Mapa de ataques contra jornalistas no México ajuda jornalistas no Iraque

por Jorge Luis Sierra
Nov 4, 2014 em Segurança do jornalista

Quando visitei o Iraque pela primeira vez em outubro de 2003, o país era um dos lugares mais perigosos para jornalistas trabalharem. Infelizmente, essa realidade não mudou. Desde 2003, 102 jornalistas foram assassinados no país, de acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, e muitos mais foram atacados ou ameaçados. 

Como repórter do jornal mexicano El Independiente, passei duas semanas no Iraque, cobrindo o período em que uma coalizão militar internacional ocupava o país. Fiquei impressionado com a destruição. Naquela época, a guerra convencional tinha terminado, mas a violência ainda estava tirando a vida de centenas de soldados e civis. Cerca de 20 ataques estavam ocorrendo no Iraque a cada dia. Entrevistei vítimas e famílias afetadas pela violência, e visitei mercados, escolas e mesquitas. Eu vi helicópteros militares e patrulhas passando e dirigimos por postos ao longo das estradas sob o controle militares e das milícias que haviam sido criadas. 

No meio da enorme dor, tristeza e destruição que testemunhei, ainda pude ver um imenso desejo de paz, direitos humanos e justiça nos rostos dos homens e mulheres iraquianos que conheci. Minhas matérias foram sobre como o povo iraquiano estava tentando encontrar um caminho para a estabilidade e a paz. Várias de minhas matérias foram sobre as primeiras organizações de direitos humanos criadas no rescaldo do conflito. 

Dez anos mais tarde, visitei o país novamente como bolsista Knight do ICFJ. Em outubro de 2013, o Instituto da Paz dos EUA me convidou a participar de seu treinamento de tecnologia, em Erbil, uma cidade antiga na região do Curdistão. Eu testemunhei o orgulho e o forte espírito dos jornalistas, blogueiros e usuários de mídia social no Iraque. Apesar de um incidente terrorista que ocorreu em Erbil durante o evento, continuamos e completamos nossa oficina sobre tecnologia e necessidades sociais. 

Eu também conheci Ibrahim Alsragey, um jornalista iraquiano, que dirige a Associação de Defesa dos Direitos dos Jornalistas com sede em Bagdá. Eu falei com ele sobre Periodistas en Riesgo (Jornalistas em Risco), um mapa que eu estava desenvolvendo como bolsista Knight para rastrear os ataques contra jornalistas e blogueiros no México. Ibrahim manifestou forte interesse no mapa, então eu disse a ele: "Você pode construir seu próprio mapa". Ele concordou, e imediatamente começou a construí-lo. 

O mapa que construímos juntos permite que as pessoas que presenciam um ataque possam denunciá-lo no site e destacar a sua localização. 

Alsragey disse à IJNet na época que esperava que o mapa fosse contrariar o que ele percebeu como uma falta de interesse por parte de organizações internacionais sobre os perigos que jornalistas enfrentam no Iraque e a falta de vontade do governo iraquiano de parar os ataques contra eles. Ele disse também que esperava que o mapa ajudasse a expor aqueles que estão por trás dos ataques e identificar as zonas de perigo para os jornalistas. 

A plataforma permite que as pessoas reportem ataques anonimamente através de um site, SMS, aplicativo de smartphone ou e-mail. Antes do relatório aparecer publicamente no mapa, um editor do site verifica sua veracidade. Uma vez verificado, o ponto aparece no mapa. Jornalistas podem se inscrever para receber quando alertas de ataques são reportados. 

A próxima etapa: uma plataforma mais robusta e treinadores de segurança digital em todas as 18 províncias iraquianas 

Com o apoio da Fundação Iraque, a Associação de Defesa dos Direitos dos Jornalistas Iraquianos e o Instituto da Paz dos EUA, agora estamos construindo uma plataforma de mapeamento nova e mais robusta que inclui recursos de segurança digital e os nomes das organizações que podem ajudar jornalistas iraquianos e blogueiros que defendem a liberdade de expressão. Também estamos ensinando técnicas de segurança digital. 

A nova plataforma, Tabeir Iraque, vai permitir a uma rede de usuários iraquianos enviar relatórios sobre um ataque a qualquer jornalista, blogueiro ou defensor dos direitos humanos. Tabeir é um projeto da Fundação Iraque para aumentar a liberdade de expressão no Iraque. ("Tabeir" significa "expressão" em árabe). A plataforma inclui uma versão em língua árabe adaptada regionalmente do Digital and Mobile Security Manual for Journalists and Bloggers, que eu criei originalmente para jornalistas e blogueiros em risco no México. A plataforma também lista os recursos de segurança físicos e digitais que podem ajudar jornalistas e blogueiros. 

Nós projetamos um curso online para capacitar um grupo de 40 instrutores que irá promover o mapa e treinar outros colegas em segurança digital, redução de risco e mapeamento de ataques em todas as 18 províncias iraquianas. O curso, em andamento agora, é realizado em árabe, e esperamos que o novo quadro de instrutores vai treinar mais de 200 jornalistas, blogueiros e defensores dos direitos humanos em todo o Iraque. 

Com este novo mapa e treinamento, vamos capacitar mais pessoas no Iraque para defender a liberdade de expressão utilizando ferramentas digitais. Jornalistas iraquianos, blogueiros e defensored da liberdade de expressão têm agora uma ferramenta para controlar os ataques contra eles; uma plataforma que ajuda a desenhar planos de redução de riscos; e uma maneira de ajudá-los a se proteger, para que possam continuar a informar o povo iraquiano e reforçar a liberdade de expressão.

Jorge Luis Sierra é diretor do Programa de Bolsas Knight do ICFJ.

O conteúdo de inovação global de midia relacionado aos projetos e parceiros das Bolsas Knight do ICFJ na IJNet é apoiado pela John S. and James L. Knight Foundation e editado por Jennifer Dorroh.

Imagem principal sob licença no Flickr via Jeffrey Beall