Persona de Interés oferece recursos para reportagens sobre cartéis e corrupção

porJulie Schwietert Collazo
Jun 10, 2015 em Diversos

Apesar dos esforços de muitos países latino-americanos por dados mais transparentes e estatísticas e informações mais acessíveis ao público, o trabalho dos governos nessa área tem sido na maioria mal sucedido. Jornalistas independentes, meios de comunicação internacionais e organizações de tecnologia estão conscientes dessas deficiências e buscam preencher essas necessidades.

O Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) é um desses grupos. O OCCRP, lançando na Europa Oriental em 2006, aproveitou seu sucesso europeu para apoiar o desenvolvimento do Persona de Interés, uma base de dados em espanhol que lista mais de 300 indivíduos associados com o crime organizado, tráfico de drogas, corrupção e outras atividades ilícitas no México e América Central.

O site, destinado a jornalistas, autoridades e cidadãos, é dirigido por Ronny Rojas, um jornalista investigativo e de dados na Costa Rica. Rojas, que foi treinado em jornalismo digital nos Estados e Alemanha, anteriormente trabalhou no jornal La Nación da Costa Rica.

A IJNet falou com Rojas para saber mais sobre o projeto.

IJNet: O Persona de Interés foi sua ideia?

Rojas: Não. A ideia veio do OCCRP. A organização queria replicar na América Central o projeto já estabelecido na Europa Oriental, que foi chamado de "pessoas de interesse". Essa ideia original era desenvolver uma lista de criminosos, políticos e empresários relacionados com a criminalidade na Europa Oriental. Esse projeto incluiu os perfis de cerca de 50 pessoas e foi publicado em 2012.

Depois, o OCCRP decidiu implementar uma iniciativa semelhante [na América Latina]. O objetivo é servir como uma ferramenta para jornalistas, autoridades e cidadãos, fornecendo informações básicas sobre essas pessoas, de arquivos judiciais e títulos de propriedade às informações sobre seus relacionamentos com outras pessoas.

IJNet: Conte-nos sobre a necessidade que é suprida pelo Persona de Interés. Que recursos estavam disponíveis para jornalistas pesquisarem os mesmos tipos de informações antes de o site existir?

Rojas: Esta informação será de grande utilidade para apoiar o trabalho dos jornalistas e investigadores da região, que de outra forma teriam muita dificuldade de obter essa informação através de outros meios ou porque não tinham os recursos para fazê-lo ou os recursos tecnológicos. O site faz com que seja possível acessar documentos públicos, relatórios policiais e investigativos, documentos judiciais e similares, coisas que custam dinheiro e cuja aquisição pode representar perigo para o jornalista, especialmente no México, Guatemala e El Salvador. Esta ferramenta é uma grande oportunidade para jornalistas realizarem investigações de documentos sem terem que viajar para esses países ou colocar-se em perigo.

O site também dá aos usuários acesso a inúmeros documentos confidenciais que são de interesse público, documentos que foram obtidos através de um intenso trabalho de investigação através de canais jornalísticos. A ideia é criar uma grande plataforma onde informações úteis podem ser compartilhadas entre os jornalistas de vários países, algo que não é muito comum na região. Isto é muito importante, não só porque podemos construir uma rede confiável de colaboradores, mas podemos expandir a possibilidade de produzir mais colaborações transfronteiriças.

IJNet: Quem são as pessoas que ajudam a construir o site?

Rojas: Por razões de segurança, nós preferimos não revelar as identidades, mas todos os envolvidos são jornalistas experientes, com uma trajetória muito respeitado em seu respectivo país.

IJNet: Quais foram os desafios da construção do site?

Rojas: A coordenação de uma equipe cujos membros são de diferentes países é sem dúvida o maior desafio de um projeto como este. Mas também é a segurança dos jornalistas, que se colocam em risco quando saem para investigar e procurar documentos sobre essas figuras criminosas.

Outro desafio foi descobrir como armazenar toda a informação que foi recolhida em um banco de dados que é simples e fácil de usar, em que a informação contextual fosse acessível e todos os documentos pudessem ser baixados para o uso. Para conseguir isso, colaboramos com um renomado especialista em visualização de dados, que projetou o site e um programador com uma vasta experiência. Preferimos, no entanto, não dizer quem eles são, mais uma vez, por razões de segurança.

IJNet: Quem financia o projeto?

Rojas: A primeira fase do projeto foi financiada pelo Departamento de Estado. No momento, estamos buscando novos doadores para expandir a plataforma para outros países das Américas.

IJNet: Existe um perigo para aqueles que estão trabalhando neste projeto?

Rojas: Sim, existe risco iminente, especialmente no México, porque o projeto está colocando muitas pessoas ligadas ao crime organizado [em uma posição mais visível], e quando um jornalista começa a fazer perguntas sobre certas pessoas ou solicita informações específicas, ele imediatamente soa o alarme e se coloca em risco. A OCCRP implementou medidas de segurança para diminuir este risco, principalmente sob a forma de comunicações. Até agora, não tivemos situações de ameaças diretas ou riscos para os jornalistas envolvidos.

IJNet: Conte-nos sobre o processo de adicionar uma "pessoa de interesse" no site.

Rojas: Para incluir pessoas de interesse, elas devem ser proeminentes no mundo do crime. Nós avaliamos a viabilidade de seu perfil: se existem documentos e materiais suficientes para poder produzir algo sólido e de valor real para os usuários. Depois de decidirmos adicionar alguém, começamos a trabalhar na investigação e coleta de informações e documentos de instituições públicas, fontes policiais e de outras bases de dados. Nós processamos e digitalizamos os documentos. Cada jornalista ajuda a desenvolver uma biografia e constrói os relacionamentos dessa pessoa e depois acrescenta ele ou ela para o site.

IJNet: Quais são as fontes de informação que estão sendo usadas para desenvolver os perfis?

Rojas: Instituições públicas (registros de propriedade, registros de empresas, arquivos judiciais, notários, etc.); fontes policiais; bancos de dados corporativos; registros bancários; relatórios acadêmicos sobre o crime organizado; [e ]documentos legais.

IJNet: Você tem exemplos de como os jornalistas estão usando Persona de Interés?

Rojas: Pouco a pouco, os veículos [de comunicação] estão começando a publicar artigos que foram escritos usando documentos do site. [Neste artigo do jornal guatemalteco, El Periodico, jornalistas contam o testemunho de "Don Valde", um traficante de cocaína; o testemunho foi acessado através do Persona de Interés.]

[No Tiempo, um jornal hondurenho, jornalistas usaram a informação do Persona de Interés para desenvolver informação para um perfil de Marllory Chacón, uma empresária que ajudou traficantes de drogas a lavar dinheiro.]

IJNet: Que tipo de comentário você recebeu sobre o site até agora?

Rojas: Até agora, nós recebemos um feedback bom. Os jornalistas e autoridades estão vendo a plataforma como uma ferramenta útil para as suas investigações. Um número de jornalistas de diferentes países quer aderir à iniciativa e colaborar para adicionar perfis. Esta é uma das razões pelas quais nós estamos buscando um financiamento adicional para expandir o projeto.

Se há jornalistas que querem contribuir perfis ou apresentar novos documentos, entre em contato com nosso Twitter(@personasOCCRP) ou via email (ronny@occrp.org).

Este artigo foi escrito em inglês e sua tradução ao inglês foi resumida.