Jornalistas em risco de ataques precisam de ação, não apenas de palavras

por Javier Garza
Aug 7, 2014 em Diversos

Oficiais, jornalistas e observadores que participaram da reunião do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas se concentraram em um propósito nobre: promover a liberdade de imprensa e a segurança dos jornalistas em todo o mundo.

Mas, ao mesmo tempo, eles não conseguiam responder a uma pergunta básica: Por que a violência contra a imprensa está aumentando apesar de anos de esforços para reduzi-la?

Na reunião, representantes nacionais falaram sobre "vontade política", um clichê muito útil para declarações inúteis. No lado oposto, jornalistas e ativistas exigiram uma "ação política real" para resistir a ataques contra a imprensa. Ambos os lados pareciam estar falando sozinhos.

O sofisticado Palácio das Nações em Genebra estava muito longe da realidade que os jornalistas enfrentam em todo o mundo. Em 2012, a Unesco convocou representantes da mídia e organizações não-governamentais para lançar um "Plano de Ação" que iria produzir mecanismos de proteção para jornalistas de todo o mundo. Dois anos mais tarde, o vice-diretor da Unesco, Getachew Engida, francamente admitiu que o plano ainda está "apenas no papel".

Enquanto isso, um jornalista é morto em algum lugar no mundo a cada 13 dias. A maioria deles (dois de cada três) são alvos diretos, ou seja, não são vítimas de um fogo cruzado, de acordo com números apresentados no conselho. Estas agressões são seguidas de impunidade quase total.

Mais tarde, em um painel com Frank LaRue, relator especial para a liberdade de expressão que está deixando seu cargo na ONU, percebi que um dos obstáculos para conseguir uma melhor proteção aos jornalistas é a falta de acompanhamento para determinar se os esforços internacionais são bem sucedidos.

Eu vi isso em primeira mão no México. LaRue passou uma boa parte do seu mandato promovendo a segurança do jornalista no meu país. Em resposta, o governo mexicano criou um mecanismo de proteção para jornalistas em risco e um promotor especial para crimes contra a imprensa. Pelo menos para a ONU, a missão estava cumprida. Mas o mecanismo de proteção e acusação de criminosos que atacam a imprensa se ​​revelaram insuficientes e ineficientes.

Mesmo com essas duas instituições, que estão trabalhando para melhorar a situação há dois anos, os ataques contra jornalistas estão em ascensão. Já que a ONU tem que confiar na "boa vontade" de cada país para punir ataques à imprensa, mas não tem meios de aplicação, os ativistas estão pedindo a organização para "nomear e envergonhar" os governos que se recusam a cumprir a proteção dos jornalistas.

No entanto, jornalistas e organização de mídia não podem esperar que os governos atendam ao apelo da ONU e ajam, enquanto editores e repórteres estão sendo mortos, sequestrados, espancados, ameaçados, processados, hackeados ou espionados. Também não podemos esperar uma solução "tamanho único".

Manuais de segurança produzidos por organizações como o Comitê para a Proteção dos Jornalistas são uma ferramenta inestimável para os jornalistas, mas não levam em conta as diferenças regionais em todo o mundo e dentro de cada país que produzem riscos diferentes para os jornalistas. Um repórter na Síria enfrenta riscos muito diferentes de um repórter no México. E mesmo dentro do México, um repórter em uma região tem um risco diferente de seus colegas em outra região.

Os observadores internacionais que monitoram a situação da imprensa em todo o mundo precisam de melhores ferramentas para monitorar as condições em que os jornalistas trabalham. Eles também precisam de uma maneira mais precisa para diagnosticar os problemas e para determinar se os governos nacionais estão mantendo seus compromissos de proteger a liberdade de imprensa.

Essa ferramenta está sendo desenvolvida no México pelo Centro Internacional para Jornalistas e a Freedom House. O meu colega Jorge Luis Sierra, diretor do Knight International Journalism Fellowships do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) (e ex-bolsista Knight) criou um mapa que monitora ataques a jornalistas por tipo de agressão (física, psicológica, digital ou legal), por tipo de atacante ou tipo de notícia que o jornalista está cobrindo.

A riqueza de dados que surgiu desde que o mapa foi lançado em 2012 é o que nos permite produzir um melhor diagnóstico do ambiente enfrentado pela imprensa no México. Podemos colocar um microscópio sobre as dinâmicas regionais de ataques contra jornalistas no México e a forma como evoluem e se modificam ao longo do tempo.

Esta análise permite a jornalistas em qualquer lugar do país terem uma melhor noção dos perigos mais imediatos que enfrentam, porque leva em consideração a natureza e as características das agressões em suas regiões. Desta forma, eles podem desenvolver planos de proteção e protocolos que estão mais perto de suas próprias realidades.

Como bolsista do Knight International Journalism Fellowship do ICFJ, um dos meus projetos é analisar os dados produzidos por este mapa de um olho no desenvolvimento de melhores protocolos de segurança para os jornalistas, protocolos que levem em conta as dinâmicas regionais dos ataques contra a imprensa. Os dados coletados até agora apontam para necessidades urgentes de proteção em várias regiões do México. Nosso objetivo é fazer com que o mapa evolua para uma ferramenta que vai permitir que repórteres e editores obtenham uma melhor avaliação da sua segurança.

Vou falar mais sobre como pretendemos usar os dados em artigos futuros, mas por agora, todos nós podemos usar a ferramenta para obter um panorama dos ataques contra jornalistas no México e realmente fazer algo sobre isso.

Javier Garza é um bolsista no México do Knight International Journalism Fellowship do ICFJ. Ele foca em segurança digital para jornalistas.

Imagem cortesia de Javier Garza