O que todo jornalista deve saber sobre fontes anônimas

porSherry Ricchiardi
Aug 7, 2016 em Temas especializados

Durante um workshop no Sudão do Sul no ano passado, repórteres expressaram preocupação de que algumas organizações de mídia estavam usando fontes anônimas para promover agendas pessoais e atacar inimigos políticos.

Houve um consenso de que a reportagem precisa, justa e confiável estava sendo prejudicada e que a confiança do leitor estava em jogo na jovem democracia assolada por conflito político.

Seus instintos éticos foram estelares.

Profissionais de mídia em todo o mundo lidam com a espinhosa questão do anonimato. Pode ser uma faca de dois gumes.

De acordo com a Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ, em inglês), "as fontes anônimas são às vezes a única chave para descobrir uma grande história, levantando a cortina sobre a corrupção, cumprindo as missões jornalísticas de 'watchdog'  [fiscalizador] sobre o governo e informador para os cidadãos. Mas, às vezes, as fontes anônimas são o caminho para um pântano ético."

O código de ética da SPJ estabeleceu dois pontos importantes sobre anonimato:

  • Identique fontes sempre que possível. O público tem direito de tanta informação quanto pode ser fornecida sobre a confiabilidade das fontes. 
  • Sempre questione o motivo das "fontes antes de prometer anonimato. Esclareça as condições inerentes a qualquer promessa feita em troca de informações. Mantenha promessas.

O problema surgiu recentemente na redação do New York Times. Em março, a alta administração do jornal reprimiu o uso de fontes anônimas, por causa de queixas dos leitores sobre o uso "persistente" de fontes não identificadas. As novas diretrizes exigem que os editores aprovem o uso do anonimato em matérias.

"Citações diretas de fontes anônimas devem ser usadas raramente e apenas quando tais citações são fundamentais para a matéria", de acordo com o artigo de 15 de julho explicando a contenção. "Pelo menos um editor deve conhecer a identidade específica de qualquer fonte anônima antes da publicação."

As normas mais rigorosas parecem estar funcionando. Em julho, Phil Corbett, editor-chefe adjunto do Times para normas, relatou uma "queda mensurável," cerca de 30 por cento, em fontes anônimas.

Aqui estão alguns recursos que podem ajudar. A Online News Association (ONA) oferece uma ferramenta para construir o seu próprio de Código de Ética que contém orientações específicas para o uso de fontes anônimas. O processo foca em uma série de perguntas:

  • Qual é a razão da fonte não querer ser identificada
  • A informação está disponível em outros lugares?
  • Você confia na fonte?
  • A informação sairá em breve de qualquer maneira?
  • A fonte está ansiosa ou relutante?
  • A fonte é poderosa ou vulnerável?
  • Valeria a pena ser preso pela fonte e a informação?

O módulo nos lembra: "Antes de um jornalista conceder confidencialidade, deve haver uma discussão detalhada sobre as razões da fonte para querer evitar a responsabilidade, que é o que acontece quando você não nomeia a fonte. Diga para a fonte que sua matéria é mais credível e suas fontes mais responsáveis quando você usa seus nomes e consegue uma compreensão completa da motivação da fonte."

Quando eu me encontro com gerentes de mídia, sugiro nomear uma comissão de redação para desenvolver ou atualizar diretrizes para fontes anônimas. Forneço um pacote de materiais -- estudos de caso, exercícios e apostilas -- que podem ajudar a conduzir as normas.

Durante as oficinas, peço aos participantes para achar uma matéria de jornal, revista ou publicação online que contenha fontes não identificadas. Nós, então, trabalhamos em pequenos grupos para decidir se o anonimato foi justificado usando estas diretrizes:

  • A informação da fonte deve ser importante e absolutamente vital para a matéria
  • Não pode ser baseada em opinião pessoal
  • A informação não pôde ser obtida de outra maneira
  • A fonte é altamente confiável e em uma posição de saber

Quando eu uso esse exercício, distribuo um folheto criado a partir do código do NPR sobre fontes anônimas. Este documento é abrangente, fácil de compreender e pode ser um modelo para as redações em qualquer lugar do mundo onde os jornalistas estão preocupados com a construção de confiança e credibilidade.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Thomas Leth-Olsen