Jornal de moradores de rua resiste online na pandemia e ganha documentário

porRafael Gloria
Dec 7, 2020 em Notícias locais
Homem sorrindo segura pilha de exemplares do jornal Boca de Rua

Por entre as esquinas de diversos bairros de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é comum ser abordado por pessoas em situação de rua. E, nesses casos, é possível que elas estejam vendendo um jornal impresso que pode ser adquirido por apenas dois reais. Trata-se do “Boca de Rua”, feito há quase 20 anos por um coletivo de pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

A ideia nasceu da vontade de um grupo de jornalistas de ver os moradores de rua falando por si mesmos, não apenas retratadas como vítimas ou sob o estigma de miséria. Produzido sob a coordenação da ONG Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), o periódico é realizado por pessoas com vivência de rua em todas as etapas do jornalístico — menos as partes técnicas da fase da produção que exigem um conhecimento específico, como diagramação e edição. O número é variável, mas atualmente são cerca de 30 integrantes no coletivo envolvidos desde a escolha dos assuntos das reportagens até as vendas dos exemplares em sinaleiras e nas calçadas de Porto Alegre. 

As reuniões de pauta acontecem de forma frequente sempre com os integrantes do Boca e os colaboradores da Ong Alice, normalmente estudantes de diferentes cursos de graduação ou interessados em contribuir no trabalho. A periodicidade da publicação é trimestral e as pautas são definidas por votação, em que todas e todos podem sugerir temas e o mais votados são produzidos na edição seguinte. Então, os integrantes se dividem entre as pautas basicamente de acordo com a afinidade com os assuntos ou com os colegas. Uma colaboradora ou colaborador voluntário acompanha cada grupo, auxiliando em entrevistas e fornecendo algum suporte técnico como o empréstimo de celulares, seja para ligações ou para fotografias. 

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O jornal segue uma lógica de organização e construção coletiva e horizontal, isto é, os participantes também são atuantes nas decisões principais. Para Michel Vasconcelos dos Santos, integrante do “Boca” há cinco anos, o jornal fala de assuntos que a mídia convencional não aborda. “Nós não somos como aquelas pessoas que ficam atrás de uma mesa, esperando as notícias, a gente bota a cara e a boca na rua”, diz. Por isso também muitos acontecimentos vivenciados nos cotidianos dos integrantes estão frequentemente entre os temas de reportagens, como a truculência policial, o descaso do Estado e a violência contra a mulher — mas também atividades e ações que visam melhorar a situação das pessoas em situação de vulnerabilidade.

Pandemia, e agora? 

A pandemia do novo coronavírus chegou no Brasil com mais força em março, o que fez o deslocamento nas ruas diminuir drasticamente. Acostumados a vender diretamente para o público, o “Boca de Rua” teve que se adaptar para continuar existindo. Aliás, adaptação parece ser a palavra-chave. Entre as mudanças realizadas, estão a periodicidade do encontros do grupo que antes eram semanais e passaram a ser quinzenais. A escola que utilizavam para as reuniões também fechou devido à pandemia e foi necessário procurar locais abertos, mantendo a distância, o uso de máscaras e os cuidados higiênicos. 

Charlotte Dafol, colaboradora do Boca há oito anos e integrante da Alice, conta que a ideia de criar uma assinatura social e fazer o Boca ser disponibilizado online nesse período foi uma ideia que surgiu do grupo em uma das reuniões. Eles conseguiram realizar duas edições online no período de maior tempo de lockdown. Entretanto, para a divulgação tiveram que dar um tempo na venda “cara a cara” e usar o terreno das redes sociais.

Charlotte Dafol, Aline e Duda conversando numa praça.
Charlotte Dafol, sentada no chão, conversa com vendedoras do jornal "Boca de Rua".

 

“A campanha funcionou muito, porque o jornal tem uma página no Facebook que tem muitos seguidores. Então, divulgamos pelo Facebook e também fizemos cards para o WhatsApp; a gente teve ajuda de colaboradores para fazer isso”, explica Dafol. Os próprios integrantes do coletivo também comentavam com as pessoas na rua, ou compartilhavam em seus WhatsApps, principalmente. Foram confeccionados cartazes da capa da edição que tinha sido lançada online, e os integrantes divulgaram, por exemplo, nas sinaleiras.

No modelo de assinatura online, aliás, as pessoas podiam contribuir com no mínimo 20 reais e recebiam as edições do jornal até o fim da pandemia em formato pdf por e-mail. Segundo Dafol, muitos apoiaram com um valor maior, ajudando desse modo a fortalecer o trabalho — no primeiro dia foram quase 100 assinaturas. 

No online, eles também conseguiram alcançar pessoas de fora do estado, e até do país, ampliando assim o público. “Ao invés de distribuir os jornais nas reuniões para eles venderem nas ruas, como sempre foi feito no Boca, a gente entregava um dinheiro, que tinha sido arrecadado dividido entre todos, seguindo o plano de financiamento que traçamos”, explica Dafol. 

Para Santos, a versão online serviu também para atrair os mais precavidos. “É como se a pessoa pegasse uma luva invisível, e a luva se chama o celular na mão da pessoa, e a pessoa vai lá, pesquisa, analisa, e no final fica tudo certo”, diz. 

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Atualmente, o jornal impresso voltou a circular. “Agora que está realmente acabando o dinheiro das assinaturas, e muita gente, enfim, voltou a trabalhar, nós tomamos a decisão de voltar progressivamente a vender os jornais”, diz Dafol. 

A equipe está decidindo se continua a edição online de forma paralela. “No momento a gente está vendo o que é melhor, têm pessoas que acham o online, e têm quem acha melhor vender cara a cara, porque têm muitos que nem pegam o jornal, mas dão uma colaboração”, diz Santos. A próxima edição, a ser lançada no início do próximo ano, vai celebrar os 20 anos de existência desse jornal que transforma e que evidencia um olhar da rua sobre a rua.

Das ruas de Porto Alegre para o mundo

Em 2020, também foi lançado o documentário “De Olhos Abertos”, que remonta a história do jornal. Dafol é a diretora e conta que a ideia de fazer essa produção é antiga. “Os próprios integrantes do Boca queriam e falavam direto sobre isso. Só que a gente demorou para colocar em prática, por motivos financeiros, ou questão de tempo”, diz. 

Poster do filme Boca de Rua

As filmagens começaram no início de 2019, e duraram cerca de quatro meses. Depois houve ainda mais um tempo para a pós-produção. “É um trabalho que eu encabecei, mas os integrantes do Boca participaram bastante, deram ideias, opinaram, enfim, foi um trabalho feito muito junto”, explica. 

Com a pandemia, o filme ainda não teve uma exibição em salas de cinema, pelo menos no Brasil. “Mas o lado bom e ruim dessa pandemia é que os festivais ao invés de acontecerem em cinemas, cidades, eles tão acontecendo online”, diz a diretora. O documentário teve estreia online no CIndie Festival e já passou por vários festivais internacionais, como o Inffinito Film Festival, nos Estados Unidos, em que ganhou o prêmio de melhor filme eleito pelo júri. 

As sessões de estreias oficiais do documentário “De olhos abertos” acontecerão nos dias 15, 16 e 19 de dezembro. O filme será será disponibilizado das 19h à meia-noite em uma plataforma de streaming protegida com senha.

A venda dos ingressos já está sendo realizada no próprio site do filme, sendo todo o dinheiro arrecadado revertido para a sua distribuição. O ingresso custa entre R$10 e R$20. Também há outras opções de compra para ajudar o projeto.


Rafael Gloria é jornalista, mestre em comunicação, editor-fundador do coletivo de jornalismo cultural Nonada - Jornalismo Travessia e sócio da Agência Riobaldo.

Imagens cortesia do Jornal Boca de Rua/Divulgação