Entrevista com Craig Silverman: Desinformação, deepfakes e democracia

porSunaina Kumar
Nov 19, 2019 em Fact-checking e verificação
Pessoa segurando um telefone

Quando Craig Silverman fala sobre as coisas que o mantêm acordado à noite ­— as campanhas de mentiras nas mídias sociais, o declínio da confiança nas instituições e a profissionalização das operações de manipulação e desinformação da mídia — precisamos prestar atenção.

Silverman é o editor de mídia do BuzzFeed News e especialista em desinformação. Ele começou a investigar o assunto em 2014 enquanto pesquisava a disseminação de informações falsas nas mídias sociais e jornalismo, para um projeto no Centro Tow para Jornalismo Digital da Universidade de Columbia.

Desde o rastreamento de rumores digitais a pesquisas sobre campanhas de manipulação, Silverman está no centro das investigações sobre a crise global da informação. É a sua obsessão, diz ele, acrescentando que "atualmente não é o cara mais otimista".

Silverman participou da Conferência Global de Jornalismo Investigativo (GIJC) em Hamburgo no final de setembro, onde compartilhou dicas sobre a investigação de redes de desinformação. Durante a conferência, a IJNet conversou com ele para discutir os desafios que os jornalistas enfrentam, seus medos para o futuro e por que ele não é pessimista em relação à democracia.

IJNet: Onde nos encontramos hoje na nossa compreensão sobre a manipulação de informações?

Silverman: Algumas coisas permanecem consistentes. Por exemplo, o abuso e a exploração das principais mídias sociais e plataformas de pesquisa continuam em escala global. É [também] muito difícil ver o que está sendo espalhado nos aplicativos de mensagens para entender quantas pessoas foram expostas a [desinformação] e descobrir as origens de uma mensagem. A manipulação de imagens também continua avançando a um ritmo muito rápido.

Existe também um tipo de profissionalização das operações de manipulação e desinformação da mídia:   empresas que você pode contratar nas Filipinas, na Índia, em países ao redor do mundo, especializadas em fornecer esses pacotes aos seus clientes.

À medida que a tecnologia avança, e também as formas de manipulação, seu trabalho parece mais desafiador?

Existe um pouco de corrida armamentista em termos de tecnologia e produtos que permitem às pessoas manipular o ambiente digital. Como as redações não têm muito dinheiro, poucas pessoas estão criando pacotes de tecnologia para as redações detectarem essas coisas. Então isso é uma preocupação. As redações podem saber exatamente o que está sendo feito ou já avançou tanto que não conseguimos mais detectá-las?

Um exemplo concreto disso seria bots. Existe uma tecnologia disponível gratuitamente para detectá-los, como Bot Sentinel, BotOrNot, mas eu me preocupo que os bots mais sofisticados provavelmente tenham sido projetados para derrotar todos esses sistemas.

Você falou sobre os perigos da tecnologia deepfake na Conferência de Jornalismo Investigativo na Ásia (IJAsia18) no ano passado. Ainda te preocupa?

Todo mundo pensa que haverá um vídeo deepfake bastante eficaz, mas me pergunto se, no próximo ano, veremos algo realmente autêntico sendo efetivamente descartado como deepfake, o que gera uma perda maciça de confiança.

O que mais me preocupa é prejudicar o que é real.

O artigo de Shawn Rosenberg sobre o fim da democracia implica notícias falsas e mídias sociais. Você é tão pessimista quanto ele? 

Eu não sou tão pessimista. Acho que estamos enfrentando um dos maiores testes à democracia e não previmos isso. Sinto que fui ingênuo, olhando para trás, em tempos como a Primavera Árabe, com a crença de que [a mídia social] será uma ferramenta para levar a democracia a mais partes do mundo. Temos que tratar isso como um momento muito sério e pensar em como a fé pode ser renovada em nossos sistemas e instituições democráticas. Também precisamos pensar em como as mídias sociais podem ser usadas de maneira a cumprir a promessa que todos acreditávamos anos atrás.

Estou otimista de que as pessoas ao redor do mundo estão cientes dessas ameaças e estão trabalhando de maneiras amplas para combatê-las. Os governos estão ativos, o setor está ativo, os acadêmicos estão ativos e a mídia está ativa. Mesmo alguns anos atrás, esse não era o caso.

Quanto mais as notícias falsas se espalham, mais perdemos a confiança como sociedade. A que isso levará?

Se você parar de acreditar em tudo ao seu redor e não entender onde colocar sua confiança, ficará realmente desacreditado com o mundo ao seu redor. Você se apega às coisas que parecem mais próximas e reais, que muitas vezes serão seus preconceitos humanos inatos. Isso leva, em muitos casos, ao surgimento de líderes autoritários que fornecem respostas fáceis em um momento de incerteza.

Se você previsse um cenário de notícias falsas para o próximo ano, qual seria?

Uma das coisas que poderíamos ver é agentes estatais usando o ecossistema de publicidade digital e explorando isso para espalhar desinformação ou direcionando pessoas para coletar dados. Um exemplo seria se a China usar alguns de seus hackers estatais para se infiltrar no ecossistema de publicidade digital, espalhar malware por meio de anúncios e infectar pessoas em uma ampla base para coletar dados ou informações.

Posso fazer uma lista sem fim, mas como eu disse, as coisas com as quais me preocupo mais são as coisas que podem estar acontecendo e não conseguimos ver.

O que os jornalistas podem fazer nesse cenário?

Os jornalistas precisam perceber que temos algum elemento de autoridade quando estamos nessas plataformas. As pessoas esperam que sejamos condutores de informações confiáveis, por isso é importante considerar o que você está amplificando: o que você está gostando, compartilhando e retuitando. Se você ver coisas falsas, precisará pensar se é o momento certo para chamar isso de falso.

Como um jornalista pode decidir quando chamar notícias de falsas?

Se você vê algo que não é verdade, mas apenas algumas milhares de pessoas estão envolvidas e não está se espalhando, o risco é que, no ato de tentar desmascará-lo, você acabe dando a ele mais distribuição. Esse conteúdo poderá chegar ao seu público-alvo? Outra coisa a considerar são as pessoas e entidades reais ajudando a espalhar alguma coisa. O conteúdo está sendo divulgado por contas verificadas, políticos e outras pessoas influentes?

Essas são algumas coisas que os jornalistas devem considerar ao avaliar se é hora de desmentir uma informação incorreta ou deixá-la correr para ver como se desenvolve. Não podemos ser irresponsáveis sobre o que estamos ajudando a espalhar ou desacreditar.


Imagem sob licença CC no Unsplash via Giles Lambert. 

Sunaina Kumar é uma jornalista independente com base em Nova Déli.