Na vanguarda: Brasil e Índia lideram combate a desinformação via WhatsApp

porPatrick Butler
Oct 14, 2019 em Fact-checking e verificação
Shalini Joshi e Tai Nalon entre os participantes do painel de abertura da ONA

A tendência de desinformação em países como Índia e Brasil pode ser um prenúncio dos problemas que os Estados Unidos provavelmente terão nas eleições de 2020 e além. Esse foi o aviso dos palestrantes afiliados ao Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) na sessão de abertura da conferência da Online News Association em Nova Orleans.

Shalini Joshi, do PROTO, parceira TruthBuzz do ICFJ na Índia, disse que jornalistas dos Estados Unidos devem estar atentos às notícias falsas sobre questões como fraude na votação no WhatsApp e outras plataformas de mensagens fechadas. Ela deu um exemplo de como histórias falsas de adulteração generalizada de máquinas de votação nas eleições da Índia em 2019 se espalharam como fogo no WhatsApp.

"Se você acha que isso não será um problema nos Estados Unidos (porque o WhatsApp não é amplamente usado no país), pense novamente", disse ela. Outras plataformas de mensagens privadas, como o Facebook Messenger, são comumente usadas nos Estados Unidos e podem se tornar uma nova fonte importante de desinformação nas eleições, disse Joshi.

O combate à desinformação nessas plataformas fechadas é mais difícil do que em plataformas públicas como o Facebook e o Twitter, porque a comunicação é privada. Não há uma maneira fácil de rastrear tendências na circulação de informações falsas.

Joshi recomendou mais esforços colaborativos para combater a desinformação, que inclui jornalistas, governos, cidadãos e até policiais. Ela citou uma campanha bem-sucedida da polícia no estado de Assam, na Índia, para ensinar as pessoas a evitar a disseminação de informações falsas. As consequências da desinformação foram fatais no país quando uma multidão linchou dois homens falsamente acusados ​​de sequestrar crianças.

"É necessário construir coalizões em diferentes setores: redações, sociedade civil, tecnólogos, pesquisadores, especialistas e cidadãos", disse ela, "temos que nos unir para enfrentar esta enorme tempestade de desinformação".

Durante as recentes eleições indianas, o parceiro do ICFJ, PROTO, lançou o projeto Checkpoint, que estudava como desinformações se espalhavam no WhatsApp. Esse projeto de pesquisa, encomendado pelo WhatsApp e em parceria com o Meedan e Dig Deeper Media, criou um banco de dados de boatos e informações falsas de origem do público durante as eleições. A linha de denúncia do Checkpoint, gerenciada pela equipe de Joshi, recebeu mais de 82.000 mensagens exclusivas e verificou ou desmascarou algumas delas. O PROTO agora está analisando as mensagens para "entender os padrões de desinformação em escala", disse Joshi.

Joshi foi uma das duas palestrantes afiliadas ao programa TruthBuzz do ICFJ que falou na sessão plenária de abertura da conferência da ONA: "Estratégias globais na luta contra a desinformação". O TruthBuzz luta contra a disseminação de notícias falsas em cinco das maiores democracias do mundo.

A outra palestrante afiliada ao TruthBuzz foi Tai Nalon, cofundadora e diretora da agência de fact-checking Aos Fatos. O ICFJ fez parceria com Aos Fatos por meio do bolsistaTruthBuzz, Sérgio Spagnuolo e do bolsista Knight Pedro Burgo. Nalon falou sobre uma pesquisa realizada por Spagnuolo que mostrou que um quarto dos brasileiros usa o WhatsApp como fonte de notícias pelo menos semanalmente, embora 84% deles não confiem na plataforma como fonte de notícias. Um bot desenvolvido por Burgos provou ser muito útil para alertar usuários do Twitter quando estão compartilhando informações erradas e rastrear se eles excluem o tuite enganoso, disse ela.

"Qual é a solução para o WhatsApp?", perguntou Nalon. "Não existe", respondeu ela, gerando risos da platéia. Mas, disse ela, uma estratégia do Aos Fatos para combater a desinformação é usar ferramentas inovadoras e engajantes para fazer com que as informações verificadas se espalhem viralmente, uma meta do programa TruthBuzz do ICFJ. Isso inclui verificações que usam fotos e texto (que são mais compartilháveis ​​do que vídeos para pessoas que usam uma conexão devagar com a internet), desenhos animados engraçados, "explicadores" sobre questões de polarização e transparência contando como as verificações do Aos Fatos foram realizadas.

Joshi mencionou outros bolsistas TruthBuzz do ICFJ que estão fazendo um trabalho semelhante em países populosos que também tiveram eleições recentemente. Entre eles:

  • Na Nigéria, Hannah Ajakaiye criou vídeos engajantes de verificação de fatos em inglês pidgin, a língua mais falada no país;
  • Na Indonésia, Astudestra Ajengrastr usou o Instagram para levar conteúdo verificado a jovens audiências vulneráveis ​​à disseminação de informações erradas;
  • Na Carolina do Norte, Matthew Riley está levando a verificação de fatos para o novo território da rádio e televisão local, bem como para a mídia em espanhol.

Essas iniciativas podem fornecer um roteiro para outros países que lutam contra a disseminação de desinformações, incluindo os Estados Unidos ao se aproximarem das eleições nacionais em 2020. Embora possa não haver uma solução única, uma combinação de esforços pode fazer a diferença.


Este artigo foi publicado originalmente pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), organização-mãe da IJNet e é reproduzido na IJNet com permissão.

Saiba mais sobre a Bolsa TruthBuzz, financiada por Craig Newmark Philanthropies, no site do ICFJ