Editor do OhmyNews revela bastidores da mais famosa plataforma de jornalismo cidadão coreana

porZul Maidy
Apr 12, 2009 em Diversos

Esta é a primeira de uma série de entrevistas na IJNet que pretende examinar a fundo as operações de várias plataformas online de notícias, iluminando o futuro da mídia global como previsto por pensadores  de todo o mundo.

Em meio a um salto mundial da imprensa tradicional à nova mídia com seus diferentes métodos de apuração, produção e disseminação de notícias, a plataforma online de jornalismo cidadão sul-coreano, OhmyNews, continua firme sob o lema "todo cidadão é um repórter".

Criado em 2000 por Oh Yeon Ho, que antes trabalhava como repórter de uma revista mensal coreana de orientação liberal, o OhmyNews evoluiu em seu modelo de publicação de matérias revisadas, enviadas por jornalistas cidadãos na Coreia do Sul e no mundo, além dos colaboradores pagos.

O site tem sido elogiado pelo trabalho de seus colaboradores cidadãos, tal como a correspondente da ONU para o OhmyNews International, Ronda Hauben, que recebeu o Prêmio 2008 Silver Elizabeth Neuffer para Excelência em Jornalismo em imprensa e mídia online.

O OhmyNews organiza capacitações de jornalismo, fóruns e aulas, e em novembro de 2007 abriu o que pode ser considerada a primeira escola de jornalismo cidadão no mundo em um vilarejo rural a cerca de 150 km de Seoul. A escola oferece oportunidades para os estudantes se tornarem criadores de conteúdo independente, através de programas de introdução ao jornalismo, workshops de redação e capacitação em fotojornalismo digital e vídeo.

De acordo com a Forbes Magazine, mais de 70.000 cidadãos contribuem para o site coreano e 6.000 escrevem para a versão em inglês do site, o OhmyNews International (OMNI).

Na semana passada, o redator da IJNet Zul Maidy entrevistou Todd C. Thacker, editor  senior da OMNI. Thacker trabalhou como editor no jornal The Korea Herald e reside em Seoul.

ZM: Como você mantém a credibilidade geral da sua publicação, já que depende fortemente de milhares de repórteres cidadãos?
TT: Contamos que as pessoas sejam honestas jornalisticamente em suas contribuições. Descobri que com mais de 6.000 repórteres cidadãos em 110 países, encontramos padrões diferentes de jornalismo. Em algumas regiões - América do Sul e sul da Ásia, por exemplo - o jornalismo profissional é menos rigoroso na apuração de informação e na questão de plágio. Os repórteres cidadãos fazem seu trabalho seguindo este "padrão". Assim, os primeiros artigos que enviam costumam ser rejeitados, e tomamos muito cuidado em indicar o que devem evitar em seus artigos futuros.

Nos últimos cinco anos, quase todos os nossos repórteres cidadãos reconheceram nossos padrões altos e se adaptaram de acordo com eles. Eles também apreciam o retorno que damos a eles.

Não preciso nem dizer que os editores do OMNI devem estar alertas o tempo todo. Todos os artigos que publicamos são examinados, editados e verificados antes de serem publicados.

ZM: Qual critério você usa para a melhor reportagem?
TT: Se recebo uma matéria de notícia que funciona bem (como artigo de jornalismo profissional) e também tem uma voz e perspectiva únicas, então eu acho que os leitores e o jornalismo cidadão em geral sairam ganhando. Os leitores apreciam um estilo mais informal de escrita e reportagem.

A notícia pura do tipo "hard news" dificilmente vai bem, não tenho a menor dúvida. Como resultado, a maioria dos nossos colaboradores tendem a escrever opinião/análise. Isto também é bom. O OMNI não tem um time de repórteres, então enfatizamos que as pessoas devem buscar um equilíbrio entre jornalismo profissional e o nosso jornalismo cidadão para seu consumo de notícias.

Por exemplo, no final de novembro durante os ataques terroristas em Mumbai, tivemos um repórter cidadão local chamado Rajen Nair que estava na rua e fez reportagens e entrevistas. Ele não é um profissional, mas seu estilo e perspectiva foram interessantes. Este é um ponto forte para o jornalismo cidadão - complementando o jornalismo (profissional).

ZM: Como funcionam os incentivos? Um repórter pode se sustentar colaborando com o OhmyNews?
TT: As pessoas costumam escrever por prazer ou paixão por um tema. Não é algo que dá para viver, exceto em casos raros em que a moeda coreana vale muito mais que o dinheiro local. Pagávamos $20,000 won coreanos (US$15) para matéria de primeira página, mas tivemos que acabar com isso devido a pressões financeiras. Em 2005 havia um repórter cidadão dos Camarões (Emmanuel Njela Nfor) que era prolífico e bom escritor, e conseguiu largar o emprego de vendedor de telefones celulares. Mas não encorajamos que façam isso.

Nos últimos cinco anos, vi muitos dos nossos escritores regulares melhorarem imensamente, com base no nosso retorno. Alguns nomes me vem à mente, incluindo Will Pollard (Inglaterra) e Bhuwan Thapaliya (Nepal).

ZM: Até onde vai sua responsabilidade sobre a segurança dos repórteres?
TT: Eu não tenho poder nenhum. Mas se me dizem de antemão que estão indo para um lugar que pode ser perigoso, eu dou todos os conselhos que posso.

ZM: Teve algum caso em que vocês resolveram não revelar os dados sobre um repórter?
TT: Sim. No Irã e na China, repórteres cidadãos tendem a precisar deste tipo de proteção. Somente permitimos que escrevam como anônimos (ou pseudônimos) em casos extremos, e só se conhecemos bem os repórteres cidadãos. Eles têm que ter uma longa história de contribuições ao OMNI antes de concordarmos com isso.

ZM: Vocês dão sugestões sobre o que ou como os repórteres devem cobrir certas matérias? Vocês enviam pautas de reportagem?
TT: Sim, tento ter em mente os melhores escritores, suas locações e interesses. Então mando um e-mail ou ‘instant-messaging' quando algo grande acontece que acho que possam se interessar em escrever. Dar pauta para cidadãos repórteres, quando são essencialmente voluntários, é um negócio complicado. Quero que eles se divirtam, pelo menos, com uma matéria em potencial... e podem sempre recusar se estão ocupados.

ZM: Qual é a extensão do trabalho da própria organização? Vocês têm uma equipe selecionando e editando o material ou é tudo automatizado?
TT: Fazemos todas as revisões... nenhum artigo é publicado sem ser examinado. Esta é a diferença essencial entre o OhmyNews e outros canais de jornalismo cidadão.

ZM: Como é feito o processo de verificação do material de notícia?
TT: Primeiro eu verifico a informação de registro do repórter cidadão para ter uma noção de quem é. Aí eu checo os fatos no Google Notícias e outros sites semelhantes. Se não encontro nenhum problema, eu publico. A opinião dos leitores também ajuda.

Com o tempo, eu fico conhecendo o repórter cidadão e passo a confiar nele e assim checo menos.

ZM: Como você acha que o cenário da mídia nova irá mudar no futuro?
TT: Essa é uma pergunta difícil. No caso do site coreano OhmyNews site, vimos leitores e cidadãos se unir pela nossa cobertura no passado... com doações financeiras para ajudar nos custos de cobrir grandes eventos políticos. Os protestos contra a importação da carne americana e o presidente Lee Myung-bak no verão passado também são um bom exemplo - leitores doaram mais de $100.000 para ajudar o OhmyNews a pagar pela nossa transmissão online ao vivo.

Mas a longevidade de muitas organizações de mídia certamente está em perigo. E não estamos imunes a demissões. [Mas] acho que o OhmyNews Coreia irá continuar a ajudar o cidadão a passar sua mensagem ao público.

Como o fundador da OhmyNews, Mr. Oh Yeon-ho, disse recentemente em Tóquio: "Para que a nova mídia tenha um propósito, deve haver uma resposta a esta pergunta: Por que precisamos de uma ‘nova' mídia em meio à avalanche de opções de mídia para os consumidores? Mais mídia, mais informação e mais participação do cidadão conduziria  a mais democracia e garantiria um índice maior de felicidade? Se não podemos responder apropriadamente estas perguntas, então tudo o que estamos fazendo para a nova mídia é em vão".

Para saber mais sobre o OhmyNews International, visite (em inglês) http://english.ohmynews.com