O que jornalistas precisam saber sobre cobertura de racismo e injustiça racial

porKasia Kovacs
Feb 23, 2016 em Diversidade

"Raça é o problema original neste país."

Isso é o que disse Nikole Hannah-Jones, membro do Repórteres e Editores Investigativos (IRE, em inglês), uma das repórteres investigativas e de dados mais respeitadas dos EUA, que visitou a Universidade de Missouri na semana passada para apresentar uma palestra chamada "Cobrindo a injustiça racial na era do 'Black Lives Matter' ("vida de negros importa", em tradução livre)."

Era um tópico apropriado e oportuno para estudantes de jornalismo na Universidade do Missouri, que estão cobrindo protestos contra o racismo no campus desde o outono. Mas o conselho de Nikole é útil para todos os jornalistas, não importando a idade ou experiência, então pensamos em compartilhá-lo com outros membros do IRE.

A raça pode ser o problema original nos EUA, mas nos últimos dois anos, manifestantes, ativistas e jornalistas cidadãos têm pressionado os principais meios de comunicação para olhar para injustiça racial sob uma nova luz.

O problema é que ainda vivemos em um mundo onde 12 por cento dos funcionários de jornais são negros, latinos ou asiáticos, apesar do fato de que 39 por cento da população nos EUA é negra, latina ou asiática.

Por que isso é importante? Se uma redação inteira tem a mesma aparência, Nikole disse, os repórteres terão pontos cegos e histórias importantes nunca vai ser escritas porque os repórteres não vão saber onde olhar para elas.

"Mas algo está mudando", disse Nikole. "Algo está mudando a maneira... [como] nós estamos olhando para a injustiça racial."

Qual é a mudança? Nikole chama de uma revolução digital "e eu odeio hipérbole, então quando eu chamo isso de revolução, eu realmente quero dizer isso", disse ela.

As pessoas estão usando as mídias sociais e smartphones para desafiar as narrativas dominantes reportadas pelos meios de comunicação tradicionais. No passado, muitos jornalistas brancos simplesmente não tinham conhecimento de casos em que os policiais atiraram contra homens e mulheres desarmados. Os repórteres são historicamente muito respeitosos com a polícia, Nikole disse, e não céticos o suficiente de seus relatórios.

No entanto, com o advento das tecnologias móveis e pessoais, as testemunhas podem capturar o momento e enviá-lo. Podem se tornar cidadãos jornalistas.

A primeira pessoa a dar a notícia de que Michael Brown tinha sido baleado por um policial em Ferguson, Missouri, não foi um jornalista. Foi um cidadão que postou uma foto no Instagram do padrasto de Brown segurando um cartaz de papelão que dizia: "A polícia de Ferguson acabou de executar meu filho desarmado!!!" Essa foto chamou a atenção de um repórter de TV local, que depois foi para Ferguson cobrir a história. E, claro, os meios de comunicação nacionais não chegaram muito tempo depois.

Outro jornalista cidadão, o vereador de St. Louis Antonio French, estava na rua em Ferguson durante o auge dos protestos. Ele tuitou suas observações ao vivo e, do dia para a noite, conseguiu dezenas de milhares de seguidores no Twitter. Seus tuites desafiaram a narrativa vinda dos meios de comunicação tradicionais que a violência era generalizada na área. Graças a ele e outros na rua, essas organizações de mídia foram novamente forçadas a confrontar seus pontos cegos.

"Então, qual é o problema com a forma como escrevemos sobre raça e pensamos sobre a cobertura racial neste país?", Nikole perguntou.

Bem, tudo se resume a intenção. Ou melhor, nossa fixação na intenção.

"Ficamos paralisados em nossa cobertura de injustiça racial quando a intenção é a coisa mais importante, quando queremos saber o que está no coração de alguém", disse Nikole. "Eu não me importo com o que está no coração de alguém! Qual é a ação?"

Isso, segundo ela, é a coisa mais importante na nossa cobertura: ação e consequências. E podemos investigar essas ações e consequências através de -- você adivinhou! -- dados.

No entanto, dados em si não são suficientes. Para obter o significado máximo dos dados, os jornalistas precisam encontrá-los, analisá-los e interrogá-los. Isso é como Nikole trabalha. Quando ela percebeu que os distritos escolares em Tuscaloosa, Alabama, foram manipulados para que a maioria de estudantes negros de baixa renda ficassem em uma escola que nem sequer era localizado dentro do distrito, ela perguntou por quê.

Não é o suficiente mostrar que existe uma disparidade, disse Nikole. Isso é chato. O que é melhor é analisar os dados, prestando atenção às contra-narrativas e investigar o porquê.

Este post apareceu originalmente no Investigative Reporters and Editors e é publicado na IJNet com permissão. Kasia Kovacs é adjunta editorial do IRE.

Imagem sob licença CC via Chris Wieland