Jornalistas estrangeiros, estudantes, professores universitários e líderes de mídia se reuniram recentemente em Washington para discutir a lacuna crítica na educação de jovens dos EUA sobre o papel da imprensa livre em sociedades democráticas.
O Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ na sigla em inglês), o Freedom Forum e a Universidade Vanderbilt organizaram um evento imersivo de dois dias, realizado na sede do Freedom Forum com apoio da Lumina Foundation. O discurso de abertura foi feito por Jason Rezaian, diretor de iniciativas de liberdade de imprensa no The Washington Post. A programação também teve mesas-redondas e pequenos grupos de discussão. O evento, que reuniu cerca de 50 pessoas, terminou com recomendações para colaborações futuras.

Para encorajar um debate aberto, o evento foi realizado sob a regra de Chatham House, que permite aos participantes de uma reunião compartilhar o que foi dito no encontro, mas sem identificar quem especificamente fez a declaração.
A seguir estão cinco conclusões do evento:
(1) Jornalistas estrangeiros têm perspectivas e experiências importantes que devem ser ouvidas por jornalistas dos EUA e todos os americanos.
Em um debate moderado por Rezaian, jornalistas de fora dos EUA descreveram as táticas cada vez mais repressivas enfrentadas em meio a retrocessos democráticos em seus países. Os participantes disseram que ouvir a experiência de jornalistas em sociedades desse tipo foi revelador, principalmente diante das preocupações crescentes com a liberdade de imprensa nos EUA.
Nos países mais opressores, o jornalismo independente é basicamente um crime punido com prisão. Em outros, o Estado assumiu o controle da grande mídia e de universidades. Há ainda nações em que os repórteres enfrentam ameaças crescentes de violência física e assédio jurídico pensado para silenciar seu trabalho.
"As pessoas no governo não querem que você exista, então a sua simples existência como jornalista independente é um ato de oposição contra eles", disse um jornalista exilado sobre seu país de origem.
Os participantes compartilharam como se adaptaram a esses desafios tão grandes. Por exemplo, em países sem universidades independentes, os veículos passaram a ser o lugar de formação da nova geração de jornalistas. Os jornalistas também falaram sobre ensinar suas audiências a acessar sites em meio aos esforços do governo para bloquear endereços online e sobre preparar os cidadãos para apurar informações em campo quando repórteres precisam fugir. Um dos participantes enfatizou a importância do networking e do compartilhamento de recursos entre jornalistas: "se um veículo for destruído, precisa haver outro que vai te substituir".
(2) Está mais difícil do que nunca praticar o dissenso nas universidades. E este é só um dos desafios enfrentados pelo jornalismo estudantil.
Universitários presentes no evento descrevem a relutância que estudantes sentem atualmente em compartilhar suas opiniões e até mesmo em produzir reportagens sobre temas sensíveis por medo de represálias dos colegas e danos futuros às suas carreiras. Isso pode inclusive desencorajar os estudantes a trabalhar com jornalismo e outras profissões de serviço público, de acordo com os participantes. "As instituições de ensino têm a responsabilidade de mostrar para as pessoas que elas podem seguir um caminho de coragem, que é o caminho do serviço público, que elas podem dizer coisas impopulares para outros estudantes, para a direção, para o conselho", disse um estudante.
O assédio que parte de outros colegas foi mais um dos desafios citados pelos estudantes na mesa-redonda. A animosidade por parte da direção e dificuldades financeiras contínuas das mídias estudantis também foram citadas, mesmo com o jornalismo estudantil desempenhando um papel cada vez mais importante em localidades onde não há nenhuma outra forma de jornalismo local.
"Nossa publicação funciona há anos carregando dívidas", disse um estudante.
Os participantes sugeriram integrar a educação sobre a mídia no currículo do ensino fundamental e médio e estabelecer redes de apoio e canais de comunicação para que jornalistas em formação se conectem entre si. Os estudantes também disseram que se beneficiariam de mais apoio contra a censura e a favor do acesso a documentos públicos, duas questões que são vitais para promover a liberdade de imprensa em faculdades e universidades.

(3) Chegar até a audiência é difícil, mas não é impossível, e os criadores de conteúdo noticioso estão abrindo caminho.
Jornalistas estão buscando formas de construir audiências em uma época de declínio da confiança na mídia e um cenário informativo fragmentado. Os participantes ainda observaram que as pessoas tendem a confiar e voltar a acessar fontes que confirmam seus vieses, portanto há muita coisa em jogo. "As pessoas não usam as notícias para desenvolver sua visão de mundo, mas sim para confirmar sua visão de mundo", disse um participante.
Para gerar confiança, os veículos precisam se comprometer a entender profundamente suas audiências. "Se não soubermos quem estamos servindo, então fica muito difícil servir bem essas pessoas", disse um fundador de mídia fora dos EUA, acrescentando que jornalistas podem aprender com criadores de conteúdo noticioso. "Eles têm um monopólio de alcance sobre as pessoas que precisamos alcançar", disse. Os bem-sucedidos criam ciclos de feedback com seus seguidores e empregam estratégias direcionadas por métricas que otimizam os algoritmos das redes sociais.
Os jornalistas também enfrentam campanhas bem orquestradas que os colocam como inimigos do povo – um tipo de propaganda que é difícil combater. Jornalistas participantes sugeriram que os veículos adotem uma "transparência radical" e dediquem tempo a cobrir pautas relacionadas à vida das pessoas, assim a audiência vai se ver representada de forma precisa e justa. "Aí eles vão questionar a propaganda."
(4) A IA vai transformar a economia da informação de formas que ainda não podemos escrever.
Jornalistas, estudantes, empregados, pessoas que estão procurando emprego – todo mundo está usando mais a inteligência artificial. Uma professora, por exemplo, explicou como ela pede aos estudantes que usem ferramentas de IA e então façam uma análise crítica das respostas recebidas. Os estudantes descreveram o uso do ChatGPT como o da Wikpedia – uma fonte de informação que deve ser corroborada. E uma professora disse que um de seus estudantes fez uma entrevista de emprego conduzida por um robô de IA.
Um grupo discutiu como o uso da IA vai evoluir. Citando um exercício de mapeamento realizado pela empresa onde trabalha, uma participante disse que a sociedade está atualmente na "fase de eficiência", com as pessoas usando essas ferramentas para tornar tarefas existentes mais eficazes. Com o tempo, teremos uma economia da informação fundamentalmente diferente, para a qual sequer temos hoje palavras para descrever. Ela disse que a transformação vai ser maior do que a provocada pelas redes sociais.
Ao longo do caminho, vão haver "sinais" de que estamos saindo da fase de eficiência para a fase de transição para a fase de um novo ecossistema. Por exemplo, quando começarmos a usar a IA para tratar novos problemas criados inteiramente pela nova tecnologia.
Neste contexto, é vital ter especialistas que criam ferramentas de IA em eventos como este nosso, disse um participante. Outros destacaram a importância de os currículos de jornalismo nas universidades adotarem uma abordagem interdisciplinar, expondo estudantes à ciência de dados e outros assuntos.

(5) Preparar a nova geração de jornalistas requer mudanças radicais de mentalidade.
Os jovens jornalistas encontram hoje perspectivas limitadas de emprego e salário, pois os veículos seguem enfrentando dificuldades financeiras. Diferentemente de gerações anteriores de repórteres, eles também ingressam na profissão em um momento de ampla desconfiança na mídia, violência online contra jornalistas e avanços de IA que estão transformando o modo como veículos jornalísticos funcionam.
Os participantes mencionaram todas essas questões, mas também observaram o quanto os jovens têm a oferecer para a profissão e o grande público. Jovens repórteres são adeptos de narrativas no ambiente digital atual. Eles também preenchem lacunas na cobertura, fazendo reportagens de interesse público sobre suas universidades para uma audiência nacional e produzindo notícias locais para as comunidades de sua região.
Houve ainda ênfase na necessidade de atualizar os currículos para, por exemplo, preparar jovens jornalistas para se protegerem de ameaças, colaborar com cientistas de dados e outros especialistas em tecnologia e entender o lado empresarial da profissão. Os participantes discutiram a importância de experiências imersivas e práticas para os estudantes e de conectar estudantes dos EUA com jornalistas estrangeiros para aprender a partir de suas experiências e ideias.
Um outro grupo de participantes explorou como poderiam ganhar forma colaborações entre estudantes dos EUA e veículos exilados. Assim como o jornalismo estudantil, a mídia no exílio muitas vezes atende a comunidades de diáspora nos EUA.
Esses e outros esforços, como levar jornalistas estrangeiros para uma série de palestras em universidades dos EUA, não só preparariam melhor os estudantes, mas iriam aprofundar o entendimento da liberdade de imprensa e o papel da Primeira Emenda para comunidades universitárias mais amplas e além.
Este artigo foi originalmente publicado pelo ICFJ, organização matriz da IJNet.
Foto principal por George Pak via Pexels.
Demais fotos cedidas pelo ICFJ.