Grupo de estudo está construindo uma linguagem comum para criação de aplicativos de notícias

porFriedrich Lindenberg
Jul 2, 2014 em Jornalismo digital

Enquanto muitos no jornalismo estão buscando maneiras de aproveitar a experiência dos seus leitores e usar dados para contar histórias interessantes, tecnólogos e ONGs que constroem tecnologias civis ao redor do mundo estão fazendo algumas das mesmas perguntas. Organizações como a MySociety do Reino Unido, Code for America nos Estados Unidos, Code for South Africa e Fundacion Ciudad Inteligente no Chile desenvolvem serviços que visam melhorar as interações entre o governo e os cidadãos.

Ambas organizações de mídia e ONGs estão explorando o desenvolvimento de serviços semelhantes, como iniciativas para analisar dados de legislaturas de seus países, ferramentas que facilitam a escrita e a publicação de pedidos de informação do governo, e bancos de dados que ajudam pacientes a encontrar o medicamento mais barato. Embora em alguns casos essas ONGs forneçam apenas dados brutos, sem muita análise, outras iniciativas, como a Homicide Watch DC, apagam as fronteiras entre tecnologia cívica e jornalismo.

Ao longo dos últimos anos, trabalhei em ambos os lados, como um desenvolvedor de aplicativos civis com o OpenSpending e Adhocracy, e como bolsista Knight-Mozilla no Spiegel Online, uma organização de notícias alemã. A partir dessas experiências, acredito que seria interessante para o jornalista olhar para as lições aprendidas pelos tecnólogos cívicos enquanto eles experimentam com estratégias online para o envolvimento dos cidadãos, a prestação de serviços baseados em dados e prestação de contas do governo.

Ao mesmo tempo, as iniciativas tecnológicas cívicas são movidas por muitos grupos diferentes em muitos países diferentes. Muitas vezes, um grupo irá desnecessariamente reinventar ou replicar os conceitos que já foram explorados e testados em outro lugar, sem que os grupos compartilhem experiências (e software de trabalho). Mais do que isso, muito pouco se compartilha sobre os fatores de sucesso para a tecnologia cívica --que tipos de interações funciona,, como a informação pode ser relevante para os cidadãos e como se certificar de que os serviços atendem às necessidades de seus usuários.

Para capturar essas lições, uma equipe do ICFJ CodeCamp na conferência de Bellagio em maio decidiu criar Civic Patterns, uma linguagem padrão para a tecnologia cívica. (Eu assisti ao CodeCamp como parte da minha bolsa do Knight International Journalism Fellowship do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês).)

A ideia para o Civic Patterns resulta de um livro lançado em 1977 do arquiteto Christopher Alexander, A Pattern Language (em tradução livre, Uma Linguagem Padrão). Alexander se propõe a conceituar estratégias utilizadas no projeto de casas, vilas e cidades. Seus padrões, com nomes como "Luz dos dois lados de cada quarto", "Prateleira na altura da cintura" ou "Ruas de anel, visava para que qualquer pessoa --não apenas arquitetos e urbanistas-- participasse das conversas sobre a estrutura dos espaços sociais.

Em meados dos anos noventa, a adoção da ideia de linguagens de padrões em desenvolvimento de software, na verdade, inspirou a criação do primeiro wiki, o Portland Pattern Repository. Na mesma linha, Civic Patterns tenta se tornar uma linguagem desenvolvida colaborativamente de estratégias para o envolvimento dos cidadãos, coordenação da comunidade e design de serviços na Internet.

O projeto centra-se em quatro temas: comunidade, engajamento, entrega e governo. Comunidade captura ideias como No Social Networks (redes sociais não)--não tente reconstruir Facebook para um tópico específico. Em vez disso, pense sobre como você pode interagir com as plataformas existentes. Mais ainda, Single User Mode (modo de usuário único) )requer que o serviço tenha de fazer sentido, mesmo para uma única pessoa usá-lo sozinha.

Engajamento visa projetar a atividade. Por exemplo, a noção de Push, Don't Pull (empurre, não puxe) recomenda o envio de notificações por e-mail, em vez de esperar que os usuários visitem o seu serviço regular, enquanto o padrão Don't Educate (não eduque) diz que o serviço não deve tentar educar seus usuários, mas sim eliminar a necessidade de que eles sejam educados. Por exemplo, em vez de ensinar às pessoas os aspectos legais em submeter pedidos de liberdade de informação, a plataforma pode simplesmente explicar o juridiquês e aconselhar os usuários sobre as suas opções à medida que avançam o processo.

Entrega diz respeito à atração e retenção de pessoas que usam o seu serviço. Para quem que gosta de projetos ambiciosos, Don't Boil the Ocean (não ferva o oceano) é um lembrete para limitar o escopo do serviço, enquanto o Kill Switch é uma condição de interrupção de segurança definida antes do projeto ser lançada destinada a desligar o projeto.

A última categoria, Governo, tem padrões para lidar com grandes burocracias. Estratégias como Ask Forgiveness Not Permission (peça perdão e não permissão) or Make Government Your User (faça o governo ser seu usuário) é provável que se apliquem a empresas de mídia e redações, bem como para o Estado.

Civic Patterns é o início de uma língua para aqueles que trabalham com o desevolvimento de uma tecnologia cívica. Mais do que isso, no entanto, poderia ser um vocabulário comum para todos aqueles que querem fazer aplicativos para o bem público --um grupo que certamente inclui jornalistas e tecnólogos de notícias. Naturalmente, este trabalho não está de forma nenhuma terminado. Em vez disso --como qualquer linguagem-- é em si um projeto colaborativo, onde qualquer pessoa é convidada a sugerir mudanças e adições.

Ao criarmos uma linguagem comum, podemos perceber que estamos trabalhando com o mesmo problema o tempo todo.

Friedrich Lindeberg é bolsista do Knight International Journalism Fellowship do ICFJ que trabalha com jornalistas e organizações de apoio à mídia para desenvolver recursos de dados e ferramentas de investigação.

Imagem (C) Stefan Gehrke, CC BY 3