O papel do fotojornalismo na construção da paz em áreas de conflito

porAlexsandra Canedo
Oct 17, 2018 em Jornalismo multimídia

A Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI) realizou seu sexto Prêmio e Festival de Jornalismo Gabriel García Márquez em Medellín, Colômbia.

Todos os anos, o evento oferece mais de 75 atividades gratuitas centradas em jornalismo, literatura, arte, ciência, tecnologia, inovação e cultura. Neste ano, palestrantes e instrutores de mais de 25 países reuniram-se em Medellín de 3 a 5 de outubro para celebrar algumas das melhores publicações que apareceram na América Latina no ano passado.

Em um evento intitulado “Fotojornalismo, memória e busca da verdade”, o acadêmico colombiano Germán Rey moderou uma discussão entre quatro fotojornalistas: Stephen Ferry (Estados Unidos), João Pina (Portugal), Natalia Botero (Colômbia) e Álvaro Ybarra (Espanha). A conversa foi estruturada em torno do papel que o fotojornalismo pode desempenhar na busca da verdade e na construção da paz em sociedades dominadas por conflitos. Por meio de seu próprio trabalho, esses fotojornalistas trouxeram uma visão crítica de vários conflitos na América Latina, e suas fotografias forneceram uma base para  reconhecer a história violenta de muitos países da América Latina.

Aqui estão quatro conclusões importantes do painel:

1. O fotojornalismo adiciona uma camada humana ao conflito.

Historicamente, as necessidades e queixas de civis, especificamente grupos minoritários, são deixadas de lado nas negociações de paz e nos tratados de paz. Apesar das experiências angustiantes das pessoas que vivem em zonas de conflito no século 21, muitos ainda associam o conflito com o movimento militar e armas. Natalia Botero acredita que é importante fotografar conflitos porque força os indivíduos a ver o conflito de uma perspectiva diferente e torna “o conflito mais humano”. Muitos no poder abordam os conflitos das camadas de cima para baixo da sociedade, em vez de baixo para cima, o que prejudica as pessoas nas zonas de conflito. Os palestrantes concordaram que o fotojornalismo pode servir como uma ferramenta para ajudar a diminuir essa discrepância, mudando o foco para os indivíduos afetados.

2. A fotografia pode servir como prova.

Natalia Botero diz que “a fotografia é testemunha”. Quando as comissões da verdade se encontram após o término de um conflito, geralmente se baseiam em testemunhos escritos, o que pode ser problemático se as vozes de certos grupos não forem convidadas para a mesa. A fotografia pode fornecer provas irrefutáveis ​​e desafiar testemunhos conflitantes. Com isso em mente, Botero disse "tentar salvar os sobreviventes de conflitos" com sua fotografia e ser o mais imparcial possível quando está atrás de uma lente de câmera.

Stephen Ferry criou a Comissão de Verdade e Reconciliação (TRC, em inglês) do Peru como um exemplo do uso bem-sucedido do fotojornalismo no processo de paz e um exemplo a ser seguido por outros países. A TRC do Peru encomendou um projeto de fotografia multimídia, Yuyanapaq, para construir a memória coletiva após o conflito interno no Peru. Stephen Ferry acredita que fotografias são fundamentais se o país realmente quiser refletir sobre seu passado e avançar como uma unidade.

3. O fotojornalismo pode desencadear a recuperação.

Os painelistas concordaram que o fotojornalismo pode ter um profundo impacto sobre as sociedades e sua capacidade de criar uma base para a recuperação comunitária, construindo uma memória visual compartilhada e a consciência nacional. Álvaro Ybarra acredita que a fotografia deve desempenhar um papel importante ao longo de todo o processo de recuperação, estabelecendo as bases para a paz social. Embora o cessar-fogo e os tratados de paz sejam importantes, eles criam uma paz negativa, marcada pela ausência de violência. Paz social --conhecida como paz positiva-- é a paz mais profunda e pode levar à verdadeira superação.

4. Os fotojornalistas têm uma responsabilidade.

É crucial que os fotojornalistas abracem os mais altos níveis de ética e evitem alterar imagens, pois têm o poder de escrever história. As fotografias têm o poder de reconciliar várias verdades e criar uma memória mais coletiva e consistente. Com esse poder, é crucial ser imparcial e iluminar todos os lados do conflito.

Imagem principal sob Trevor Brown via Unsplash. Segunda imagem cortesia de Alexsandra Canedo.