Lições de 3 redações do Sul Global para engajar o público

porTaylor Mulcahey
Nov 4, 2019 em Engajamento da comunidade
Maria Ressa, CEO e editora executiva do Rappler

Apesar da promessa inicial, as plataformas online não forneceram às redações a conexão sustentável com seus públicos que muitos esperavam. Ao mesmo tempo, a tecnologia continua a evoluir rapidamente e as pressões políticas sobre o setor de notícias aumentaram em todo o mundo.

Um novo relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, “What if scale breaks community?”, examina como as organizações de notícias estão se adaptando para se conectar mais fortemente com o público em meio a esses desafios. É o terceiro relatório de uma série do "Journalism Innovation Project", realizada pelo Instituto Reuter e financiada pelo Facebook, focada em aprender com as redações no Sul Global: diferente da pesquisa tradicional de jornalismo que geralmente se concentra nos meios de comunicação no Ocidente.

"Acho que essa é uma das partes mais inovadoras do projeto como um todo", disse a principal autora, Julie Posetti, à IJNet.

A equipe de Posetti analisou como três redações no Sul Global -- Rappler nas Filipinas, The Quint na Índia e Daily Maverick na África do Sul -- conseguiram engajar o público em larga escala usando plataformas online. Entretanto, eles estão encontrando agentes mal-intencionados que se aproveitam das comunidades online e combatendo a "captura de plataforma" ou como as grandes empresas de tecnologia os manipulam e os fazem dependentes demais de suas prioridades em constante mudança.

Reconhecendo que não podem mais depender de plataformas online, as redações online estão inovando nas maneiras de se conectar com os principais públicos, incluindo estratégias direcionadas de boletins, eventos offline, organização de base e programas de membership.

"Eu sempre fui consciente das manifestações de engenhosidade de pessoas que estão enfrentando as situações", disse Posetti, que realizou extensas entrevistas e se dedicou a períodos de uma semana em cada uma das redações do estudo.

Veja, por exemplo, o site Rappler. Lançado em 2012 como uma página no Facebook, o meio de notícias filipino se destacou através de investigações sobre a guerra mortal às drogas realizada pelo presidente Rodrigo Duterte e seu governo.

Através de seu trabalho, a equipe do Rappler testemunhou agentes políticos armando comunidades online contra a imprensa. Seus repórteres -- suas funcionárias, em particular -- sofreram níveis sem precedentes de assédio online.

O público do Rappler diminuiu como resultado, assim como sua receita de negócio. É nesse ponto que as organizações precisam realmente testar a inovação, de acordo com Posetti. "Sem uma audiência, qual é o sentido de uma organização de jornalismo?", ela disse.

O Rappler começou a controlar suas comunidades online através de seções de comentários altamente moderados. Eles também organizaram eventos regulares nas Filipinas, lançaram uma campanha de financiamento coletivo e um programa de associação e continuaram apoiando o Move.PH, o braço de engajamento cívico da redação.

O Quint e o Daily Maverick adotaram estratégias semelhantes para envolver melhor o público. Eles investiram em movimentos populares e incentivaram seus leitores a agir sobre questões que chamam atenção. "O que essas organizações estão fazendo é investir muito em suas comunidades em nível local e nacional", disse Posetti.

Eles também se voltaram para membership ou associação.

O Daily Maverick obteve notável sucesso com seu modelo de associação, que representou 22% de sua receita até agora em 2019. O meio de notícias da África do Sul está superando o Quint e o Rappler em termos de associação, talvez porque nunca tenha dependido tanto das mídias sociais para impulsionar engajamento em primeiro lugar, observa o relatório. O Daily Maverick inovou com outros métodos de engajamento, como eventos e boletins.

Posetti espera que os leitores do relatório reconheçam que essas lições podem ser aplicadas a meios de notícias fora das áreas que sua equipe estudou. Afinal, os desafios que essas redações estão enfrentando não se limitam ao Sul Global. Em todo o mundo, organizações de notícias e seus repórteres estão sofrendo assédio online, o armamento de comunidades online via pressão política, captura de plataforma -- em vários formatos -- e mais.

“Esperamos que as experiências, tentativas, erros e aprendizado dessas organizações de notícias ajudem a guiar outras organizações de notícias globalmente, já que o 'rompimento' das comunidades online causado pela manipulação e 'armamento' do público -- em escala -- é 'importado' para o Ocidente”, disse Posetti em um comunicado de imprensa para o relatório.

Em conjunto com as descobertas dos relatórios anteriores do Projeto de Inovação em Jornalismo, fica claro que a inovação ocorre de várias formas: não apenas através da adoção de novas tecnologias. No total, o projeto examinou como as organizações de notícias evitam a exaustão de formatos dinâmicos, combatem campanhas de desinformação online e, neste relatório mais recente, constroem públicos de forma sustentável.

"Há muito o que refletir aqui para o resto de nós", disse Posetti. "Qual é o conjunto essencial de qualidades para a inovação jornalística?"


O Frontline Club sediará um painel de discussão sobre os temas do relatório em parceria com o Centro Internacional para Jornalistas em 12 de novembro, com Maria Ressa, Julie Posetti, Nabeelah Shabbir e a presidente do ICFJ, Joyce Barnathan.

A pesquisadora principal, Julie Posetti, é a diretora global de pesquisa do Centro Internacional para Jornalistas.