Escassez de doses e falta de comunicação à população são os atuais problemas relacionados à vacina

porMarina Monzillo
Jan 22, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Frasco de Coronovac

Para haver sucesso na imunização contra COVID-19 e sairmos da atual situação crítica de pandemia, é preciso fomentar uma voz uníssona que faça chegar aos ouvidos de todo o país a importância da vacinação. Também será necessário expandir as opções de vacinas para além das produzidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz e, assim, combater a escassez de doses que vivenciamos hoje. Estas foram algumas das conclusões do webinar “A política pelas vacinas e a falta delas no Brasil”, realizado em 21 de janeiro, pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde

A convidada da vez foi Michelle Fernandez, doutora em ciência política, professora e pesquisadora no Instituto de Ciência Política UnB, pesquisadora da FGV e pesquisadora-colaboradora do Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz. Segundo ela, seria mais fácil alcançar o objetivo da imunização se houvesse uma união nacional. “Mas não podemos nos dar ao luxo de esperar a adesão do presidente, Jair Bolsonaro. Temos de trabalhar com a cooperação entre atores públicos e privados”, declarou. 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Competição entre estados e municípios 

  • Fernandez começou explicando que, antes de haver uma definição do papel que o Ministério da Saúde ocuparia na vacinação contra COVID-19, existia uma preocupação com a desigualdade na competição pela vacina, vinculada à desigualdade que já existe entre estados e cidades. “Entretanto, o governo federal passou a concentrar a divisão das doses e, dessa forma, o primeiro lote foi distribuído para as unidades da federação de forma proporcional que, por sua vez, dividiram entre municípios", explicou ela. Com a concentração da aquisição e repasse pelo ministério, a corrida de secretários estaduais e municipais para negociar a compra de vacinas foi solucionada. 

Prioridade da prioridade

  • A atenção no momento está na escassez. “Recebemos até agora um pouco mais de 6 milhões de doses, destinadas a pouco mais de 3 milhões de pessoas. Acredita-se que apenas 0,5% dos idosos e 34% dos profissionais de saúde serão vacinados com o primeiro lote; é muito pouco”, comentou a pesquisadora. 

  •  Quem será a prioridade dentro do grupo prioritário é a grande questão atual. “Entre os idosos, a decisão está mais homogênea, são os institucionalizados, que vivem em abrigos e asilos. Quanto aos profissionais de saúde, não está claro. É fundamental que se determine quem são”, questionou ela, explicando que, nos planos de vacinação, essa informação não está contemplada, porque não se imaginou lidar com tão poucas vacinas nesse primeiro momento. 

  • Fernandez chama a atenção para irregularidades, como pessoas que não estão no grupo prioritário que já tomaram a vacina, e para a falta de critérios. “Nem todo pessoal da assistência hospitalar lida com a COVID-19, e as UBS estão acolhendo pessoas com o vírus. Por que, em alguns casos, estão vacinando todos os profissionais do hospital, mesmo quem não lida com COVID-19, e não se atende quem está na atenção primária? Além disso, estão contemplando os profissionais que não são da saúde, mas têm contato direto com o vírus, como maqueiros? Esta discussão está ocorrendo ao longo da implementação e, sem clareza, fica difícil fiscalizar, como cidadão ou órgão público, se o processo está sendo feito de forma idônea.” 

[Leia mais: Cobertura da pandemia em 2021 vai girar em torno da vacina, preveem jornalistas de saúde]

Falta de coordenação central e boa comunicação

  • Em última instância quem implementa a vacinação é o município, nas unidades básicas de saúde, explicou a especialista. “Uma crítica minha e de cientistas de diferentes áreas é que, neste momento crítico, seria importante que o governo federal tivesse um papel mais protagonista de coordenação e apoio”. Como não tem padrão, cada município vai atuar da forma que achar adequado. “Na escassez, fica um duelo das elites políticas e econômicas com o bem-estar comum.”

  • Fernandez lembra que vacinar não é apenas colocar agulha no braço das pessoas: tem um protocolo burocrático, os profissionais precisam estar preparados, conhecer as vacinas, os efeitos adversos, tirar dúvidas da população, e ter um apoio administrativo no momento, para preencher os registros de vacinação, especialmente no caso de COVID-19, que é uma doença nova, com vacina nova. Uma estrutura paralela de apoio, para não sobrecarregar ainda mais a atenção primária, será necessária quando tivermos uma quantidade maior de vacinas. 

  • Um ponto importante em uma campanha de vacinação é a comunicação, passar a mensagem à população de que ela precisa se vacinar. “Vacinação não é uma estratégia individual de proteção, é coletiva. Para alcançar o coletivo, precisamos de uma comunicação oficial, uma voz uníssona. Esse é um ponto muito deficitário no plano do Ministério da Saúde”, comentou. Nesse sentido, o marketing em torno da vacina não é prejudicial e sim as notícias falsas. “A disputa política entre [o Governador de São Paulo, João] Doria e [o Presidente da República, Jair] Bolsonaro, principalmente em relação à Coronavac, gerou uma série de informação que desinforma. Esse dano já foi causado, o que é preciso agora é esclarecer a população de que ela é segura e eficaz.”

  • Porém, não será eficaz, se não for adotada por um grande número de pessoas. “Quando falam de 50,4% de eficácia, parece que se você tomar a vacina, terá uma espécie de ‘cara ou coroa’ de chance de ser imunizado, mas não é assim que se lê a eficácia. Quando se tem 50,4% em detrimento de 90%, significa que a gente vai precisar vacinar mais pessoas para parar a transmissão do vírus. Isso precisa ficar claro. Neste momento, o marketing deve ser feito nesse sentido.”

O porquê da escassez

  • Para a pesquisadora, a escassez atual está muito relacionada às decisões do governo federal. “Em agosto, a Pfizer entrou em contato e ofereceu 7 milhões de doses da vacina, e o governo federal declinou”. O posicionamento brasileiro contra a quebra de patentes das vacinas na Índia e as declarações feitas contra o Estado chinês por membros do governo fragilizaram as relações diplomáticas e não facilitaram as negociações. “Mas não diria que essa é a única explicação. Na Índia, eles priorizam os países do entorno. Tem uma estratégia própria do país. E o caso da China passa por isso também”. Segundo ela, o determinante é o Brasil ter chegado a este momento com tão poucas opções. “Isso sim está relacionado com a inação do governo brasileiro com o tema vacina durante 2020.”

Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem da vacinação contra COVID19 no Complexo Hospitalar da UFC por Viktor Braga sob licença CC no Flickr via Universidade Federal do Ceará