A importância de uma cobertura responsável sobre COVID-19 na era das redes sociais

porIJNet
Jun 4, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Pessoa no telefone

Durante crises e desastres, as redações precisam ter mais cuidado com as informações que publicam. A mídia deve ter cuidado para não provocar pânico indevido. Há palavras que podem levar a ansiedade ou pânico generalizados e outras que podem tranquilizar.

Conseguir o equilíbrio entre informar os leitores sem causar pânico desnecessário é uma linha tênue que os jornalistas devem caminhar hoje.

A saúde mental dos leitores

Informar sobre o vírus mortal que infectou mais de seis milhões de pessoas em apenas alguns meses certamente está longe de ser tranquilizador. As notícias diárias sobre a pandemia podem expor os leitores a uma tremenda tensão psicológica, que pode afetar o sistema imunológico.

Por exemplo, de acordo com um estudo da Universidade Carnegie Mellon, o estresse aumenta a probabilidade de as pessoas desenvolverem o resfriado comum. Quando estressado, o corpo humano secreta um grupo de hormônios, como o cortisol, explica o estudo, que interferem no sistema imunológico.

O mesmo se aplica ao novo coronavírus, de acordo com um artigo de Yomna Ayman na revista científica Nok6a.net. A disseminação de notícias preocupantes pode levar a um estado de pânico que afeta nosso sistema imunológico e causa mais casos de infecção.

"O exagero em reportar a propagação da epidemia de coronavírus, ou o método de ignorar e zombar de medidas de precaução, resultam da ignorância e da falta de conhecimento científico real da catástrofe", disse o pesquisador e jornalista de ciência iemenita Abdel Hakim Mahmoud: "Com a divulgação de notícias sobre governantes e políticos infectados pelo vírus, a pergunta que me preocupa como especialista em mídia é: que mensagem devo transmitir ao cidadão comum de uma cidade arrasada pela guerra, como onde moro em Aden, onde a economia, os serviços de saúde, a segurança e o meio ambiente entraram em colapso?”

A desinformação pode ser fatal 

Os jornalistas têm a tarefa de avaliar as informações para garantir sua credibilidade. Com o declínio das redações tradicionais e o crescente papel do jornalismo cidadão, esse esforço hoje é ainda mais vital.

"Não estamos apenas combatendo uma epidemia; estamos combatendo uma infodemia", declarou a Organização Mundial da Saúde em fevereiro, referindo-se à disseminação de informações errôneas relacionadas ao vírus.

As informações falsas e os rumores sobre a COVID-19, online e nas redes sociais, levaram a revista médica The Lancet, a realizar um estudo sobre uma desinformação que ganhou força: a transmissão de infecção da mãe para o feto durante a gravidez. Muitos sites aproveitaram o desconhecimento das pessoas sobre o idioma chinês para publicar notícias falsas a esse respeito.

Os resultados de um estudo realizado por uma equipe de pesquisa em Wuhan indicaram que a infecção não era transmitida da mãe para o feto. Este estudo, baseado em uma pequena amostra de apenas nove mulheres, pode não ser suficiente para confirmar que o vírus não era transmitido, mas pode ser um sinal de que o que foi publicado anteriormente foi notícia falsa.

"As informações falsas representam um risco para a saúde das pessoas não menos que a ameaça do novo coronavírus e podem levar a mortes", disse o Dr. Osama Abu Al-Reb, editor de assuntos médicos da Al-Jazeera. “As informações falsas transmitidas no Irã, de que o consumo de álcool ajuda a curar o coronavírus, resultaram na morte de 27 pessoas que foram envenenadas com metanol como resultado do consumo de álcool adulterado. A subestimação do vírus pelo público e sua falha em seguir as recomendações médicas, como isolamento, medidas preventivas e outras, levaram à disseminação do vírus e ao registro ruim ou tardio de mortes.”

A primeira epidemia do gênero na era das redes sociais

A epidemia de SARS emergiu na China em 2003. A epidemia de gripe suína foi detectada pela primeira vez no México em 2009. Nos dois casos recentes, as redes sociais ainda não haviam ocupado grande parte de nossas vidas. As informações se espalhavam muito mais lentamente.

A OMS recorreu a plataformas de mídia social como Facebook, Twitter, Tencent, Pinterest e TikTok para combater desinformação e os desafios que sua disseminação apresenta.

Dr. Moath Al Thaher, diretor da Fetbinoa, uma plataforma em árabe lançada para verificar notícias através da mídia social, observou que o número de informações falsas e fabricadas ou manchetes enganosas aumentou significativamente durante a pandemia. “Precisávamos mudar o foco da nossa equipe. Tornamos as notícias sobre o coronavírus nossa prioridade e verificamos mais de 100 afirmações”, disse Al Thaher.

Enquanto isso, o jornalista mauritano Mohamed Al Habib observou: “Desde 2009, a Organização Mundial da Saúde declarou emergência de saúde pública cinco vezes, e seus especialistas monitoraram 1.483 epidemias em 172 países entre 2011 e 2018, mas nenhuma dessas epidemias atingiu o volume de circulação de notícias que o COVID-19 teve.”

“O fato de todas as pessoas possuírem meios de distribuir informações em uma escala além da imaginação, juntamente com o grau de aptidão do público em espalhar mentiras, ao mesmo tempo em que são incapazes de determinar a lógica por trás das notícias que estão compartilhando online, aumentou o nível de pânico, e refletiu negativamente sobre o comportamento de muitas pessoas ao redor do mundo”, acrescentou Al Habib. “Quando uma pessoa está distribuindo notícias, isso significa que elas estão convencidas. Isso as levará a mudar seu comportamento de acordo, o que aumentará o tamanho do pânico que varreu o mundo."

Uso adequado das redes sociais

As redes sociais podem desempenhar um papel útil durante essa pandemia. “A mídia social também tem um impacto positivo, pois facilita a conscientização e a comunicação entre funcionários, profissionais e o público. Contribui para a disseminação de informações sobre a pandemia e formas de evitá-la. Também contribui para pressionar as autoridades a lidar seriamente com o problema”, afirmou Al Habib.

Para rastrear e monitorar o que está acontecendo nas redes sociais, os jornalistas podem recorrer às redes de análise de big data ou às ferramentas de escuta nas mídias sociais, como o Talkwalker.

Ele também confirmou que a mídia social "facilitou o processo de comunicação e permitiu a implementação de decisões sobre o trabalho em casa. Também ajudou a mídia, em particular, a encontrar alternativas de comunicação direta com convidados e colegas de trabalho, e criou uma rede de informações sem precedentes sobre uma epidemia."


O autor, Abdul Kareem Aouir, foi aluno no Centro de Mentoria Árabe da IJNet 2019-20 para Startups no Oriente Médio e Norte da África.

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