Jornalista do mês: Oleksandra Horchynska

porLindsey Breneman
Nov 3, 2019 em Jornalista do mês
Oleksandra Horchynska

Em meio à cobertura internacional da anexação da Crimeia e do inquérito de impeachment nos EUA, a Ucrânia não está fora da atenção internacional atualmente. Essa atenção, no entanto, ofusca muitas outras histórias.

A jornalista ucraniana Oleksandra Horchynska concentra seu trabalho nessas histórias menos contadas, sobre tópicos frequentemente considerados tabus, como a comunidade LGBTQ+, trabalho sexual, violência de gênero e mais.

Sua reportagem ganhou vários prêmios, incluindo o Prêmio Charlie por uma matéria que descreve a vida de quatro pessoas transgêneras. Ela também recebeu um Prêmio Presszvanie por uma reportagem sobre um patologista ucraniano que trabalha em más condições.

"Mostramos à nossa audiência as más condições, a falta de reparos e os baixos salários das pessoas que trabalham lá", disse Horchynska, sobre a última reportagem.

Horchynska se formou no Instituto de Jornalismo da Universidade Nacional Taras Shevchenko de Kiev em 2013, com foco em publicação e edição. Ela trabalhou em agências ucranianas como Update, Weekend e Detector Media, antes de seu trabalho atual como repórter da NV, uma agência online que publica em ucraniano e russo.

Horchynska in front of a sign for her news organization.
Horchynska em frente a uma escultura da sua organização de notícias.

 

Horchynska geralmente inclui perspectivas de soluções em suas reportagens. Ela também criou um nicho no jornalismo científico, cobrindo saúde, uso de drogas, doenças e morte.

"Percebi que o jornalismo científico não é muito popular na Ucrânia", disse ela. “Nem sequer pode ser considerado uma área separada do jornalismo. Faltam jornalistas realmente interessados em ciência.”

Seu interesse no tópico levou a maiores oportunidades, especificamente as que encontrou na IJNet. Ela participou de um seminário de jornalismo científico na Sérvia e da Conferência Mundial de Jornalismo Científico (WCSJ) na Suíça e viajará para um seminário ecológico em Lviv, na Ucrânia, e a Conferência Mundial de Ciência em Budapeste.

IJNet: Você aborda tópicos que são frequentemente considerados tabus. Como é a cobertura desses tópicos na Ucrânia?

Horchynska: Sim, essas áreas são tabu na Ucrânia, e é por isso que escolhi reportar sobre elas. Se todas essas coisas existem todos os dias no nosso mundo, significa que alguém precisa falar sobre elas, e esse "alguém" sou eu.

Para ser sincera, é muito difícil abordar esses tópicos e permanecer emocionalmente distante. Eu acho que existe um tipo de trauma profissional que muda você por dentro e tive vários casos [disso] quando trabalhei com tópicos muito complicados e com carga emocional.

Por exemplo, eu cobri o Dia da Lembrança, um evento para pais que perderam seus filhos por causa de câncer, o Death Cafe, uma reunião para as pessoas falarem sobre a morte enquanto bebem uma xícara de chá e comem bolo, e histórias de mulheres lutando contra o câncer de mama. Após essas matérias, eu precisava de tempo para me recuperar e reiniciar. No entanto, acho que é muito importante para a sociedade falar sobre esses tópicos.

Gosto de histórias não triviais: histórias que mostram a vida das pessoas do outro lado do conceito de normalidade. As pessoas são interessantes, inesperadas e inspiradoras, você só precisa ouvi-las.

Horchynska at Pride in Kyiv.
Horchynska em um evento de orgulho gay em Kiev.

 

Quais desafios específicos você encontra nos seus relatórios?

Por causa do conflito militar em Donbass e da anexação da Crimeia, muitos jornalistas optaram por reportar nessa área. Os conflitos também geraram novos desafios para o jornalismo ucraniano, incluindo propaganda, ataques regulares a informações, notícias falsas e muito mais.

Quando eu era mais nova, meus colegas mais velhos sempre me diziam que anos atrás o jornalismo na Ucrânia era uma "profissão masculina". Mas quando eu estava na faculdade, percebi que os tempos haviam mudado. Havia apenas cinco meninos entre meus colegas de grupo. As meninas dominavam.

No entanto, eu enfrentei discriminação por idade e sexismo. Algumas pessoas me disseram que eu sou "muito jovem para entender" alguma coisa, ou se eu cometer um erro, [elas disseram] é porque eu "não tenho experiência" ou "é normal para uma garota tão jovem".

Horchynska at the 2019 World Conference of Science Journalists.
Horchynska na Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN) durante a Conferência Mundial de Jornalistas de Ciências de 2019.

Que conselho você daria para aspirantes a jornalistas?

O jornalismo não é apenas uma profissão, mas um estado de espírito. Você precisa estar preparado para horários de trabalho irregulares, como às vezes trabalhar nos fins de semana, o que pode levar a excesso de trabalho ou esgotamento.

Jornalismo é comunicação com pessoas diferentes, e você precisa encontrar uma abordagem para se comunicar com todos. Nem todo mundo é agradável e fácil de se comunicar, e às vezes você precisa ter paciência e resistência.

O jornalismo também não o tornará rico, pelo menos, não na Ucrânia.

Às vezes você pode desistir por causa de tudo isso. Você pode mudar para uma profissão mais lucrativa ou descansar. Somente pessoas verdadeiramente apaixonadas por seu trabalho podem passar por esses momentos difíceis e continuar.

Espero que você encontre seu próprio caminho, seu próprio tipo de jornalismo, o melhor editor com quem trabalhar, um público apreciador e seu estilo pessoal. Você pode encontrar o seu caminho somente se não tiver medo de tentar funções diferentes e se não tiver medo de cometer erros.


Todas imagens cortesia de Oleksandra Horchynska