Lições aprendidas com a formação de uma equipe de jornalismo de dados

por Sandra Crucianelli
Jan 29, 2013 em Diversos

O jornal La Nación da Argentina tem a missão de elevar o jornalismo de dados ao próximo nível.

Há um ano já estava indo nessa direção: o jornal tinha formado um equipe liderada por Momi Peralta, que soube extrair e gerenciar grandes quantidades de dados.

O próximo passo foi integrar a equipe e jornalistas que trabalham em projetos de jornalismo de dados. Eu trabalhei com o La Nación para alcançar esse objetivo, como parte da minha bolsa do Knight International Journalism Fellowship. O resultado é o que você vê na foto: um verdadeiro “Data Journalism Team” (equipe de jornalismo de dados).

Em um país sem dados abertos e nenhuma lei nacional sobre o acesso à informação pública, precisei desenvolver uma estratégia que teve como marca registrada a sua flexibilidade. Qualquer teoria podia ser submetida a uma análise crítica até encontrar o caminho mais adequado.

Algumas lições aprendidas:

Identificar o que funcionou em outros veículos

Durante a minha participação no estudo sobre equipes de jornalismo de dados publicado pela Centro Internacional para Jornalistas, pude analisar como trabalham as equipes de jornalismo de dados no mundo e, mais especificamente, na América Latina, como a equipe do La Nación da Costa Rica e do jornal O Globo no Brasil. Assim, fomos capazes de usar o que aprendemos com outras equipes para formar a nossa própria equipe de jornalistas e técnicos.

Incorporar um coordenador

É importante ter um especialista em processamento de dados para participar de reuniões com os editores quando as decisões são feitas sobre as notícias do dia e da semana.

Evangelizar

O diálogo foi vital durante reuniões informais com jornalistas, basicamente para mostrar histórias de sucesso. Geralmente, os jornalistas associam o jornalismo de dados com matemática e estatística, duas matérias pouco populares dentro da redação. Mas quando eles percebem que a partir de grandes volumes de dados podem encontrar histórias que geram alto impacto, essa percepção muda.

Trabalhar pelo projeto

As metas de médio e longo prazo funcionam melhor no jornalismo de dados, por não estarem sujeitas à pressão da notícia diária, especialmente quando você não pode ter 100 por cento do tempo dos repórteres. Para fazer isso, os editores combinam com o jornalista interessado em trabalhar com dados que parte de sua semana de trabalho será dedicada a esse tipo de jornalismo, sabendo que o resultado que você recebe não é o mesmo item que a concorrência, mas um produto original, na maioria das vezes, um furo de notícia.

Dar maior visibilidade ao projeto de dados

Levantada a necessidade, o que fizemos foi ir além de dar espaço de destaque para o Blog de Dados. O jornal criou a etiqueta "Nacion Data" e projetou um canal de dados, como produto único do seu tipo, em que o conteúdo de dados foi unificado. Este foi incorporado na barra de seções da primeira página da edição digital em meados de 2012.

Entrar em consenso sobre as boas práticas

  • Verificação de dados com outras fontes.
  • Verificação aleatória de dados em uma amostra do universo em estudo, pelo menos três vezes
  • Narrativa não muito extensa ou sobrecarregada com informação numérica.
  • Remeter as conclusões à visualização e mencionar a documentação de apoio sobre o qual o trabalho se baseou.
  • Visualização interativa destacada. Uso de uma série de recursos não muito extensa, mas versátil o suficiente para que poder oferecer soluções para todos os tipos de variáveis ​​no estudo.
  • Compartilhar com os dados abertos com a audiência abertas através de planilha do Google.
  • Mostrar ao público a documentação de respaldo original completa através da plataforma Document Cloud.
  • Manter uma comunicação fluida interna, incluindo todos os membros da equipe envolvida e, em particular, os editores.
  • Manter abertos os canais de comunicação com o público através de canais participativos como comentários e redes sociais.

Desenvolver um programa de treinamento intensivo

No início de 2012 não havia um programaglobal e integral de treinamento em jornalismo de dados. Algumas experiências foram baseadas em estudos de casos e outras condições de contexto muito particular que funcionavam em um determinado país ou apenas em veículos grandes com recursos, mas deixavam em aberto uma grande lacuna em relação à mídias menores. Para isso, foi elaborado um programa de dois eixos: um geral que poderá ser replicado em qualquer outro país e outro especialmente aplicado ao caso da Argentina e facilmente adaptável a qualquer outro país latino-americano.

Aqueles que acreditam que a formação de uma equipe de dados se baseia em treinamento sobre matemática e estatística, estão enganados. Não se trata de formação. O treinamento é apenas parte do processo.

Trata-se de criar as condições de infraestrutura para que cada profissional interessado ​​em fazer parte de uma equipe desta natureza possa ter os recursos de tempo e forma para resgatar as histórias escondidas por trás dos números.

Foto: Equipe de jornalismo de datos do La Nación, liderada por Momi Peralta Ramos.

Sandra Crucianelli, bolsista do Knight International Journalism Fellowship, é jornalista, pesquisadora e professora. Crucianelli se especializa em recursos digitais e jornalismo de dados, e continua trabalhando como consultora no La Nación, da Argentina.