Mídia comunitária rohingya enfrenta desafios no campo de refugiados mais populoso

porClare Hammond
Sep 10 em Temas especializados
Cox's Bazar

No campo de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh, uma dúzia de homens se senta ao redor de uma mesa dentro de um abrigo de bambu. Muitos deles foram eleitos membros do Voice of Rohingya, um dos dois maiores serviços de informação liderados pelos rohingya no campo de refugiados mais populoso do mundo.

Também à mesa estão dois homens que trabalham para o departamento especial da polícia de Bangladesh.

Ser alvo de vigilância faz parte da vida da equipe, disse o portavoz do jornal digital. Juntamente com o resto do grupo, ele quis permanecer anônimo por razões de segurança. É difícil, segundo ele, mas ainda é melhor do que a situação anterior. "Ficamos sem voz por anos em Mianmar", disse ele.

O Bangladesh anunciou recentemente novas restrições aos serviços de telefonia celular nos campos de refugiados. A medida seguiu uma tentativa fracassada de repatriar 3.540 refugiados para Mianmar em 22 de agosto e uma onda de violência nas últimas semanas, com quatro rohingya mortos a tiros pela polícia.

Se imposta, a proibição deixaria os rohingya ainda mais desesperados por notícias e informações confiáveis. Eles também seriam desprovidos, mais uma vez, de sua voz.

Achando uma voz

Em agosto de 2017, mais de 740.000 muçulmanos rohingya fugiram de uma ofensiva militar em Mianmar que as Nações Unidas compararam à limpeza étnica, juntando-se a cerca de 200.000 já em campos de refugiados em Bangladesh.

Nos dois anos desde então, vários serviços de informação e organizações informais de mídia foram criados dentro dos campos, para fornecer notícias diárias a uma população maior que a do Butão.

"Estávamos com muito medo e muito traumatizados, e ninguém estava em um posição para levantar a voz da nossa comunidade", disse o portavoz do jornal. “Então nos organizamos e construímos [nosso] centro com a permissão dos [líderes do campo].”

Os representantes do jornal disseram ter uma rede de jornalistas cidadãos voluntários em todos os campos de refugiados de Bangladesh, bem como no estado de Rakhine, em Mianmar, e entre a diáspora global.

“Eles não são jornalistas [treinados], são apenas pessoas normais como nós. Sempre que acontece alguma coisa, eles nos contam”, disse o portavoz.

Os membros desta rede enviam informações para um grupo do WhatsApp. A equipe do jornal verifica a informação com outras fontes na área e depois distribui nos canais de mídia social, incluindo Twitter e Facebook.

Ninguém da equipe usa seu nome próprio quando publica matérias por medo de repercussões.

"Não temos outros meios [de distribuição] além das redes sociais, mas ainda precisamos compartilhar as notícias com as pessoas da nossa comunidade", disse o portavoz do Voice of Rohingya.

O Jamtoli Information Line, um programa apoiado pela organização suíça sem fins lucrativos Fundação Hirondelle, é outra plataforma que fornece serviços de informação aos refugiados, transmitindo seus programas carregados em cartões SD e depois conectando-os a altofalantes portáteis. Suas equipes vão, então, para áreas comuns de encontro, onde o programa podem ser disseminado mais ainda via Bluetooth.

"Um coordenador do grupo de ouvintes carrega o programa no telefone e, se as pessoas quiserem pegá-lo, podem usá-lo com Bluetooth e levá-lo para casa para transmitir para a família", disse Dianne Janes, chefe de projeto da Fundação Hirondelle.

Refugiados treinados e pagos produzem o programa na língua rohingya, desenvolvido para fornecer informações que podem permitir que os refugiados “melhorem suas vidas independentemente e tomem decisões que possam ajudar a si mesmos”, disse Janes.

“Cada programa aborda um tópico como surto de dengue, preparação para ciclones, saúde materna ou convívio com seus vizinhos. São todas questões sociais e físicas sobre a vida nos campos”, disse Janes.

O serviço sempre evitou tópicos polêmicos, ela disse. Bangladesh, que ocupa a posição 150 de 180 no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras 2019, é conhecido pelo controle estrito da mídia, tendo recentemente bloqueado o uso de grandes agências de notícias como a Al Jazeera dentro do país.

A loudspeaker used to narrowcast the Jamtoli Information Line audio program in the Jamtoli refugee camp, Bangladesh.
Um altofalante transmite o programa de áudio do Jamtoli Information Line no campo de refugiados de Jamtoli, Bangladesh. Foto: Fabrice Junod/Fundação Hirondelle 2018

Cada vez menos bem-vindos

Mas, à medida que as boas-vindas aos refugiados estão se esgotando e as tensões entre as duas comunidades aumentam, os refugiados dizem estar com medo.

Os refugiados têm acesso limitado a rádios e não podem possuir cartões SIM legalmente para redes telefônicas de Bangladesh, porque as operadoras de celular exigem que os usuários se registrem com documentos de identidade nacionais.

Isso resultou em refugiados pagando um residente local para registrar um SIM em seu nome ou recebendo SIMs não registrados, válidos por um curto período de tempo. Por esse motivo, muitos rohingya se comunicam por meio de aplicativos como WhatsApp e Signal, que permitem manter o mesmo número de telefone, apesar da troca de cartões SIM. Mesmo assim, a conectividade no campo permanece baixa, principalmente à noite.

Mas com as operadoras ordenadas a interromper seus serviços nos campos dos rohingya, os refugiados têm que confiar no boca a boca para aprender sobre as forças que estão moldando seu futuro.

"O acesso aos cartões SIM tem sido um serviço vital para os rohingya há anos e eles os utilizaram de maneira extremamente eficaz para aumentar a conscientização sobre sua situação para o mundo", disse o diretor executivo da Rede de Direitos Humanos da Birmânia, Kyaw Win, em um comunicado. "Ao bloquear o acesso à comunicação para os rohingya, Bangladesh os isolará efetivamente do mundo e impedirá que eles se envolvam em comunicações básicas que dependem para garantir que o mundo ouça suas preocupações."
 

Este artigo foi escrito com reportagem de Victoria Milko.


Este artigo foi publicado originalmente pelo Splice e reproduzido na IJNet com permissão.

Clare Hammond é editora digital do Frontier Myanmar, antes no Myanmar Times. Atualmente ela está escrevendo um livro sobre ferrovias em Mianmar.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via UN Civil Protection and Humanitarian Aid