Líderes de revista feminista na Argentina compartilham dicas para cobertura do feminicídio

byJacqueline Strzemp
Sep 09 in Temas especializados

Após uma votação histórica desafiando a proibição do aborto na Argentina, que não conseguiu passar no Senado, não faltaram discussões sobre questões femininas no Media Party em Buenos Aires.

Florencia Alcaraz e sua equipe de cinco mulheres da LatFem, uma revista argentina voltada para cobrir notícias latino-americanas a partir de uma perspectiva feminista, subiram ao palco para falar sobre as melhores práticas para cobrir questões de feminicídio e violência doméstica: um problema desenfreado na América Latina. As palestrantes mostraram exemplos de artigos publicados por agências de notícias nacionais, apontando estereótipos prejudiciais usados para descrever as vítimas, incluindo expressões como "amante de discotecas", vítima de "um crime passional" e mais.

A equipe forneceu dicas sobre como escrever esses artigos livres de estereótipos e vieses implícitos. Por exemplo:

Evite usar eufemismos e estereótipos

Fale explicitamente sobre os eventos e as pessoas envolvidas neles. Usar linguagem críptica como "um crime passional" pode minimizar um assassinato ou caso de violência doméstica. Equacionar paixão e violência também estabelece um precedente perigoso para relacionamentos e normaliza o abuso doméstico.

Da mesma forma, evite comentar sobre a vida pessoal das vítimas, pois isso desvia a responsabilidade pelo crime, resultando em culpar a vítima. Também reforça preconceitos culturais em torno da violência contra as mulheres.

Seja direto e use voz ativa

Em uma matéria sobre feminicídio, há uma tendência de se concentrar na vítima, minimizando o papel do perpetrador. É importante ser direto e usar voz ativa ao descrever as ações do perpetrador e sua relação com a vítima. Isso coloca a responsabilidade pelo crime no agressor, deixando a culpa longe da vítima.

Use dados para mostrar um padrão

O feminicídio é um problema recorrente. Isso não significa que a violência contra os homens nunca ocorra, mas sim que ocorre em um ritmo muito menor. Ainda assim, muitas pessoas não conseguem entender a gravidade do feminicídio ou qualquer tipo de violência contra as mulheres. Os repórteres têm a responsabilidade de esclarecer a questão usando dados de fontes respeitáveis, como as Nações Unidas, que podem ajudar a ilustrar a prevalência do problema.

Use várias fontes

Como qualquer reportagem, inclua uma ampla gama de vozes e fontes sobre um problema. Dados policiais e comentários nas redes sociais são um ótimo ponto de partida, mas ir além dessas fontes ajuda a pintar um quadro mais completo de um evento violento e o problema da violência contra as mulheres em geral.

Para mais informações, confira este recurso da IJNet sobre reportagem sobre violência de gênero e este guia do La Marea e Oxfam.

Imagem sob licenca CC Unsplash via Héctor Martínez