Jornais comunitários redefinem percepções globais de favelas

por Anna-Catherine Brigida
Dec 8, 2016 em Diversos

Na era da globalização, é mais fácil do que nunca para alguém de Nova York ler sobre o Rio de Janeiro, Beirute ou Hong Kong. Mas essa inundação de informações despertou questões éticas para os jornalistas sobre quem pode contar histórias e como contar.

Este debate acontece em Buenos Aires, na Argentina, onde os residentes da classe trabalhadora da cidade criticavam a maneira sensacionalista e condescendente com que os meios de comunicação nacionais cobriam seus bairros. Assim, os moradores decidiram assumir o controle da narrativa da mídia com Mundo Villa, um jornal comunitário cujos correspondentes locais contam as histórias das "vilas" da cidade -- a palavra local para favela.

"O jornal começou a partir da necessidade de criar um meio de comunicação que refletisse a realidade das vilas, não da visão de um estranho, mas da perspectiva daqueles que vivem lá, sofrem e aguentam os problemas e também desfrutam as coisas boas de seus bairros", disse Joaquin Ramos, editor do Mundo Villa.

A reportagem feita por e para uma comunidade marginalizada está crescendo em todo o mundo, do Brasil à Índia, onde os moradores de favelas se organizaram para lançar seus próprios jornais para repelir o que consideram a narrativa estigmatizada na mídia.

Embora jornais como o Mundo Villa não tenham o reconhecimento que têm os jornais nacionais maiores, esse tipo de jornalismo comunitário representa a maior parte do mercado de mídia, ou o que o professor de jornalismo da Universidade de Ohio, Bill Reader, refere como "a base do iceberg".

"[O jornalismo comunitário] é de longe a maior massa de jornalismo que se faz e os maiores meios de comunicação que existem", disse Reader, cuja pesquisa se concentra em jornalismo comunitário. "Mas a maioria das pessoas que estuda mídia não percebe porque só olha para as elites, os grandes nomes."

Ignorar esses jornais menores é um desserviço para o campo do jornalismo, de acordo com Reader, especialmente porque os jornais comunitários estão muitas vezes melhor posicionados para cobrir as notícias em seus bairros. Jornalistas locais, como os correspondentes do Mundo Villa, que propõem suas próprias pautas, têm uma melhor compreensão de suas comunidades e do que os leitores se importam. Além disso, eles cobrem questões sensíveis sem sensacionalizar os problemas que enfrentam.

A distribuição do Mundo Villa é pequena, mas direcionada. Entre 5.000 e 10.000 jornais são publicados por mês e lidos por membros da comunidade, jornalistas e políticos. Eles chegam aos leitores nas vilas e também através de seu site com uma média de 5.000 visitantes por dia, com sua página no Facebook dirigindo muito do seu tráfego.

Enquanto Ramos presta atenção nas matérias que estão indo bem, ele não quer cair em jornalismo de "clickbait", em vez de reportagens sólidas. Felizmente para ele, um dos benefícios do jornalismo comunitário é que não exige métricas complexas para descobrir o que os leitores querem.

"À medida que você fica mais localizado e as audiências ficam menores, os jornalistas se tornam muito mais membros das comunidades que cobrem e, portanto, seus interesses pessoais vão estar muito mais alinhados com a comunidade como um todo", disse Reader.

O Mundo Villa é apenas um exemplo de como o jornalismo local pode melhorar a cobertura. Antes do jornal existir, a cobertura das vilas, que abrigam 160 mil moradores ou mais, muitas vezes caíam em estereótipos sobre o nível de crime e violência nos bairros.

Uma matéria notável que deu manchetes nacionais foi publicada em 2008, quando um arquiteto entrou em uma vila disfarçado de fumigador. Ramos, um jornalista treinado, não considerou a notícia particularmente relevante. A matéria provavelmente deu manchetes apenas porque entrar nas vilas era tão tabu, disse Ramos.

Ramos esperava evitar esses tipos de matérias sensacionalistas quando cofundou o Mundo Villa. Desde então, ele notou uma diferença na cobertura desses bairros a nível nacional. Grandes jornais e emissoras de notícias cobrem mais e melhores histórias sobre as vilas, muitas vezes que foram reportadas pelo Mundo Villa primeiro. Ramos dá credito ao jornal para estimular uma mudança cultural no modo como as agências de notícias cobrem as vilas e seus residentes.

Embora o foco do Mundo Villa sempre tenha sido servir a comunidade, também desempenha um papel maior na paisagem midiática, trazendo visibilidade mais ampla a esses bairros. Isso significa que pessoas de fora entendem melhor essas comunidades e os políticos têm de cumprir as promessas que fizeram a esses cidadãos marginalizados.

"Nosso objetivo é informar sobre o que acontece nas vilas -- não só para os moradores, mas também para aqueles que não moram nas vilas -- para que eles percebam que as vilas não são apenas o que mostram na mídia", disse Ramos. "Há o outro lado disso."

Imagem sob licença CC no Flickr via OMAR-DZ