Diretrizes para reportagens sobre suicídio

porCristiana Bedei
Jun 17, 2018 em Temas especializados

Após a morte da designer Kate Spade e do chef, autor e apresentador de TV Anthony Bourdain, jornalistas enfrentaram a tarefa de reportar sobre o suicídio, que não é apenas doloroso, mas desafiador também. Jornalistas correm risco de promover contágio: um aumento de suicídios ligados a reportagens irresponsáveis ​​da mídia. Há também o risco de negligenciar informações que acrescentariam ainda mais estigma e sentimentos de vergonha para aqueles que sobrevivem à perda e aqueles mais suscetíveis à autoagressão.

Criar uma conversa sobre suicídio e saúde mental pode ser positivo, mas às vezes é difícil encontrar um equilíbrio entre o fornecimento de informações precisas e a prevenção de danos desnecessários.

Ao cobrir o suicídio --a décima principal causa de morte nos EUA para todas as idades-- menos é mais. Isso significa menos detalhes, menos manchetes sensacionalistas e menos invasões. Os jornalistas nem sempre podem melhorar a situação, mas devem pelo menos tentar não piorá-la.

Pedimos a alguns especialistas em mídia e saúde mental que compartilhassem seus conselhos para qualquer um que reporte sobre o assunto.

Evite frases como "cometer suicídio" ou "suicídio com sucesso"

As pessoas "cometem" um crime, diz Natasha Devon, escritora e fundadora do Mental Health Media Charter, um projeto baseado no Reino Unido lançado para garantir que as reportgens de saúde mental sejam responsáveis. Suicídio não é um crime, mas um problema de saúde global.

“As evidências mostram que, se as pessoas acreditarem que haverá ramificações legais, isso pode impedi-las de procurar ajuda para pensamentos suicidas”, diz Natasha. "É importante evitar perpetuar esse mito."

Por outro lado, a expressão “suicídio bem-sucedido” [conseguir se suicidar] não é apenas imprecisa, transmitindo a ideia de alcançar algo positivo, mas perturbadora, especialmente para entes queridos em luto. O uso de uma linguagem mais apropriada, sem julgamento, poderia encorajar as pessoas necessitadas a pedir ajuda.

Esta notícia do jornal Guardian é um bom exemplo para quem quer mudar a sua redação.

Não dê muitos detalhes sobre os métodos do suicídio

"Há evidências que mostram que entrar em muitos detalhes sem noção sobre como uma pessoa terminou sua vida pode induzir comportamentos imitacionais em leitores que estão em risco de suicídio ou autoagressão", diz Natasha. "Isso é chamado de 'efeito gatilho'."

Há poucos dias, o vice-presidente de padrões da Associated Press, John Daniszewski, explicou que eles removeram alguns detalhes desnecessários inicialmente publicados em matérias sobre os suicídios de Anthony Bourdain e Kate Spade, pedindo aos jornalistas para manter o mínimo de informações sobre o método da morte e não torná-los o ponto central das matéria.

Um ótimo exemplo é o obituário da CNN para Bourdain, que homenageia sua vida e legado sem focar demais nos fatos sobre sua morte.

Sempre forneça informação sobre alguma linha de ajuda

Uma frase simples pode salvar uma vida. É suficiente adicionar algo como "Se você estiver em crise, ligue para o [telefone nacional ou hotline relevante]".

“É para alguém que está vendo sua reportagem ou matéria possa acessar ajuda imediata se estiver com dificuldades ou se estiver preocupado com alguém que está passando por dificuldades”, diz Stephanie Coggin, vice-presidente de comunicações e marketing da American Foundation for Suicide Prevention.

Isso é algo que começamos a ver na maioria das notícias nas últimas semanas; um sinal revelador de que a conscientização está aumentando nas redações e nas organizações de mídia.

Você também pode considerar incluir uma lista de alertas para reconhecer em amigos e familiares.

Não sugira que um suicídio tenha sido causado por um único evento

Suicídio é algo complexo e muitas vezes é o resultado de diferentes causas, incluindo doença mental --seja ela reconhecida ou tratada ou não.

“Evite reportar que uma morte por suicídio foi causada por um único evento, como perda de emprego ou divórcio, já que pesquisas mostram que ninguém tira sua vida por uma única razão, mas sim uma combinação de fatores”, explica Stephanie. “Informar uma causa deixa o público com uma compreensão excessivamente simplista e enganosa do suicídio.”

Se doença mental ou abuso de substâncias estão envolvidos, pode ser útil contextualizar e ampliar a conversa pública sobre saúde e dependência, mencionando especificamente que esses problemas são tratáveis.

"Certifique-se de incluir mensagens esperançosas de que o suicídio é evitável em linguagem, tom e imagens usadas", diz Stephanie.

Um recente comentário no New Yorker explora a natureza complexa, diferenciada e evitável do suicídio.

Cristiana Bedei é jornalista freelance, com foco em gênero, sexualidade, direitos das mulheres e saúde mental.

Imagem principal sob licença CC por Unsplash via rawpixel