Documentário acompanha luta de cantora por igualdade de gênero no Afeganistão

porLucas Aykroyd
May 8, 2017 em Temas especializados

À primeira vista, o vídeo da música "Boro" parece improvável que inspire muita indignação. A canção é um pop leve de língua inglesa, com influência de Shakira e Madonna, interpretada por uma jovem vestida com roupas de verão, dançando com um rapaz tipo Justin Trudeau sem camisa na orla de Vancouver.

Segundo as normas norte-americanas, é uma cena inócua, mas essas imagens ainda são consideradas revolucionárias no Afeganistão, onde a cantora de Vancouver, Mozhdah Jamalzadah, está abrindo o caminho para a liberdade de expressão e a igualdade de gênero.

Nascida em Cabul, mas criada em Vancouver, Mozhdah, de 31 anos, que não precisa de sobrenome para ser reconhecida no Afeganistão, assumiu grandes riscos para avançar os direitos das mulheres em sua terra natal, que continua conservadora e patriarcal, apesar da queda do Taliban em 2001. E é a sua jornada ao estrelato enquanto lida com ameaças de morte, viajando em veículos blindados e evitando por pouco um atentado suicida, que a torna uma figura central no novo documentário "Mightier than the sword" [Mais poderoso que uma espada].

A poderosa estreia da cineasta Roberta Staley de Vancouver examina o impacto das personalidades femininas da mídia na luta do Afeganistão pela igualdade de gênero. Staley, editora premiada e colaboradora de longa data da Vancouver Magazine, criou o novo filme de 48 minutos para completar seu mestrado em estudos liberais da SFU. Depois de passar três semanas em 2012 no país da Ásia Central em reportagem para Elle, ela voltou lá em 2015 para filmar "Mightier Than the Sword" no calor de 35°C durante o Ramadã. Staley hipotecou seu apartamento para terminar o filme, que lhe custou mais de US$80.000. "Isso é o que você faz quando acredita em alguma coisa", diz ela. "Eu fiquei obcecada em contar essa história sobre a mídia e como estava mudando as percepções de gênero e a igualdade de gênero."

O filme destaca Mozhdah entre um elenco de personagens baseadas em Cabul, que inclui a ativista cineasta Sahar Fetrat e a repórter de TV Shakila Ibrahimkhail. "O que mais admiro dela é o quão implacável ela é em relação à sua crença nos direitos das mulheres", diz Staley. "Ela é uma linda cantora, mas também é gentil e genuína. Ela segura a bandeira para mulheres no Afeganistão."

Essa reputação foi forjada quando Mozhdah, que estudou jornalismo no BCIT e filosofia na UBC, voltou ao Afeganistão há oito anos e descobriu a fama quando apresentou um programa de entrevistas inovador, tipo Oprah, no 1TV, um canal baseado em Cabul. O programa se tornou um veículo para desafiar as normas de gênero repressivas, trazendo à tona temas controversos como abuso infantil, violência doméstica e autoimolação entre noivas afegãs. Em 2010 e 2011, o Mozhdah Show dramaticamente expandiu sua plataforma e defendeu os direitos das mulheres em um momento em que uma pesquisa da Fundação Thomson Reuters classificou o Afeganistão -- com uma população de cerca de 15 milhões de mulheres -- o país mais perigoso do mundo para as mulheres.

"Foi uma coisa enorme", lembra a cantora durante uma entrevista no átrio da Biblioteca Central de Vancouver. "As pessoas me odiavam e as pessoas me amavam. Havia pessoas aplaudindo para mim e pessoas que diziam, 'Você é uma desgraça! Você está na frente da câmera. Deveria estar na cozinha cozinhando.'"

Mas pouco a pouco, sua presença na mídia ajudou a inspirar mudanças. "Em 2009, quando fui fazer meu programa, tinha que cobrir minha cabeça", diz Mozhdah. "Era obrigatório. Se eu não usasse, [o programa] não ia para o ar. Em 2012, porém, nenhuma das celebridades afegãs foram forçadas a usar um lenço na cabeça."

No Dia Internacional da Mulher em 2010, ela foi convidada a canar seu hit "Dokhtare Afghan" [Garota afegã] na Casa Branca para Barack e Michelle Obama. E, como "Mightier Than the Sword" mostra, mesmo depois de ameaças de morte tê-la forçado a retornar a Vancouver em 2012, o ativismo de Mozhdah continuou com a balada de 2015 "Tribute to Farkhunda" [Tributo a Farkhunda], que celebra uma mulher de 27 anos que foi assassinada por uma multidão de Kabul depois de ter sido falsamente acusada de queimar um Alcorão.

"Eu me lembro que chorei por uma semana", diz Mozhdah. "Eu não podia acreditar que algo tão ruim pudesse acontecer aqui na terra em 2015. O que ela deve ter passado, eu continuava sentindo cada segundo."

Seria fácil para Mozhdah se esconder em sua casa em Vancouver com seus gatos, Lucky e Simba, mas ela diz que está decidida a continuar incitando mudança através de sua arte, que se baseia em uma série de influências que vão da lenda afegã Ahmad Zahir a Jann Arden. Hoje em dia, Mozhdah ocupa um espaço estranho entre o estrelato no Afeganistão e uma vida ordinária em Vancouver. Durante nossa entrevista, esse constraste é superado quando o proprietário afegão de uma loja de café nas proximidades a reconhece, traz doces de cortesia e diz que adoraria que ela cantasse em um casamento da família.

Mozdah ainda faz viagens internacionais e gravações multilíngues para sua nova gravadora, Ethnobeast. Por manter uma presença no cenário mundial, ela é uma figura crítica desafiando o que Staley chama de "tropo de armas e burkas" que define o Afeganistão para muitos ocidentais. "Você não pode ignorar a mídia ou denunciá-la", diz a cineasta. "É crucial para o crescimento, a consolidação e a continuidade da democracia no Afeganistão e aqui no Ocidente."

E mesmo que a mensagem feminista de Mozhdah ainda incomode alguns de seus compatriotas conservadores, ela encontrou uma maneira eficaz de pressionar aproveitando o poder de seu status de estrela pop. "Se eu tiver mensagens na minha caixa de entrada dizendo: "Você não é uma boa muçulmana; você deve fazer isso ou aquilo", no dia seguinte eu publico uma foto talvez usando uma saia mais curta. Então a minha resposta para eles é: "Se você continuar falando assim, da próxima vez, eu vou postar uma foto de biquíni." E dái é, 'OK, OK! Eu vou parar.'"

Este artigo foi publicado originalmente na Vancouver Magazine e é reproduzido na IJNet com permissão. Imagem cortesia da Vancouver Magazine.

Lucas Aykroyd é um jornalista premiado, colunista de jornal e um orador público baseado em Vancôver, no Canadá.