Desafios regionais, tecnologia e confiança são foco de publicação da Rede de Jornalismo Ético

porTaylor Mulcahey
Apr 23, 2019 em Temas especializados
Publicação da EJN

A cada ano, a Rede de Jornalismo Ético (EJN, em inglês) publica uma revista que analisa amplamente tópicos e desafios urgentes para o jornalismo em todo o mundo. A publicação deste ano, lançada na Conferência Internacional de Jornalismo em Perugia, no início de abril, assume um tom sóbrio com o título “Saving the news: Ethics and the fight for the future of journalism" [Salvando as notícias: Ética e a luta pelo futuro do jornalismo].

Os tópicos são diversos, abrangendo desde um exame aprofundado dos desafios dos jornalistas no Sudão do Sul até a ética da manipulação fotográfica. Dois temas, no entanto, destacam-se tanto nos artigos quanto na cobertura em torno do lançamento da publicação: tecnologia e confiança, que ficam no cerne das conversas que ocorrem hoje em todos os cantos do mundo do jornalismo.

"Há uma grande crise mundial em termos de informação, e isso pode ser caracterizado como uma grande crise de confiança do público", disse o presidente e fundador da EJN, Aidan White, à IJNet.

"As pessoas estão confusas com o caos da internet por não saberem em que podem confiar ou no que não podem confiar", continuou White, que também contribuiu para a publicação. “O resultado é que as pessoas estão, por um lado, se recusando a acreditar em qualquer coisa que leem na mídia e, por outro lado, acreditando em tudo que leem na mídia.”

No prefácio da publicação, o diretor do Lady Margaret Hall, na Universidade Oxford, e presidente do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, Alan Rusbridger, discute a ascensão e queda de gigantes da tecnologia como o Facebook, bem como seu impacto destrutivo na indústria de notícias. Ele argumenta, no entanto, que apontar o dedo é tanto uma distração quanto uma realidade.

Rusbridger também observa dois exemplos onde ele considera que os jornalistas falharam na construção da confiança: a cobertura do Brexit e as mudanças climáticas.

"Deixe de lado a política e pergunte: que mensagem queremos que um público cético acredite sobre o jornalismo?", ele escreve. “É principalmente um ofício de verificação ou opinião? Existe para dar uma base factual para debates que a sociedade precisa ter ou existe para promover as crenças de um proprietário ou editor individual?”

A questão do ceticismo público em torno da mídia estabelece o cenário para muitos dos artigos deste ano. Ainda assim, o título em si oferece mais esperança do que aparenta ao primeiro olhar. Ao invés de desanimarem com os desafios, os artigos servem como um argumento e um roteiro para mais soluções.

Embora White não hesite em soar o alarme sobre o jornalismo e, consequentemente, a democracia, ele diz que estamos à beira de uma "era de ouro" no jornalismo.

"Estamos tão envolvidos com a sensação de crise, que não estamos cientes disso", diz ele.

Frustrado com a nostalgia de um jornalismo que ele diz nunca ter visto, White argumenta que nunca houve, na verdade, uma época em que o jornalismo estivesse livre de questões de confiança. Agora, porém, seu otimismo deriva do potencial que ele vê em novas tecnologias que provavelmente transformarão as maneiras pelas quais as notícias são criadas e distribuídas.

“Temos oportunidades de fornecer ao público informação interessante em escala e com níveis de eficiência, precisão e relevância que são inéditos”, diz White.

Na publicação, os artigos do próprio White destacam o papel da ética em face do perigo e do autoritarismo e, mais tarde, em um caso de maior regulamentação da Big Tech.

Outros tópicos abordados na revista deste ano incluem discurso de ódio, segurança, jornalismo focado em soluções, governança e mais. No total, os artigos abrangem uma variedade de tópicos e geografias:  Honduras, Filipinas, Espanha, Kosovo e outros.

“Como sempre, queríamos uma voz autêntica das regiões ... [pessoas] que entendessem a situação para falar realmente sobre o que está acontecendo”, explicou White.

Olhando para o futuro, White está animado não apenas sobre o potencial do jornalismo, mas também sobre o trabalho da EJN. No mês passado, por exemplo, a organização nomeou uma nova diretora, Hannah Storm, que iniciou seu trabalho apresentando a publicação em um painel em Perugia.

“Eu acho que o que ela vai trazer é uma energia real e inovadora e algumas questões novas também. Não fizemos o suficiente em questões relacionadas a gênero, por exemplo”, diz White. “Também vamos trabalhar mais em questões de segurança. E Hannah é uma pessoa muito inspiradora para se ter na equipe de liderança, então acho que tudo parece ir muito bem no futuro.”


Imagem principal da última publicação da EJN, "Saving the news: Ethics and the fight for the future of journalism"