Digital Fridays: Uma abordagem inovadora para criação de cultura digital nas redações

por Nasr ul Hadi
Apr 5, 2016 em Jornalismo digital

Em 2015, o bolsista Knight do ICFJ Nasr ul Hadi chegou ao jornal The Hindustan Times para conduzir a adoção de novas ferramentas e métodos digitais entre departamentos, lugares, hierarquias, até mesmo faixas etárias. Sua experiência com treinamentos semanais entre colegas, o "Digital Fridays" (Sexta-feiras Digitais), ajudou a "hackear a cultura" em um dos meios de comunicação tradicionais mais venerados na Índia.

IJNet: Qual é o conceito por trás do "Digital Fridays"?

Hadi: As equipes mais inovadoras no jornalismo hoje são as que estão constantemente descobrindo, testando e adotando ou lançando novas ferramentas e práticas para apuração, produção e distribuição de conteúdo digital. Isto é como eles acrescentam Dataminr, CartoDB, Slack, Parse.ly, Sprout Social, etc., para o seu kit de ferramentas para ficar de olho nas redes sociais, visualização de dados, gerenciamento de fluxo de trabalho, análise de conteúdo, desenvolvimento de audiências e muito mais. Os melhores podem até mesmo construir tais produtos nas próprias redações.

O diretor de conteúdo Nic Dawes e eu acreditamos que inculcar esse comportamento em toda redação do HT foi a única maneira de alcançar -- e mais importante sustentar -- uma mentalidade de priorizar o digital. Eu incluí uma sessão de duas horas no calendário em cada sexta-feira da semana, para fornecer treinamento prático sobre novas competências e ferramentas relacionadas a cada semana.

Como o Digital Fridays foi diferente de outras oportunidades de treinamento no HT?

Treinamentos jornalísticos são geralmente um esforço de impulso. Os chefes identificam as lacunas de competências em uma equipe particular, um instrutor de fora prescreve um currículo e o departamento recursos humanos torna a participação obrigatória. A estrutura é muito parecida com uma aula, com alguns exercícios e talvez até mesmo uma avaliação no final.

O Digital Fridays foi o oposto totalmente.

O comparecimento foi através de inscrições e nunca obrigatório. Deixamos a pessoa decidir se uma sessão específica seria relevante para ele ou ela. Isto permitiu discussões mais animadas e colaborações mais interessantes porque você sentava ao lado de colegas com os quais raramente trabalhavam ou sequer conheciam. Por exemplo, tivemos um jornalista investigativo sênior -- até mesmo um editor-chefe -- sentado ao lado de trainees e fazendo perguntas de esclarecimento.

Os temas -- uso de radares digitais para encontrar notícias, produção de mídia interativa e visualizações, desenvolvimento de conjuntos de dados para histórias, segurança e criptografia de documentos e comunicação, trabalho através de chat em vez de e-mail -- estavam todos posicionados como explorações de novas habilidades, não correções para brechas.

Mais importante, os que aprendiam mais rápido passaram a ajudar nas sessões e, eventualmente, conduziram por conta própria. Após as primeiras 10 sextas-feiras, tivemos um currículo para cada sessão, modelos de formulários de feedback, de registro e inscrição, e este pequeno "grupo de inovações" -- um precursor do que é agora a equipe HT Labs -- que dirigiu as próximas 10 sessões no piloto automático, enquanto eu viajei para outra agências do HT e até mesmo a sua redação hindi para introduzir o mesmo modelo.

Quantos funcionários do HT participaram?

Quando começamos, o HT ainda não tinha mudado para a sua nova redação de 40.000 pés quadrados. Fizemos essas sessões em uma pequena sala de conferências em um canto do antigo escritório, capaz de acomodar apenas 15 a 20 participantes de cada vez e muitas vezes em conflito com vários outros treinamentos que a liderança da HT oferecia para toda a equipe editorial da 740 em Nova Deli.

Ainda assim, mais de 150 funcionários editoriais -- mais de 20 por cento da força global do HQ -- assistiu a uma ou mais dessas sessões. Muitas vezes, a nossa lista de espera para uma sessão era maior do que o número de participantes. Outros 100 funcionários da publicação hindi do HT participaram depois de uma versão reduzida do mesmo programa.

O treinamento teve algum impacto?

O Digital Fridays levou a novos tipos de colaborações, em que os jornalistas buscaram tecnologia, multimídia ou especialistas de produtos, com que eles geralmente não trabalham -- principalmente porque tais papéis não existiam até então. Os jornalistas da revista de domingo do HT colaboraram com o novo engenheiro editorial para produzir seu primeiro banco de dados interativo de resenhas de livros (ainda em testes). O mesmo engenheiro ajudou a editoria de tecnologia a analisar e escrever sobre o enorme conjunto de dados sobre indianos no vazamento da Ashley Madison. A equipe de cidade trabalhou com a editoria de multimídia para usar o Atavist no primeiro experimento de leitura longa do HT. Um jornalista-desenvolvedor, também a primeira pessoa nesse papel no HT, codificou seu próprio modelo para formatos longos e ajudou mais e mais repórteres a contarem suas histórias desta forma: o In Depth é agora uma seção dedicada no site da HT.

O mais interessante dessas colaborações envolveu o jornalista investigativo sênior que eu tinha mencionado anteriormente, um regular do Digital Fridays que se tornou muito interessado em aprender coisas novas e trabalhar com pessoas mais jovens. O resultado indireto, meses mais tarde, foi a primeira reportagem longa e multimídia do repórter investigativo chamada “Kashmir’s Disturbing New Reality” (A Preocupante Nova Realidade da Caxemira) - possivelmente a primeira vez que uma organização de mídia indiana fez esse tipo de matéria multimídia profunda sobre a Caxemira -- onde ela deu a jovens de 20 e poucos anos na redação a oportunidade de ajudar a contar a sua história melhor com vídeos, linhas de tempo, design de interação e muito mais.

Acha que o Digital Fridays pode crescer e evoluir?

Digital Fridays é um modelo que pode ser adotado por redações em todo o mundo. Temos um currículo aberto que pode ser personalizado por outras redações. Eu já realizei algumas sessões de treinamento de dois dias em outras organizações, introduzindo a ideia de treinamentos regulares semanais entre colegas.

Mas se redações podem pensar em Digital Fridays como uma plataforma e não apenas um programa, poderiam começar a convidar pautas de especialistas de fora da casa que têm ideias sobre como aplicar habilidades de nicho para o jornalismo -- aprendizagem de máquina, CRM social, coleta de dados orientada por sensor e muito mais. E ao reservar algumas vagas para participantes de publicações concorrentes poderiam também trabalhar como um canal para o talento nesta indústria focada em inovação e mudança.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Dave