Dicas para reportagens sobre temas sensíveis

por Ashley Nguyen
Nov 15, 2015 em Temas especializados

A jornalista indiana Priyanka Dubey está trabalhando duro em um livro que examina estupro na Índia. Com cinco anos de carreira como jornalista investigativa, ela entrevistou inúmeras mulheres sobre seus encontros brutais com estupradores.

Mas, ao pesquisar o tema para se preparar para as histórias, a vencedora do Prêmio Knight de Jornalismo Internacional, descobriu que havia pouca documentação sobre estupro na Índia. As pessoas abriram a boca após o caso do estupro coletivo em dezembro de 2012, Priyanka disse, mas não havia nenhum "livro de não-ficção autêntico" examinando a questão.

Muito do conteúdo do livro virá de reportagens passadas de Priyanka como jornalista freelance e enquanto trabalhava para Tehelka Hindi, uma revista indiana, e o Hindustan Times.  No entanto, ela continua a pesquisar por que o estupro na Índia é tão persistente e o que acontece com vítimas e sobreviventes depois de terem sido abusadas sexualmente.

Priyanka tem experiência em contar histórias sensíveis. Aos 28 anos, a nativa de Bhopal escreve frequentemente sobre questões de gênero e tráfico de crianças. Ela dominou a arte da sinceridade como entrevistadora com matérias sobre crianças desaparecidas forçadas ao trabalho agrícola e policiais que enfrentam o tratamento cruel de colegas oficiais.

Ela falou com a IJNet sobre suas experiências como jornalista investigativa e enfatizou estas dicas para repórteres:

Seja autêntico

Cada matéria que Priyanka faz é uma "tentativa humilde", explicou ela. Nenhum repórter deve entrar na casa de uma pessoa à espera de uma boa história se sua única missão é conseguir uma entrevista.

Para entrevistar sobreviventes de estupro, Priyanka conecta com ativistas locais que podem conhecer uma pessoa. Ela leva tempo para saber sobre sua história primeiro. Então, ela senta-se com a pessoa até que estejam prontos para falar. Talvez no primeiro dia, todos fiquem em silêncio. Priyanka sempre retorna.

"Para histórias de interesse humano sobre temas sensíveis, como o estupro, a chave é o silêncio", disse Priyanka. "Você tem que primeiro compartilhar a dor deles e estar com eles. Porque este trabalho vai ajudar a garantir que as vítimas obtenham justiça, eu sempre faço uma pergunta de início como, 'O que você gostaria de dizer,' ou 'O que você gostaria que acontecesse? "Se ela se abre para você, você vai ganhar sua confiança."

Priyanka encontrou pessoas que não querem falar, mas ela é persistente de uma forma tranquila, com cautela. Neetu Kumar, uma mulher policial que sofreu estupro coletivo no caminho para o funeral de sua irmã, a princípio se recusou a falar com ela.

Neetu estava cansada dos ataques verbais que recebia de seu departamento, a Delegacia de Polícia de Latehar, quando ela falou com a imprensa sobre seu caso.

Depois que Neetu recusou, Priyanka lembra de ter feito um apelo final antes de sair, "Se você falar comigo, será uma grande ajuda. Irá ajudar a trazer isto para fora e mostrar às pessoas que há uma mensagem."

Neetu cedeu e sua história fez parte da série de três partes de Priyanka sobre o que é ser uma policial na Índia. Outros repórteres também cobriram o problema e alguns meses depois de a série ser publicada, o governo de Deli anunciou que iria aumentar a porcentagem de mulheres na força policial.

Priyanka lembra de ter dito a Neetu, "A sua felicidade e sua sanidade mental são mais importantes para mim do que esta entrevista."

"Eu acho que isso a tocou", disse Priyanka. "Você apenas tem que ser honesto. Na maioria dos casos, funciona."

Faça seu dever de casa

Priyanka é baseada em Deli, mas até agora, muitas de suas reportagens são realizadas no norte da Índia. Apesar de ela ter nascido em Bhopal e reportado em todo o estado de Madhya Pradesh, a Índia é tão grande que seria impossível conhecer cada aldeia ou cidade bem.

Antes de ir para o campo, Priyanka disse que faz uma extensa pesquisa e incentiva outros repórteres para fazer sua lição de casa.

A jornalista recomenda a leitura de jornais locais no dialeto regional, ficar em contato com colaboradores na área, conversar com especialistas e desenvolver muitos planos para quando realmente chegar às ruas. Para dois dias de reportagem, Priyanka diz que pode fazer cerca de 20 dias de trabalhos em casa.

Para uma reportagem sobre crianças raptadas de Deli para trabalhar na região produtora de açúcar de Uttar Pradesh, seu dever de casa consistiu na criação de um questionário para que ela pudesse passar por pesquisadora agrícola. Ela se aproximou de agricultores, fez perguntas simples e obteve uma idea dos assuntos. Eles ofereceram um refresco e ela esperou para ver quem iria trazer a água.

"Eu vi que o menino que trazia a água para mim não era um residente de lá", ela lembrou. "A cor de sua pele, seus traços, o jeito que falava -- você imediatamente saberia que ele não era de lá."

Priyanka usou sua câmera de "pesquisadora" para capturar imagens das crianças e essas imagens apareceram em sua reportagem, que foi publicada no Tehelka.

Disfarçar-se parece excitante e a experiência de Priyanka como pesquisadora é uma boa história, mas não teria sido possível se ela não tivesse planejado incansavelmente a viagem.

Construa redes pessoais e profissionais

Nos últimos cinco anos como jornalista, Priyanka construiu uma boa rede de fontes profissionais em diferentes distritos do norte da Índia. Eles a ajudam a ficar por dentro do que está acontecendo. Estas fontes ajudam a obter motoristas confiáveis ​​quando ela está no campo. Isto é essencial especialmente quando ela reporta em vilarejos remotos onde a conectividade é limitada ou inexistente.

Enquanto uma comunidade profissional é crucial para seu fluxo de trabalho, Priyanka depende fortemente de sua rede de recursos humanos, o que ela chama de "o maior capital de qualquer repórter".

"As organizações podem mudar, tudo pode morrer ou cair, mas a família de fontes locais e repórteres locais que você desenvolve é o seu apoio real", disse Priyanka. "A rede profissional tem suas limitações. Ninguém vai colocar suas vidas em linha para você por alguns dólares ou algumas milhares de rúpias. Mas [graças a] minha rede pessoal, todo mundo sabe que eu não sou para ser tocada e há consequências para isso."

Cuide de si mesmo

Priyanka é agora uma jornalista freelance. Ela saiu do Tehelka para dedicar tempo a histórias importantes com maior permanência. Os temas que ela aborda são muitas vezes sombrios e ela admite que isso afeta sua saúde física e mental. A jornalista se sente mais ansiosa, disse ela.

"Eu ainda me sinto bem porque não fiquei dura ainda", disse Priyanka. "Eu ainda choro às vezes enquanto escrevo meu texto como costumava fazer quando escrevia minhas primeiras matérias... eu percebi cerca de um ano atrás que perdi a capacidade de me sentir normal e feliz."

Para cuidar de si mesma, Priyanka tenta fazer pausas entre reportagens e passar tempo com as pessoas. Independentemente disso, ela está comprometida com seu trabalho. Ela já está pensando em cinco anos no futuro: "Algum dia, pretendo lançar uma plataforma de jornalismo de formato longo em hindi e inglês. Temos que começar um movimento de salvar o jornalismo de formato longo."

Imagem principal Ashley Nguyen