização de dados.

O primeiro blog de jornalismo de dados do país nasceu da estação de televisão Telemetro Data. Também é o primeiro de seu tipo para um canal de televisão na mídia de língua espanhola.

Aos poucos, reportagens baseadas em dados emergiram nesse site: Análise de Registros Eleitorais, Mapas interativos sobre o número de eleitores por sexo e por província, publicado pelo El Panamá América; além disso, alguns candidatos começaram a publicar seus gastos de campanha; as primeiras visualizações interativas com base em promessas de campanha foram publicadas, como as baseadas nas promessas de José Domingo Arias, e mais: reportagens de investigação revelaram que dois panamenhos morrem de desnutrição por semana e que a cada 12 horas um menor é abusado sexualmente no país. Nesse caso, a ferramenta Datawrapper foi usada para visualizar os dados contidos nas tabelas.

A NexTV usou técnicas de análise de discurso para comparar os planos de cada um dos três principais candidatos, como exibido neste artigo.

Recursos digitais importantes, como Datawrapper e DocumentCloud, foram utilizados pela primeira vez por meios de comunicação do Panamá. Usando essas ferramentas, a plataforma Candidatos Panamá Ruta 14 explorou as empresas de propriedade de candidatos presidenciais, como o vencedor, Juan Carlos Varela. O projeto usou documentous ​​obtidos a partir do Registro Nacional Público. O perfil de cada candidato incorpora uma consulta ao banco de dados do Painel de Investigação e documentos de apoio correspondentes.

Para apoiar os jornalistas no dia das eleições, a iniciativa criou um blog, Panamá Elecciones, que publicou fatos históricos para dar contexto às matérias dos jornalistas.

Como treinadora, a missão --que me levou para o Panamá para três oficinas de dez dias-- foi um desafio. Criar uma cultura de dados abertos, familiarizando-se com tabelas complexas e consultar bases de dados são novidade para esses jornalistas. Mas seus esforços já estão valendo a pena. As sementes que eles regam vão se transformar em uma mídia mais transparente e mais comprometida com as necessidades de informação dos cidadãos.

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Imagem do Panamá, cortesia de Sandra Crucianelli