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Conselhos para cobrir casos de violência de gênero

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Conselhos para cobrir casos de violência de gênero

Cristiana Bedei | 12/06/18

De matérias do #MeToo a casos de casamentos forçados, exploração sexual e feminicídio, a cobertura diária da mídia sobre violência contra mulheres e meninas indica uma maior atenção ao problema e reconhecimento crescente de seu alcance e extensão em todas as sociedades. Mas, à medida que o tópico se torna parte do debate público, é crucial analisar a forma como a mídia informa sobre um assunto tão delicado.

Um estudo de 2015 de uma organização de pesquisa australiana destacou algumas falhas comuns na forma como a mídia retrata a violência contra as mulheres, incluindo matérias sensacionalistas, perpetuando mitos e deturpações, além de culpando as vítimas direta e indiretamente.

Analisando o conteúdo de 23 diferentes diretrizes internacionais de mídia, o estudo identificou algumas recomendações gerais para jornalistas: informar o contexto social da violência masculina, usar linguagem e terminologia corretas, evitar transferir a culpa para a vítima ou oferecer desculpas para a violência masculina, consider como a seleção de fontes molda a matéria e fornecer informações sobre onde procurar ajuda.

Além dessas sugestões úteis, abordar a violência física, psicológica, econômica e sexual baseada em gênero é uma prática complexa que requer um profundo entendimento da questão para melhor proteger as sobreviventes, atender ao público e, finalmente, educar e promover uma mudança social.

Conversamos com duas jornalistas experientes na cobertura desse tema sobre como reformular narrativas tradicionais e desafiar práticas tradicionais de reportagem.

Avaliar os perigos para as fontes 

Se você entrevistar uma pessoa vulnerável que passou por um evento traumático, é essencial garantir que a matéria não coloque sua segurança em risco.

"Você precisa fazer um tipo de avaliação de risco com suas entrevistadas, já que algumas vão pensar muito sobre isso enquanto outras não terão a menor ideia", diz Lara Whyte, repórter independente e editora de projetos especiais sobre gênero, sexualidade e justiça social da 50.50 do openDemocracy.

Certifique-se de que a entrevistada saiba exatamente onde a matéria aparecerá e avalie se ela está ciente e pronta para a publicidade que pode seguir.

“Entrevistar um político é muito diferente de entrevistar uma refugiada, e a infraestrutura dessa pessoa tem um impacto sobre o que vou publicar”, acrescenta Lara. “A principal coisa aqui é que só porque você pode publicar, não significa que deveria.”

Faça entrevistas cuidadosamente (e não chore)

Lara, que contou histórias de muitas mulheres yazidis que sobreviveram às atrocidades do Estado Islâmico, entra em contato com suas fontes dias ou semanas antes de marcar uma data para uma entrevista, quando possível.

“No dia, começamos com um 'aquecimento', fazendo com que elas conversem e [se sintam] confiantes, e tentando coletar alguns detalhes de suas vidas”, diz ela. "Então vamos para as coisas difíceis. Eu deixo bem claro que podemos parar a qualquer momento, podemos voltar, não há respostas erradas e tudo bem se elas querem parar, começar de novo ou parar completamente."

Ao falar de experiências extremamente privadas e traumáticas, é compreensível acabar chorando.

"Eu espero e ouço ou se é apropriado dar um abraço", diz Lara. “Eu nunca choro em entrevistas, mas muitas vezes eu choro quando transcrevo ou no final de uma matéria se for angustiante.”

A razão para isso é que você nunca quer fazer alguém sentir que há algo que aconteceu é demais, ela explica, enquanto estão sendo corajosas o suficiente para compartilhá-lo.

“[Uma vez] a parte traumática da entrevista acabou --e, novamente, deixo que elas guiem isso dependendo da reação delas-- eu faço pelo menos 10 minutos de perguntas distintas para voltar ao normal”, ela diz.

Vá além das imagens estereotipadas

Lágrimas, hematomas e sangue --representações estereotipadas da violência contra as mulheres-- ainda dominam a mídia, de acordo com Stefania Prandi, jornalista e fotógrafa que recentemente denunciou o abuso de mulheres trabalhadoras rurais na Espanha, Marrocos e Itália.

Essas representações não só não comunicam a complexa realidade da violência baseada no gênero, ela explica, mas a exposição repetida pode aumentar a tolerância dos espectadores em relação a diferentes atos violentos.

“Me recuso a seguir esses clichês que considero depreciativos, prejudiciais e inúteis”, diz Stefania.

Depois de passar dois anos investigando fazendas na região do Mediterrâneo, ela agora está exibindo as fotografias que fez em mostras por toda a Itália. Os jornalistas podem se sentir pressionados a sensacionalizar as histórias com cenas dramáticas, mas é importante evitar a exploração de situações e pessoas, em vez disso, concentrar-se em humanizar suas experiências e respeitar seus limites.

“A mostra é composta de retratos e fotos dos campos que [apenas revelam] o que as trabalhadoras rurais permitiram que eu fotografasse. É um trabalho feito respeitando os limites que me foram solicitados”, diz ela.

Cristiana Bedei é jornalista freelance, com foco em gênero, sexualidade, direitos das mulheres e saúde mental.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Sunyu

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