Dicas de reportagem policial para iniciantes

por Bob Eggington
Jan 22, 2011 em Temas especializados

Cobrir crimes é um dos papéis mais desafiadores do jornalismo. Exige integridade, sensibilidade, precisão e uma consciência de tudo o que está acontecendo ao seu redor. Na última da nossa série de módulos de capacitação escrita a pedidos de jornalistas na Gâmbia, Bob Eggington apresenta regras básicas para a reportagem policial.

As pessoas querem ler sobre crime. Crime vende jornais, comerciais de TV e livros. Envolve ganância, violência, sexo e vingança - todas as emoções humanas realmente poderosas. Às vezes, o crime reflete questões importantes na sociedade: corrupção, drogas, pobreza, fome, falta de educação, ou o que for. E às vezes é apenas uma boa história, sem implicações mais amplas. De qualquer maneira, é preciso cobrir o crime adequadamente. Seu público espera isso de você. Então, aqui estão algumas coisas a lembrar sobre reportagem policial.

1:Tudo é construído com base nos princípios do bom jornalismo

Na reportagem policial, como em todas as outras especialidades, primeiro você deve utilizar as técnicas básicas do jornalismo. Seu texto deve ser preciso. Deve ser escrito corretamente. Você deve ter fatos que sustentem cada frase que escreve. Seu texto deve ser claro e inequívoco. É preciso segurar o interesse do público.

Você deve ter fatos que sustentem cada frase que escreve

2: Sucesso é construído com base na integridade

Seu comportamento pessoal e profissional deve ser irrepreensível. Você deve ser honesto, meticuloso, confiável e imparcial. Deve ser atencioso e compassivo. Não abuse do poder ou da responsabilidade de sua posição. Aceite críticas sempre que justificáveis. Corrija seus erros. Seja pontual. Entregue o seu trabalho no tempo determinado e seja um bom colega.

Não abuse do poder ou responsabilidade de sua posição

3: Reúna todos os fatos

Esta é uma exigência de todo o jornalismo, mas talvez mais ainda da reportagem policial. O jornalista americano Joseph Pulitzer (que deu o nome ao Prêmio Pulitzer) era muito interessado em reportagem policial. Ele sempre queria que seus repórteres fornecessem "detalhes, detalhes e mais detalhes". Leitores querem saber de tudo sobre um crime. Que tipo de máscara os atacantes vestiam? Qual era a cor do carro usado na fuga? Como estava o clima? Quanto mais fatos, melhor a matéria. Assim, trabalhe duro, continue a apurar e continue a acrescentar fatos.

Quanto mais fatos, melhor a matéria

4: Conheça o seu território

Um bom repórter policial não fica esperando o próximo assalto a banco. Para trabalhar eficazmente, você deve ter excelentes contatos com todas as agências relevantes, polícia, órgãos de governo, tribunais, assessores de imprensa, etc. Cultive essas pessoas. Certifique-se de que eles tenham seus números de contato. Você precisa de uma estreita relação de trabalho, para quando acontecer uma grande história, eles liguem pra você, ao invés de você ter que caçá-los para obter informações.

Cultive seus contatos para que você esteja pronto para a próxima grande história de um crime

5: Lidando com criminosos

Ser um repórter policial envolve conhecer os criminosos. Isso tem perigos óbvios, tanto para o trabalho como para sua segurança. É vital que você seja completamente direto no trato com as pessoas do lado errado da lei. Sempre seja claro sobre o fato de que você é um repórter. Leve consigo sua identificação. Mantenha anotações. Informe o seu editor de notícias onde você está indo e quem irá se encontrar. Não corra riscos bobos. É geralmente OK ser cordial com criminosos, mas não ficar amigo deles. Não deixe acumular obrigações para com seus contatos criminosos. Isto é um convite para que eles tentem lhe corromper.

Não fique muito próximo de criminosos

6: Lidando com as fontes

On the record: É uma boa prática identificar, em sua reportagem, as fontes de informação. Explique suas credenciais, de modo que o público possa tomar uma decisão sobre o peso que deva atribuir à informação.

Off the record: Muitas vezes as melhores informações vêm de fontes que desejam permanecer anônimas. Você deve ser claro com tais fontes sobre a forma como a informação será usada e deve ter cuidado para proteger o anonimato delas. Isso significa, até mesmo, estar disposto a ir para a prisão, em vez de divulgar a identidade da fonte.

Sempre proteja suas fontes

7: Lembre-se que todos os dados guardados eletronicamente são inseguros

As informações que você mantém em seu computador, organizador pessoal, celular ou qualquer outro dispositivo eletrônico podem ser 'descobertas' pelas autoridades, ladrões ou piratas virtuais. Nunca mantenha informações confidenciais em formato eletrônico.

Nunca mantenha informações confidenciais em formulário eletrônico

8: Mantenha as mãos limpas

Não preciso nem dizer isso, mas em todo o caso: Não aceite presentes ou favores. Não participe em qualquer momento ou tolere atividade criminosa. Não provoque atividade criminosa. Não descreva a atividade criminosa de tal forma que incentive outros a participar de um crime. Não celebre o crime. Não embeleze criminosos ou os transforme em celebridades.

Nunca glamorize o crime

9: Não sensacionalize os fatos

Existe uma relação comprovada entre o modo como a mídia informa sobre o crime e o medo público do crime. Crime já é algo ruim o suficiente. Os repórteres que fazem o crime parecer pior do que realmente é estão fazendo um desserviço à sociedade. Não exagere os piores aspectos de um crime. Informe sobre o que aconteceu de forma racional e factual.

Não exagere o crime - informe de forma factual

10: Lidando com as vítimas do crime

As vítimas são, obviamente, as pessoas-chave em toda a matéria. Você precisa ter acesso às vítimas, lidar com elas com respeito e sensibilidade, coletar sua versão dos fatos e relatá-los cuidadosamente. Lembre-se que estas pessoas estão sob grande estresse. Não piore o estado delas, abordando-as de maneira descuidada. Mas lembre-se também que o crime contra uma pessoa é um ultraje e as vítimas têm direito a raiva e angústia.

Lide com as vítimas com sensibilidade

11: Lidando com os suspeitos

Lembre-se do pressuposto de que um suspeito é inocente até que se prove o contrário. Não é trabalho da mídia acusar ou defender, oferecer vereditos ou passar sentenças. Deixe isso para os tribunais.

Não é trabalho da mídia acusar ou defender

12: Lidando com apagões de notícias

Às vezes, a polícia pede aos jornalistas para manter uma história fora da mídia. Geralmente é porque pode prejudicar uma operação em andamento, ou colocar a vida de alguém em perigo. Ocasionalmente, os motivos do pedido são menos admiráveis. Não é para o repórter sozinho decidir se deve colaborar nestes casos. Sempre consulte o editor da publicação.

Não concorde em segurar uma matéria sem consultar o seu editor

13: Bom gosto e decência

Alguns crimes são tão terríveis que é difícil relatá-los sem violar os limites do bom gosto. Aborde tal material com cuidado e sensibilidade para com a cultura local e a comunidade. Lembre-se das vítimas e suas famílias.

Não ofenda o público com uma reportagem escabrosa

14: Tendência ou notícia isolada?

Esta é uma questão importante para se manter em mente. O crime que você está apurando faz parte de algo maior acontecendo na sociedade? Levanta uma questão geral sobre a segurança pública? Os assaltos estão a aumentando por causa de um maior consumo de drogas? Se crimes com facas estão aumentando entre os jovens, qual é a razão por trás disso? Se uma determinada marca de carro está sendo roubado várias vezes, há alguma organização de contrabando por trás disso? Veja se há algum contexto para o crime e, se houver, inclua-o em sua reportagem. Mas se é simplesmente um crime isolado, descreva-o como tal.

Às vezes, o contexto é tão importante quanto o próprio crime

Este artigo foi originalmente publicado no Media Helping Media.