Nova academia de jornalismo de dados na África do Sul incorpora modelo de 'laboratório vivo'

por Raymond Joseph
Feb 14, 2016 em Jornalismo básico

O que é preciso para convencer redações sobrecarregadas a liberar repórteres experientes durante três meses para participar de um programa de jornalismo de dados -- e pagar pelo privilégio também? Esse foi um dos maiores obstáculos que tivemos de ultrapassar durante o planejamento da nova academia de jornalismo de dados do Code for South Africa, que abriu suas portas na Cidade do Cabo no dia 1° de fevereiro.

Felizmente, a primeira classe atraiu sete jornalistas experientes de alguns dos principais meios de comunicação da África do Sul, bem como um estudante de mestrado de jornalismo que recebeu uma vaga subsidiada. Já existe interesse de organizações de mídia em enviar jornalistas para a próxima turma e o plano é oferecer três cursos anuais para oito a 10 pessoas nos próximos três anos. A academia é apoiada pelo Code for AfricaIndigo TrustCentro Internacional para JornalistasOmidyar Network e School of Data.

A chave que abriu as portas para as redações é que tudo o que os repórteres produzirem será enviado de volta para --e pertencerá a-- suas organizações de mídia para estas publicarem, venderem ou distribuírem como bem entenderem. Assim, longe de se perderem da redação, esses repórteres permanecerão produtivos e continuarão a fazer parte da redação.

O programa consiste em um treinamento intensivo de duas semanas sobre as várias etapas da produção de dados. Em seguida, os participantes vão passar mais 10 semanas na produção de conteúdo com base nas habilidades recém-adquiridas em uma redação de dados ao lado de experientes jornalistas de dados, codificadores e analistas.

Estamos planejando ter o nosso currículo "open-source" certificado pela Agência Sul-Africana de Qualificações -- um exercício longo e árduo -- para que os graduados recebam uma qualificação oficialmente reconhecida. Igualmente importante é que as organizações de mídia possam recuperar uma porcentagem do que pagam pelo treinamento com a autoridade governamental que lida com as habilidades e padrões da indústria.

Também começamos um programa de ensino de instrutores para fornecer módulos independentes do currículo para redações em outras partes do país. Isso ajudará a promover a cultura de narrativas orientadas a dados e fornecer uma fonte de receita para a academia.

Lançar a academia é uma parte importante do meu trabalho como bolsista Knight de Jornalismo Internacional do ICFJ, ajudando a conduzir uma iniciativa africana abrangente destinada a melhorar a vida dos africanos através do jornalismo de dados e inovação cívica.

Mas tem sido difícil. Como diretor da escola, foi minha tarefa convencer os editores, sobrecarregados com redações sofrendo cortes orçamentais e de pessoal e recorrendo a contratar novatos, que este era um investimento que vale a pena.

A academia nasceu de uma pesquisa para um programa que complementasse os "bootcamps" (treinamentos intensivos) em que os jornalistas participantes são rapidamente jogados no ciclo diário de notícias e muitas vezes não têm o tempo ou espaço para praticar e desenvolver as habilidades de dados recém-adquiridas.

Nós percebemos que para fazer uma mudança sistêmica, precisamos buscar soluções inovadoras. A resposta, acreditamos, reside na criação de um ambiente de trabalho onde os jornalistas poderiam continuar aprendendo sobre o trabalho, permanecendo produtivos e contribuindo para suas redações.

Mas a academia é mais do que apenas um treinamento. É também um centro de inovação onde podemos experimentar novas e diferentes formas de contar histórias e envolver o leitor. A dura verdade é que a menos que o jornalismo de dados se torne uma fonte de receita, continuará a ser limitado a grandes organizações de mídia com o trabalho sendo feito por pequenas unidades especializadas que trabalham à margem das redações.

Então, nós também usaremos a redação da academia como um laboratório vivo para experimentar com diferentes modelos de receita à medida que procuramos testar modelos de negócios para o jornalismo de dados.

"A academia e a redação são a mesma coisa, com a redação oferecendo experiência prática para os jornalistas envolvidos no programa de treinamento da academia", disse Adi Eyal, director do Code for South Africa.

"Vemos cada matéria como uma oportunidade em potencial para inovar", disse ele. "Assim como fizemos com a premiada matéria "Living on the Edge" (Vivendo no Limite) e a ferramenta "Living Wage" (Salário Digno), que inovou no contexto sul-africano com a convergência de diferentes elementos da narrativa, vemos a academia como a abertura de novas oportunidades para experimentar. Queremos explorar e experimentar coisas novas que os participantes na academia possam alimentar suas redações e ajudar a empurrar a indústria para a frente."

O Code for South Africa criou um Storify para mais informação. Confira aqui.

Imagem de Adi Eyal por Raymond Joseph