Lutando pela igualdade na reportagem esportiva no Brasil

porIrene Caselli
Dec 18 em Temas especializados
Angelica Souza

Apenas 12 por cento das notícias esportivas são apresentadas por mulheres em todo o mundo, e apenas 4 por cento do conteúdo de mídia é dedicado ao esporte feminino, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Isso é verdade até mesmo no Brasil, o país do futebol, onde as mulheres enfrentam uma série de desafios quando fazem reportagens sobre o jogo.

Entre 1941 e 1979, o governo do Brasil proibiu as mulheres de jogar futebol e outros esportes que eram “incompatíveis com sua natureza”. Mesmo depois que a proibição foi suspensa, o preconceito e os estereótipos permaneceram.

“O Brasil é reconhecido como o país do futebol, mas é o país do futebol masculino”, diz Angelica Souza, especialista em publicidade e empreendedora de mídia. “O futebol é visto exclusivamente para homens.”

Em maio de 2015, Souza, junto com outras três mulheres que também trabalhavam na área de comunicação --Roberta Nina Cardoso, Renata Mendonça e Nayara Perone (que saiu recentemente)-- começaram o Dibradoras, um site dedicado exclusivamente a esporte feminino.

“Percebemos que não havia cobertura de esportes femininos. O mundo é metade feminino e metade masculino, então por que a cobertura esportiva é tão desequilibrada?”, diz Souza.

Nos últimos anos, o projeto se transformou em um podcast semanal disponível no iTunes e um blog diário.

Roberta Nina Cardoso
Roberta Nina Cardoso do Dibradoras no estúdio.

“A sociedade é sexista e o esporte é apenas outro canal pelo qual isso se torna evidente. Todas as mulheres que gostam de futebol nascem 'dribladoras' porque têm que driblar o sexismo e muitas dificuldades”, diz Souza, sobre o nome do site.

O podcast inclui entrevistas semanais com as principais atletas do Brasil de vários esportes, do judô ao basquete, mas o blog foca especificamente no futebol. Desde que começaram, elas entrevistaram as maiores estrelas, incluindo Marta Vieira da Silva, uma das melhores jogadoras do mundo e a única jogadora de futebol do mundo que foi escolhida seis vezes como a melhor jogadora feminina do ano da FIFA.

Uma das desculpas frequentemente citadas pela falta de cobertura é que não há interesse no futebol feminino e que os jogos de mulheres não são tão competitivos ou divertidos como os dos homens. No entanto, as mulheres por trás do Dibradoras encontraram um grande público para seu conteúdo, com uma média de 1.000 downloads por podcast e 200.000 leitores médios mensais em seu blog. Elas também dizem que a história de que os esportes femininos não são populares ou competitivos faz parte de um círculo vicioso que parte da visão sexista do que as meninas devem fazer quando crescerem.

“Em comparação aos meninos, as meninas quase não recebem treinamento de futebol no Brasil”, diz Souza. “Elas não são incentivadas a treinar na escola, porque o esporte continua sendo uma coisa masculina. Isso tem consequências no esporte profissional, porque há pouco investimento. Obviamente, se você escolher uma garota que começou a treinar aos 15 anos e compará-la com um menino que começou aos 7, eles terão um nível técnico diferente.”

As mulheres que cobrem esportes são frequentemente vítimas de assédio. Em março de 2018, repórteres esportivas brasileiras lançaram a campanha #DeixaElaTrabalhar. A hashtag se tornou viral, assim como um vídeo mostrando imagens de repórteres sendo beijadas e assediadas durante as transmissões.

Uma cobertura correta do esporte feminino --especialmente o futebol-- pode ajudar a quebrar esse ciclo de sexismo, de acordo com a equipe Dibradoras, porque dá às meninas um modelo de mulheres para se espelhar.

“Os ídolos que nos inspiram estão na TV. Os meninos assistem aos jogos da Copa do Mundo sonhando em um dia poderem disputa-la dentro de campo”, escreve Mendonça em um post recente no blog. “Até agora, as meninas também – elas sonham em ser como Neymar, como Coutinho ou Firmino, em vez de se inspirarem em Marta, Cristiane, Formiga.”

Houve vários avanços na cobertura do futebol no Brasil, que o Dibradoras apontou em um de seus últimos vídeos. Entre eles, mais mulheres repórteres estão cobrindo os principais eventos esportivos e liderando painéis sobre futebol.

“Conquistamos um espaço que costumava ficar restrito aos homens: o da formação de opinião”, diz Mendonça, referindo-se aos programas de televisão sobre futebol que agora incluem mulheres.

Por exemplo, Viviana Vila ​​​​​​é uma jornalista argentina que se tornou a primeira mulher a oferecer comentários durante a Copa do Mundo nos Estados Unidos quando foi comentarista da Telemundo durante o torneio de 2018. Outro exemplo é o Comenta Quem Sabe, uma mesa redonda exclusivamente feminina da Fox Sports no Brasil, que inclui as jornalistas e analistas Vanessa Riche, Livia Nepomuceno e Daniela Boaventura, e Ana Thaís Matos, uma repórter que agora é membro permanente do programa Troca de Passes na SporTV no Brasil.

Outra vitória das mulheres na cobertura esportiva é o anúncio de que a Globo transmitirá pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina da FIFA 2019, que será realizada em junho na França.

“A partir de 2019, as meninas também poderão se projetar naquelas que foram (e são) como elas: as 'intrusas' do mundo da bola, aquelas que insistiram em jogar quando tudo em volta insistia em dizer que elas não poderiam estar ali", escreve Mendonça. “As garotas de hoje poderão sonhar em ser as jogadoras de amanhã representando o Brasil em um Mundial.”


A imagem principal é de Angelica Souza, fundadora do Dibradoras. Todas as imagens são cortesia de Claudia Jardim.

Irene Caselli é uma jornalista freelance multimídia com 14 anos de experiência na mídia impressa e eletrônica. Ela reportou da América Latina por uma década e atualmente mora na Itália. Ela colabora regularmente para a mídia internacional, como a BBC News, Washington Post, New York Times, Guardian e Monocle. Ela é uma editora colaboradora do Index on Censorship.