Iniciativa de reportagem destaca vida de povos indígenas em Bogotá

por Edilma Prada
Nov 22, 2018 em Diversidade
Universitária da comunidade Arhuaco em Bogotá

Em 2018, o meio independente Agenda Propia reuniu uma equipe de editores, jornalistas e fotógrafos de documentários na Colômbia para criar um espaço para contar as histórias dos mais de 37.000 indígenas que vivem na capital do país, Bogotá. Esses povos indígenas deixaram suas terras --nas montanhas, na floresta tropical e no deserto-- por causa das crueldades que sofreram durante cinco décadas de conflito armado, questões relacionadas à terra, pobreza e falta de oportunidades.

A equipe, incluindo oito jornalistas indígenas e não indígenas, aprofundou-se ao longo de quatro meses para encontrar as histórias, rostos e experiências de grupos étnicos em meio à agitação de uma cidade com mais de oito milhões de habitantes.

Por meio de workshops colaborativos e sessões abertas, os jornalistas determinaram os temas e identificaram os entrevistados para o projeto “Bogotá Indígena”. O portal online que eles criaram inclui histórias, entrevistas, retratos, imagens, documentários e vídeos.

A primeira história fornece um contexto sobre o mundo paralelo que as comunidades indígenas ocupam na maior cidade da Colômbia. Em Bogotá, 14 povos ou grupos étnicos, dos 102 que são reconhecidos pelo país, criaram seus próprios conselhos (organizações sociopolíticas tradicionais) para obter reconhecimento legal do Distrito Capital.

A segunda reportagem examina o deslocamento forçado de 12.200 indígenas que os levaram a Bogotá entre 2002 e 2017, na tentativa de escapar da violência.

A terceira história centra-se no povo embera, um grupo étnico de mais de mil pessoas que lutaram contra a fome, superlotação e percepções errôneas desde o início dos anos 90.

A mother from the Embera Indigenous community
Uma mãe da comunidade embera 

Dentro dessas histórias, vários temas emergem, incluindo o papel de liderança das mulheres indígenas, as experiências de vida dos jovens que vivem em dois mundos --em suas raízes e na vida urbana-- a condição da força de trabalho e o papel dos ​​​​​​guardas indígenas dentro da cidade.

Lições aprendidas

O desafio inicial para os repórteres foi entender dois pontos de vista distintos: a cosmovisão indígena e a dos jornalistas. Com isso em mente, os repórteres realizaram reuniões e trocas de conhecimento que lhes permitiram entender melhor as realidades das comunidades indígenas.

Mais tarde, eles desenvolveram diretrizes editoriais que serviram como roteiro para suas reportagens: apurar e escrever sobre as histórias com respeito e dignidade, visitar os bairros onde os povos indígenas constroem seus costumes comunitários, consultar uma variedade de fontes, solicitar informações públicas e identificar características de cada grupo étnico.

José Navia Lame, o editor do projeto, destacou a participação dos colegas indígenas e afirmou que seus insights possibilitaram reportagens mais equilibradas. “Estabelecemos um equilíbrio entre os interesses das comunidades e dos jornalistas, chegando a acordos que deram a essas reportagens a aparência de um documentário, mas com um gancho jornalístico”, explicou.

Ele também aconselhou os repórteres a não generalizar sobre as comunidades indígenas, uma vez que existem muitas culturas indígenas diferentes. Seus respectivos costumes e as conexões que eles fazem com a terra diferem dependendo de seu local de origem, como os Andes, a floresta tropical ou o deserto.

Para tornar o processo mais colaborativo, os jornalistas estruturaram as entrevistas como uma conversa, em vez de uma entrevista tradicional. "Inicialmente não era fácil dialogar devido à diversidade de perspectivas, mas com o passar das semanas, o processo melhorou", disse o jornalista Juan Pablo Tovar.

The Indigenous Bogota reporting team in the newsroom
A equipe de reportagem do Bogotá Indígena na redação.

Os repórteres aprenderam que, para cobrir histórias sobre essa população, é importante se familiarizar com as hierarquias sociais e como elas funcionam. Na Colômbia, muitas vezes conselhos e assembleias representam comunidades indígenas. Há também líderes ou autoridades tradicionais que são autorizados pela comunidade a agir como porta-vozes, fornecendo informações em seu nome.

"Se você começar a fazer uma reportagem, é melhor primeiro receber permissão do conselho diretor para poder falar com as comunidades indígenas ou entrar em seu território", disse Navia. "Você precisa respeitar essas hierarquias, que diferem entre os grupos étnicos."

Diana Jembuel, que falou em nome do povo de Misak del Cauca, explicou que, para engajar com as comunidades, é preciso respeitar seus costumes. “Dentro da comunidade jornalística, o tempo é limitado, mas para as comunidades indígenas o tempo é maior”, disse ela. "Eles precisam saber que você está com eles. [Você precisa] andar, tentar adotar a linguagem que eles falam e entendê-los.”

Para este tipo de reportagem é muito importante construir confiança, segundo Willander González Palmar, um representante da etnia Wayuu de la Guajira. “Nós, povos indígenas, não somos muito abertos ao mundo ocidental, aos brancos. Estamos muito fechados para proteger o que sabemos”, disse ele. “Há jornalistas que nos visitam, fazem seu trabalho e nunca mais voltam. Mais tarde, percebemos que eles diziam às pessoas coisas que não eram verdade. Portanto, é importante manter um diálogo.”

O fotógrafo Luis Ángel recomendou que, para criar o ambiente, é preciso tempo e cautela. "É fundamental deixar as coisas acontecerem e construir conexões", disse ele. "Se você conseguir essa proximidade, poderá obter uma imagem ou fotografia real e digna que respeita a privacidade da comunidade."

A iniciativa de reportagem Bogotá indígena foi possível com o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA) e de sua bolsa Governo Aberto nas Américas. Também se beneficiou da assistência de editores da plataforma Connectas e da equipe de comunicações da Organização Nacional Indígena da Colômbia.

An Indigenous person from the Amazon displaced by violence
Indígena da Amazônia deslocada pela violência

Mais diretrizes para repórteres que cobrem a experiência indígena

No site da Agenda Propia há um manual com recomendações para a cobertura de histórias relacionadas a temas indígenas, uma área em que o meio se especializou. As diretrizes incluem:

  1. Rever a legislação nacional e o direito internacional relacionados às comunidades indígenas.
  2. Aprender as normas únicas de cada aldeia, grupo étnico e comunidade.
  3. Criar uma lista de fontes indígenas e não indígenas. Isso é importante para dar voz a outros atores e apresentar reportagens justas.
  4. Realizar entrevistas em grupo.
  5. Entender os símbolos, rituais e crenças. As compreensões e histórias compartilhadas desses povos são expressas em seus objetos, tecidos, escritos, músicas e muito mais.
  6. Perguntar aos povos indígenas como querem ser identificados, pois isso dignifica seus costumes e fornece informações precisas.
  7. Fornecer o contexto histórico, social, geográfico e cultural de cada grupo étnico único.
  8. Fazer um glossário para entender o significado de termos exclusivos pertencentes a cada cultura.
  9. Caminhar pelas terras indígenas. Isso significa alocar mais tempo para solicitar permissão para acessar determinados espaços e obter acesso a pessoas autorizadas a falar em nome de sua comunidade.

Ao longo de todo o processo, os jornalistas e qualquer um que busque engajar com comunidades indígenas precisam usar uma linguagem respeitosa e evitar qualquer representação de “exotismo e visões folclóricas”, disse Fabio López de La Roche, jornalista e especialista em comunicações da Universidade Nacional da Colômbia.


A imagem principal mostra um jovem universitário da comunidade de Arhuaco em Bogotá. Todas as imagens são cortesia de Luis Ángel/Agenda Propia.

Edilma Prada (email) é uma jornalista colombiana. Ela trabalhou durante 15 anos cobrindo a história do conflito armado, paz, direitos humanos, meio ambiente, minorias étnicas e região fronteiriça. Ela coordenou a iniciativa “Bogotá Indígena” e dirige a Agenda Propia. Ela participou de projetos de jornalismo colaborativo com grupos indígenas e colegas de outras partes da América Latina. Na Amazônia colombiana, ela está atualmente fazendo uma consultoria para a Agência de Investigação Ambiental (EIA, em inglês) e é instrutora da DW Akademie.