A luta contra a desinformação nas redações africanas

porHannah Ojo
Aug 12 em Fact-checking e verificação
AWiM

Em julho, jornalistas em toda a África se reuniram em Nairóbi, no Quênia, para exibir reportagens produzidas por mulheres africanas de diversos meios de comunicação.

Na conferência African Women in the Media (AWiM) deste ano, que foi iniciada em 2016 por Yemisi Akinbobola, e tem como missão impactar positivamente a forma como a mídia funciona em relação às mulheres, palestrantes exploraram as abordagens e intervenções que as mulheres da mídia estão usando para combater a desinformação.

Marceline Nyambala, diretora executiva da Associação de Mulheres da Mídia no Quênia, moderou a sessão “Além da desinformação, notícias falsas e pós-verdade”, durante a qual as palestrantes examinaram os contextos político, tecnológico e social da desinformação na África e o que pode ser feito para conter sua disseminação.

A seguir estão os principais destaques do painel:

A paisagem de desinformação no Quênia

Ann Ngengere, editora-adjunta do PesaCheck, a primeira iniciativa de verificação de fatos de finanças públicas da África Oriental, que concentra seus esforços em declarações feitas por funcionários públicos sobre orçamentos e finanças públicas, explicou que os quenianos são rotineiramente expostos a informações erradas de várias fontes. Ela acrescentou que o viés de confirmação — quando um indivíduo busca fontes que confirmam o que eles pensam ser verdade, em vez de coletar os fatos reais — é um problema comum.

Ngengere também discutiu os desafios enfrentados pelos verificadores de fatos no país, notadamente a falta de fundos e o acesso a dados oportunos.

“O desafio da vida útil de uma matéria é que os dados necessários para a checagem de fatos podem se tornar disponíveis muito tempo depois que a declaração foi feita. [Isso] é uma grande desvantagem”, disse ela.

Finalmente, ela abordou a questão da circulação limitada dos resultados das checagem de fatos. "A menos que a checagem toque em algo muito popular, geralmente têm circulação limitada", explicou ela.

Alcançando o nativo digital

Como uma das painelistas, compartilhei minha experiência trabalhando com redações na Nigéria como bolsista TruthBuzz do ICFJ. Falei sobre a estratégia que usei para ajudar verificadores de fatos a atingir públicos mais amplos, que giravam em torno de transformar relatórios de verificação de fatos em conteúdo visualmente atraente, como vídeos curtos e posts em redes sociais publicados no inglês e idiomas locais.

Argumentei que uma abordagem "mobile-first" é crucial para qualquer empresa de mídia que busque alcançar a crescente base de nativos digitais no continente.

“A ascensão do digital como meio central de aquisição de informações transformou efetivamente o comportamento noticioso de um padrão comportamental de baixa frequência e muito tempo gasto a um padrão comportamental de muita frequência e pouco tempo gasto”, observa o BBC Beyond Fake News Report, que destaquei durante o painel.

Investindo em educação midiática

As cinco palestrantes do painel concordaram unanimemente sobre a necessidade de investir em projetos de educação midiática como forma de inocular o público contra a desinformação. Os cidadãos precisam ser informados sobre as fontes das notícias além da pessoa que as está compartilhando.

"O público precisa saber a quem perguntar sobre os fatos", disse Ngengere.

Lilian Mukoche, produtora de rádio e apresentadora da 103.9 MMUST FM, uma estação de rádio comunitária da Universidade de Ciência e Tecnologia Masinde Muliro, no condado de Kakamega, no Quênia, compartilhou essa visão. “A nossa estação de rádio é uma instituição de ensino superior, portanto, informar as pessoas sobre literacia de notícias é de alta prioridade. Os cidadãos precisam saber que, como indivíduos, compartilhar com responsabilidade é importante”, disse Mukoche.

Mukoche também enfatizou a importância da responsabilidade online. As empresas de tecnologia devem investir em ferramentas que identifiquem notícias falsas e reduzam os incentivos para aqueles que lucram com a desinformação, argumentou ela.

De volta ao básico do jornalismo

Discutindo o contexto político, tecnológico e social em que os conceitos de desinformação, notícias falsas e pós-verdade devem ser entendidos e combatidos, Pamella Makotsi Sittoni, editora-chefe do Nation Media Group, disse que agora é o momento ideal para a comunidade de jornalismo voltar ao básico, produzindo jornalismo que é de interesse público.

"O público está agora exposto a todo tipo de informação não filtrada — incluindo fraudes, desinformação, notícias falsas e propaganda — em todas as plataformas de disseminação", disse Sittoni. “O setor de notícias deve fornecer jornalismo de alta qualidade para construir a confiança do público, corrigir notícias falsas e desinformações sem legitimá-las.”

Como a penetração da internet continua a crescer em muitos países africanos, as organizações de mídia que lutam contra a desinformação precisam entender o cenário digital o suficiente para adotar estratégias que efetivamente capacitem os cidadãos a saber quando ignorar conteúdo enganoso ou incorreto.


Saiba mais sobre a Hannah Ojo e a Truthbuzz Fellowship no site do ICFJ

A imagem principal é a Conferência AWiM via AWiM