Jornalismo transfronteiriço floresce na Venezuela

porPriscila Hernández
Aug 06 em Jornalismo investigativo
The RunRunes team at the IPYS Awards

Em meio a protestos, violações de direitos humanos, crise alimentar e instabilidade social, jornalistas na Venezuela potencializaram seu trabalho através de colaborações. A aliança editorial entre repórteres e editores de outros países ajudou a investigar questões que de outra forma teriam sido ingnoradas pela agenda oficialista.

O escopo do jornalismo em colaboração foi confirmado com os trabalhos premiados no VIII Concurso Nacional de Jornalismo Investigativo do Instituto Imprensa e Sociedade (IPYS) da Venezuela.

"Há uma particularidade em todas essas investigações, que é o trabalho colaborativo não só dentro da Venezuela, onde uma rede de jornalismo digital foi formada, mas também com organizações da região, como CONNECTAS, e outras regiões, como o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP). Vemos que essa conexão tem sido importante para entender que as questões da Venezuela vão além de suas fronteiras", afirmou a diretora do IPYS Venezuela, Nela Balbi.

Por oito anos este prêmio foi concedido às melhores investigações jornalísticas do país. O prêmio só interrompeu sua entrega devido aos protestos na Venezuela em 2017, mas voltou este ano.

Pela primeira vez, o júri atribuiu o primeiro lugar a duas investigações. Uma delas foi o projeto de equipe do portal Runrunes, que realizou a pesquisa "OLP: a máscara do terror oficial na Venezuela", um trabalho de Ronna Rísquez, Lorena Meléndez, Carmen Riera e Lisseth Boon, com a visualização e design de uma equipe do RunRunes.

O especialista em segurança de jornalismo e ex-bolsista ICFJ-Knight, Jorge Luis Sierra, compartilhou com a equipe uma série de ferramentas para segurança investigativa. "Ele nos deu protocolos que nunca havíamos seguido antes. Como administrar nossas conexões e nos comunicar uns com os outros quando estávamos em campo era novidade para nós", disse Ronna Rísquez, uma das autoras do projeto.

A matéria do OLP foi destacada no Washington Post e em outros veículos de comunicação, mostrando como essas histórias criam impacto além das fronteiras.

A colaboração também fortaleceu o uso de novas técnicas de jornalismo em um contexto de censura e repressão, como foi o caso de Julett Pineda e Edgar López, do Efecto Cocuyo. Esses repórteres, com apoio do OCCRP e do ICFJ, investigaram como o projeto Arco Minero --promovido pelo ex-presidente Hugo Chávez-- levou à mineração ilegal, danos ambientais e danos a comunidades indígenas na Venezuela.

A aliança entre o Efecto Cocuyo e repórteres de outros países permitiu que usassem a ferramenta Macroscope Media para acessar fotos de satélite da NASA para confirmar que mais de 200 hectares foram desmatados entre 2016 e 2017 pelo projeto de mineração.

"Essa colaboração nos permitiu confirmar o desastre ambiental que estava ocorrendo na área que estávamos investigando", disse Laura Weffer, diretora editorial e cofundadora do Efecto Cocuyo. “Foi um grande exercício interdisciplinar porque passamos por muitos estágios diferentes, desde reportagens de rua em um vilarejo abandonado e perigoso até o uso de imagens de satélite. Foi jornalismo colaborativo entre pessoas e entre disciplinas. Acho que isso deu à nossa investigação um ângulo diferente e inovador.”

Este ano, o Prêmio IPYS também foi aberto a jornalistas estrangeiros que realizaram pesquisas e reportagens na Venezuela, como foi o caso do jornalista colombiano Hugo Mario Cárdenas, do jornal El País, em Cali.

A investigação, "Venezuela, Crime Sem Fronteiras", que foi apoiada pela CONNECTAS como parte de sua parceria com a Iniciativa para o Jornalismo Investigativo nas Américas do ICFJ. A investigação provou como as guerrilhas e gangues criminosas na Colômbia estão ligadas à Guarda Bolivariana Nacional da Venezuela e demonstrou como esses grupos controlam as rotas e extorquem e ameaçam os comerciantes.

Cárdenas viajou pela fronteira Colômbia-Venezuela e reportou o que os jornalistas locais não conseguiam devido aos riscos. "Este trabalho é um exemplo do que pode ser alcançado com o apoio do ICFJ, CONNECTAS e seu conselho editorial", disse ele.

Construir equipes transregionais ajudou a investigar questões que o Estado tenta esconder, disse Balbi. Segundo ela, a colaboração visa "combater a censura, a opacidade e a falta de acesso à informação que afetam o jornalismo no país. Por meio dessas parcerias e do trabalho colaborativo, aprendemos que precisamos buscar a informação onde quer que esteja."

Primeira imagem: Cerimônia do Oitavo Prêmio Nacional de Jornalismo Investigativo, cortesia do IPYS Venezuela. Segunda imagem: Captura de tela da matéria "Venezuela, Crime Sem Fronteiras".