Entrevista com Stephanie Nolen: Como o Globe and Mail criou 'O Brasil por trás da aquarela'

porKiratiana Freelon
Aug 24 em Diversidade

Quando Stephanie Nolen chegou ao Brasil há mais de dois anos, como chefe do escritório do Globe and Mail na América Latina, ela notou que brasileiros não falavam sobre desigualdade racial. Ela queria descobrir o porquê.

Sua curiosidade a levou a propor a seus editores a ideia de fazer um artigo específico sobre raça no Brasil. Dado o seu sucesso anterior com grandes projetos, o Globe and Mail disse que sim. 

Ao longo de 10 meses, Stephanie leu livros, viajou por todo o Brasil e entrevistou centenas de pessoas. O resultado é o que muitas pessoas pensam é o mais completo e atualizado esforço jornalístico sobre a história da raça no Brasil, explorando tópicos como as origens da escravidão, seu impacto na cultura brasileira e questões de identidade na sociedade moderna.

Stephanie examinou esta questão multifacetada concentrando-se na família Araújo -- cujos membros exemplificam a vasta variedade de "cores" com as quais as pessoas se identificam no Brasil -- e também no preconceito que o médico Ícaro Vidal, que é negro, sofre em seu trabalho. 

O projeto final "O Brasil por trás da aquarela" tem mais de 8.000 palavras, incluindo imagens de arquivo, dados, fotografia e vídeo, em inglês e português.

A IJNet entrevistou Stephanie para descobrir como ela reportou e produziu esta história seminal. 

1. Quando você percebeu que queria fazer uma reportagem sobre raça no Brasil? ?

Eu vim para o Brasil depois de seis anos como correspondente na África do Sul e cinco anos na Índia -- portanto, com muita experiência de reportagem sobre países fazendo grandes esforços para a mudança social, países flagelados pelas desigualdades. E isso tornou o Brasil excitante [para mim]: houve uma enorme mudança inegável aqui nos últimos 15 anos, francamente muito mais sucesso em inclusão social do que eu vi na África do Sul ou na Índia (embora, obviamente, uma comparação direta seja difícil.) Mas desde os meus primeiros dias aqui, comecei a me perguntar sobre desigualdade racial, que me pareceu algo que brasileiros não estavam falando e uma área onde a mesma taxa de mudança e de progresso não estava ocorrendo (como, por exemplo, com a igualdade de gênero ou direitos de LGBT).

2. Um artigo sobre raça no Brasil parece ser um tópico grande demais para um jornal cobrir em um artigo. Como você convenceu seus editores a bancar este artigo?

É grande demais mesmo, com 8.200 palavras. Mas eu tenho um amor masoquista por projetos gigantescos e [tenho] editores muito legais. Eu fiz uma reportagem sobre castas desta forma na Índia. Esse projeto ganhou um monte de prêmios, que presumidamente me ajudaram com quaisquer dúvidas do editor. Acho que, na era do Twitter muitas vezes subestimamos os leitores. Este projeto tenta dar ao leitor uma boa compreensão das raízes históricas e o impacto atual do racismo no país. Mostramos de forma consistente em nossa cobertura internacional no Globe and Mail que o leitor vai investir seu tempo em matérias boas, apoiadas por design atraente e gráficos úteis e outros elementos.

3. Descreva como fez a reportagem. Onde começou? Quantas pessoas entrevistou? Quantas cidades visitou? Quanto tempo demorou a reportagem? 

Comecei lendo livros. Não há muitos [livros] sobre raça no Brasil. Eu fui para os autores dos poucos livros que encontrei e perguntei com quem eles achavam que eu deveria falar. Busquei por historiadores da escravidão e curadores de museus, e descobriu que não há museu da escravatura no Brasil. Busquei por ativistas sobre igualdade racial, dos quais há menos do que eu esperava. Pedi a todos que eu entrevistei para sugerir outras pessoas. Foquei em ação afirmativa no ensino superior como um componente crítico e então tive que achar um indivíduo cuja história poderíamos usar, o que foi incrivelmente difícil, pois as pessoas aqui não querem ser associadas às cotas. Isso levou meses para mim e a produtora Manuela Andreoni. Aprendi sobre a comissão da verdade sobre a escravidão e comecei a ir para as reuniões. Também quis olhar para as famílias interraciais. Passamos muito tempo com elas -- churrascos de família e tardes no sofá e feriados. Eu fiz reportagens no Rio, Salvador, São Paulo e Minas Gerais, mas o projeto estava sempre na minha mente durante 10 meses.

4. Você escreveu o que muitas pessoas acreditam ser o melhor artigo sobre raça no Brasil da última década. Você é uma mulher branca do Canadá. Como sua identidade ajudou ou atrapalhou na reportagem? Que conselho daria a repórteres que vão cobrir comunidades as quais não pertencem? 

Primeiro, obrigada pelo elogio. Ai, a questão de identidade... me paraliza. Realmente sou uma mulher branca do Canadá, agora escrevendo sobre racismo no Brasil. Por um lado, acredito muito fortemente na importância das pessoas contarem suas próprias histórias e as histórias de suas próprias comunidades. Sou super cautelosa sobre a apropriação e deturpação de voz; consciente dos limites da empatia; consciente demais da minha própria falta de qualificação para compreender tantas situações; consciente do meu privilégio como canadense branca.

E por outro lado, acredito no poder do jornalismo. Acredito em ouvir, fazer boas perguntas e muitas perguntas, na tentativa de escrever da forma mais honesta possível, em ser tão consciente quanto você pode ser sobre os seus próprios preconceitos e tentar sempre questionar seus sujeitos, em tentar ser justo. 

Quando você vem com uma percepção estrangeira para um lugar, você vê coisas diferentes. E, da mesma forma, quando você vem de fora e senta-se no sofá de Simone [entrevistada], as pessoas costumam dar espaço para você fazer perguntas ou tolerar sua curiosidade de uma forma que não o fariam para alguém local. Fiz perguntas profundamente íntimas para Simone e sua família. Eu me pergunto como teria sido a conversa se eu fosse brasileira.

A resposta simples sobre como ganhar acesso às comunidades é perguntar. Eu apareço e me apresento. Explico porque eu estou lá tanto quanto posso e pergunto às pessoas se elas podem falar comigo. Quase sempre, dizem que sim, o que é o grande milagre do jornalismo. 

5. Muitas vezes jornalistas internacionais usam assistentes para ajudar na pesquisa diária e grandes projetos como este. Qual o papel que a sua assistente, Manuela Andreoni, cumpriu neste grande projeto? Que conselho daria a outros repórteres internacionais para encontrar e trabalhar com assistentes ou fixadores locais?

Manuela --que eu chamo de produtora e não um assistente-- foi fundamental para este projeto, desde o primeiro dia, quando eu comecei a ponderar em voz alta sobre como eu não entendia raça neste país. Ela é incrível para convencer as pessoas a compartilharem suas histórias e, porque o meu português ainda não é lá essas coisas e era péssimo quando começamos este projeto, ela teve que fazer um monte de trabalho na linha de frente para chegar à porta das pessoas. Ela teve que traduzir um monte de conversas incrivelmente íntimas --que é um trabalho realmente duro-- e nessa situação é importante trabalhar com alguém que conhece você e entende você (para traduzir precisamente a nuance de suas perguntas) e em quem você confia-- então você sabe que pode confiar em suas respostas. Ela diz que previsava de olhos estrangeiros para ver esta história como uma matéria, mas ela foi uma parte integral de contá-la.

6. O artigo não é apenas um artigo. É um projeto digital enorme, com vídeo, imagens e gráficos. Como é que você e seus editores planejaram o projeto digital?

Foi concebido como um projeto digital, como tudo no Globe estes dias. Então, uma equipe digital -- de cerca de seis pessoas se incluirmos vídeo -- foi envolvida desde o início. Mas isso só ficou claro quando a história começou a tomar forma: quais os elementos eram necessários, o que contar com vídeo, gráficos interativos e o que seria narrativa escrita. Tivemos uma reunião em março para ver o que mais ou menos íamos precisar para que pudéssemos iniciar a coleta de dados e coisas como os documentos de arquivos da escravidão. E assim que tive o primeiro rascunho, a líder do projeto, Laura Blenkinsop, que é um gênio, começou a montar o quebra-cabeça.

7. Como é que surgiu a ideia do video

Acho que é importante que o vídeo em um site de "jornal" não seja apenas um resumo de dois minutos da matéria. Eu queria que tivesse vídeo somente se contribuísse com algo que eu não poderia fazer em palavras. E isso, eu decidi bem cedo, seria mais mostrar o jeito muito estranho (aos meus olhos canadenses) que os brasileiros falam e não falam sobre raça e cor -- para mostrar como essas conversas realmente são.

Mas eu não tinha ideia se ia funcionar. Simone e sua família concordaram em ser parte do experimento. Assim, fomos para a casa dela com a cinegrafista Nadia Sussman e eu comecei a perguntar às pessoas: Qual é a sua raça? Qual é a sua cor? O que isso significa em sua vida? E foi incrível. Todos nós morremos de rir. Nadia editou o vídeo de uma forma que eu acho que é divertida e digna.

O vídeo teve uma resposta maravilhosa de brasileiros que dizem: "Sabe, eu nunca pensei sobre isso, mas nós dizemos essas coisas, e quando você menciona isso, é estranho". Eu acho que em dois minutos, o vídeo transmite de forma poderosa como as ideias de raça, cor e identidade se misturam na vida das pessoas aqui -- além disso, é divertido e eu acho que pega as pessoas desprevenidas no começo de uma matéria que pensam que será séria.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via AK Rockefeller. Segunda imagem da família Araújo é um captura de tela do vídeo. Terceira imagem de  Stephanie Nolen cortesia do jornal Globe and Mail.