Documentários florescem com impacto social e interatividade na América Latina

porJéssica Cruz
Mar 20, 2019 em Jornalismo multimídia
Exibição de O Som dos Sinos

No ano passado, o Rio de Janeiro sediou a Mostra Bug, primeiro grande evento sobre o universo de narrativas digitais no Brasil. Além da mostra de projetos imersivos e interativos de todo o mundo, o evento também ofereceu diversas oficinas com especialistas internacionais.

A IJNet entrevistou Arnau Gifreu, pesquisador catalão de narrativas interativas latino-americanas do Open Documentary Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que ministrou a oficina "Diretrizes para Realização de Projetos Interativos e Transmídia", sobre a recente explosão de novas narrativas na América Latina.  

Gifreu, além de professor e pesquisador de novas mídias, também atua como realizador. Em 2018, ele foi diretor transmídia e de interatividade do projeto La otra orilla, uma plataforma transmídia com vídeos, interação com o público e série fotográfica sobre os direitos humanos LGBTI na Colômbia.

IJNet: Por que a América Latina tem sido um polo de produção documental na era das novas mídias?

Gifreu: Na América Latina há uma necessidade compulsiva para contar histórias. Essas histórias costumam ser de não-ficção, devido a sua realidade, pelos fatos ocorridos no passado que criaram esse movimento de documentários sociais e ativistas. É a retomada daquele documentário de comunidade, documentário de baixo custo, trabalhando com as unhas, quase autoproduzido que teve seu auge nos anos 1980 e 1990...documentário radical, uma ideia muito importante na América Latina, especialmente em Cuba, no Chile, também com o Cinema Novo no Brasil, Caliwood na Colômbia. Esse documentário tradicional encontrou um novo caminho no século 21 com as novas tecnologias. Interatividade, transmídia e imersividade são novas vias de comunicação com suas audiências. Para mim, o foco dessas tecnologias vai ser na América Latina.

Arnau Gifreu fala à plateia da Mostra Bug no Rio de Janeiro.
Arnau Gifreu fala à plateia da Mostra Bug no Rio de Janeiro.

Quais os fatores que fazem com que a obra tenha de fato um impacto social?

O impacto verdadeiro é difícil de medir, não há estatísticas reais de como esses projetos de fato tiveram impactos sociais e qual a profundidade e nível de mudança que esse projeto causou. Estamos vendo muito nas narrativas imersivas e transmídia, projetos com um alto componente de reivindicação social, que contam histórias diferentes das versões oficiais -- são outras vozes. O mais importante é a narrativa, depois existem os componentes tecnológicos, de interatividade, que são meramente dispositivos que estão a serviço de expressar uma realidade. Como, por exemplo, The Quipu Project, o documentário interativo peruano sobre mulheres esterilizadas de forma ilegal durante o governo de Fujimori, tinha só um telefone, uma rede e um número telefônico. Mas foi o exemplo mais conhecido de mudança: eles puderam evitar que a filha do presidente Fujimori fosse eleita como presidente, porque iluminou a verdade sobre seu pai e de que ela poderia ter uma política similar a ele. Então, nesse sentido, os projetos, sim, chegam a intervir no extrato social.

Você considera que as obras interativas, imersivas e transmídia têm um maior poder de transformação?

Não, não creio. Talvez o que possa acontecer é ter um maior poder de emocionar, no sentido de empatizar, utilizando mecanismos imersivos, como realidade virtual e realidade aumentada... Mas no caso do The Quipu Project traz apenas áudios, e esses áudios muitas vezes não são nem traduzidos da língua quechua; no entanto, são de uma natureza humana tão profunda, que nem o meio, nem a tecnologia importam, o que importa é o discurso dessas pessoas, o nível de profundidade e vulnerabilidade dessas denúncias. Esse discurso é muito importante, de alguma maneira, essas narrativas empoderam o coletivo. E as redes sociais, ou seja, a internet como um todo, multiplicam essas vozes... porque antes era uma voz que chegava pelos meios tradicionais, as mídias de massa, ou que muitas vezes nem chegava, [e] agora pode estar em cada canto do planeta através do ciberespaço. É um amplificador que tem mais potência do que rádio e televisão, porque as pessoas eram só consumidoras, agora elas podem falar, elas consomem também, mas ao mesmo tempo falam o que pensam e isso significa somar mais noções de emoção e empatia. Mas você antes de tudo isso, precisa ter o discurso.

Quais os projetos que você destaca aqui na América Latina?

Há muitas obras na América Latina, por exemplo, as obras da Mónica González no México, como Geografía del Dolor sobre desaparecidos pelo narcotráfico. Também estão fazendo coisas muito interessantes na Colômbia, sobretudo sobre o tema da guerrilha, como 4 Ríos, também sobre saúde, como Paciente, uma obra transmídia e de múltiplas telas. No Conesul, [o] destaque [é] Argentina: há um foco em Rosário com o projeto Documedia; são documentários jornalísticos muito comprometidos, como Mujeres em Venta, sobre exploração sexual na Argentina. Evidentemente tem o The Quipu no Peru. O Brasil é ainda muito incipiente, existem algumas iniciativas, como da Cross Content, com o documentário Autorretrato dos problemas sociais do Rio de Janeiro. E mais recentemente, o Som dos Sinos, que para mim é a primeira grande obra, que marca um antes e depois, em nível de estética, no campo de transmídia no Brasil.

Para quem quer trabalhar com narrativas transmídia, imersivas e interativas, por onde começar?

Eu buscaria, dentro de festivais de cinema e documentário, formação. Oficinas de produção, como no Docs Barcelona. Hackatonas para fazer protótipos e começar a treinar nesse campo e depois cursos de formação, que possam ser feitos na América Latina ou na Europa: tem o EsoDoc na Itália, a Universidade de Rosário na Argentina e a Universidade de Caldas na Colômbia.


Jéssica Cruz é uma jornalista freelance brasileira e produtora audiovisual para BBC, Travel Channel, Channel 9 e outras. 

Foto principal da exibição do documentário Som dos Sinos. Foto secundária da palestra "Narrativas não ficcionais na América Latina: uma viagem interativa pela realidade das Américas do Sul e Central” com Arnau Gifreu na Mostra Bug no Rio de Janeiro. Cortesia de Felipe Varanda.