Direkt36 chega para preencher necessidade de reportagens investigativas

porAshley Nguyen
Jan 15, 2015 em Empreendedorismo de mídia

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, "lançou uma repressão autocrática na imprensa do país", declarou o professor Philip N. Howard da Central European University numa coluna de setembro no New York Times

O controle do governo sobre a mídia pública, Howard continuou, é sentido em nomeações de membros da equipe e controle do conteúdo.

Direkt36, um novo centro de jornalismo investigativo sem fins lucrativos na Hungria, está tentando voltar a reportagens originais sem interferência do governo. 

“Escolhemos este modelo porque a mídia tradicional na Hungria está vulnerável à influência que o governo exerce sobre ela, tanto como regulador como anunciante", os fundadores da organização escreveram num artigo anunciando o lançamento do Direkt36 no Medium. “Como organização sem fins lucrativos, temos uma maior liberdade para conduzir reportagem de prestação de contas de forma independente.”

Criada pelos jornalistas húngaros Gergő Sáling, András Pethő e Balázs Weyer, Direkt36 já começou a trabalhar em reportagens e está no processo de contratar dois repórteres.

Os três jornalistas escolheram o nome Direkt36 porque vão fazer somente reportagem direta e honesta. (O número 36 é o código de país da Hungria.)

Apesar de que tiveram que levantar os custos iniciais através de métodos tradicionais de angariação de fundos, o Direkt36 vai iniciar uma campanha de "crowdfunding" em poucas semanas e lançar seu site em húngaro e inglês em um mês. Eles serão um veículo online pequeno e publicarão no site do Direkt36, mas os fundadores esperam seguir o modelo de negócios da agência ProPublica com veículos maiores mostrando seu trabalho. 

A IJNet conversou com András Pethő, um dos co-fundadores, sobre as origens do centro. 

Mudança na redação 

Quando Pethő voltou de uma viagem ao exterior para seu trabalho no conhecido site Origo, ele percebeu uma mudança na redação.

Pethő fez o programa Hubert H. Humphrey fellowship na Universidade de Maryland nos Estados Unidos, onde trabalhou na unidade investigativa do Washington Post. Quando ele retornou ao Origo, que o empregava há quase 12 anos, Pethő quis continuar seu trabalho investigativo. 

Mas quando ele começou a seguir uma história sobre o excesso de despesas de viagem de um funcionário de alto nível no gabinete do primeiro-ministro, ele sofreu resistência do governo e sua empresa. Depois que o governo se recusou a fornecer informações que Pethő solicitou, ele processou o governo. A primeira audiência foi marcada para a semana da eleição parlamentar húngara em abril de 2014.

Poucos dias antes da audiência, o editor de Pethő, Gergő Saling, o chamou: a diretoria do Origo pediu a Pethő para adiar a audiência, porque a data coincidia com a eleição.

Pethő recusou. Semanas mais tarde, depois de algumas matérias serem publicadas, a administração da Origo pediu Saling para remover os artigos do website. Saling não cumpriu.

A gota d'água veio em junho de 2014, quando Pethő publicou um grande avanço na série: O funcionário do governo e seu sócio tinham gastado cerca de 2 milhões de forints húngaros (o equivalente a US$7.442) em hotéis em Londres, Itália e Suíça em sete dias.

A notícia foi espalhada por veículos de notícias na Hungria, e, em poucos dias, Origo demitiu Saling de sua posição de editor. Mostrando solidariedade, Pethő, que na época era editor-adjunto, saiu junto. Dezenas de repórteres do Origo seguiram o exemplo.

"Passei toda a minha carreira jornalística na Hungria, no Origo, e durante muito tempo foi um bom lugar para fazer jornalismo", disse Pethő. "Foi uma [empresa] sólida financeiramente na maior parte do tempo e quando enfrentou pressão ou quando fizemos matérias sobre temas delicados, eu sempre senti que tinha o apoio da editora."

"Durante a maioria dos anos, tudo correu bem", continuou Pethő. "Mas algo mudou quando eu voltei no final de 2013 do programa de bolsas. Notei que as coisas tinham mudado quando estávamos lidando com notícias difíceis. O lado comercial não estava tão favorável."

Necessidade de jornalismo investigativo na Hungria

Segundo Pethő, apesar de que jornalistas corajosos cobrem questões grandes na Hungria, as matérias são "raramente investigações sistemáticas". As reportagens se concentram em má gestão, corrupção e abusos de poder, mas em geral não têm a mesma profundidade que as reportagens investigativas nos países ocidentais.

"Eu sei que nos EUA apenas as publicações [maiores] podem se dar ao luxo de passar um ano inteiro investigando uma história, mas não temos os recursos para fazer essas investigações, longas e demoradas na Hungria", Pethő disse, acrescentando que fazer jornalismo investigativo é uma tarefa complicada.

"Você tem que ser capaz de lidar com os dados, lidar com entrevistas delicadas e pensar estrategicamente", continuou ele. "Nós não temos os modelos ou muitas pessoas fazendo isso [na Hungria]."

A falta dessa cobertura é a razão pela qual Pethő, Saling e Weyer decidiram criar Direkt36. Enquanto trabalhavam no Origo como editores, Pethő e Mariah não tinham muito tempo para seguir histórias em profundidade. Uma pequena organização sem fins lucrativos de notícias irá permitir que eles se concentrem no que é importante, Pethő disse: "Histórias que brilham luz sobre a verdade e faça com os poderosos se responsabilizem [por seus atos]."

Imagem cortesia de Direkt36: Da esquerda à direita, Balázs Weyer, Gergő Sáling e András Pethő