DataN pretende levar treinamento personalizado a redações em países em desenvolvimento

porMargaret Looney
May 22, 2015 em Jornalismo de dados

Redações que sofrem com a falta de recursos, mas querem incorporar jornalismo de dados em seu trabalho têm uma nova opção.

DataN é um pacote de treinamento personalizado para ensinar jornalismo de dados, que pretende se ajustar às necessidades e estilos das redações.

Desenvolvido por Kuang Keng Kuek Ser, que está terminando sua bolsa com o Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism, o pacote abrange temas como encontrar, limpar e visualizar dados, além de ferramentas de contar histórias interativas como Timeline.JS e outros.

Para adaptar cada pacote, Kuek irá realizar pesquisas preliminares de usuários para corresponder as ferramentas e treinamentos para a cobertura da redação. Ele também planeja acompanhar todo o pessoal treinado com apoio pós-treinamento para superar o que Kuek se refere como formação "tamanho único" ou "pára-quedas", quando os treinadores e treinees entram e saem sem resultados sustentáveis ​​e acionáveis. Ele também vai apresentar listas de dicas gratuitas e recursos no site do DataN.

Kuek primeiro desenvolveu a ideia quando era estudante do NYU Studio 20 trabalhando em parceria com a revista Foreign Policy para o desenvolvimento de treinamentos e tutoriais para sua equipe. Foi ao longo destes três meses, que ele pensou que poderia expandir este projeto para desenvolver redações em todo o mundo.

Durante seu período como Tow-Knight Fellow, ele teve a chance de testar essa ideia, construindo DataN nos últimos quatro meses e até mesmo realizando seu primeiro estudo de caso no exterior com o Malaysiakini, uma organização independente de notícias na Malásia, país natal de Kuek. Ele antes trabalhou na redação por oito anos, e por causa de sua  formação em engenharia química e sua familiaridade com estatísticas, ele naturalmente se tornou conhecido como o "cara de dados" na redação.

Kuek está planejando financiar seu projeto através de uma taxa de treinamento que depende da dimensão e recursos da redação - cerca de US$1.500 para uma equipe de 20 a 30 pessoas. Ele diz que também vai buscar doações de fundações de jornalismo para compensar o custo para as redações. Outra fonte de receita pode ser uma pequena taxa para redações terceirizarem parte da limpeza de dados e serviços de raspagem de dados para Kuek, pois ele notou que há uma curva de aprendizado mais íngreme para esses tipos de treinamentos.

A IJNet conversou com Kuek sobre o projeto, por que é necessário, especialmente nos países asiáticos, e o que ele procura na ferramenta perfeita de visualização de dados.

IJNet: Como você pode ensinar jornalismo de dados em países sem uma cultura de dados aberto?

Para um monte de redações nesses países, a primeira pergunta deles é "Nós nem sequer temos um governo de dados abertos; como é que vamos fazer jornalismo de dados?". Isso é um problema, é claro, mas em muitos países normalmente você pode encontrar fontes alternativas de dados, como de ONGs, universidades e pesquisadores... organismos profissionais... ou associações internacionais, como o Banco Mundial.

Eu também estou olhando para os países que estão começando a abrir mais seus dados públicos. Países como as Filipinas, Indonésia, Quênia e Mongólia fazem parte da [Open Government Partnership] onde estão planejando abrir mais dados para uso público. Estes são os países que estão começando a perceber o valor de dados. Então a questão é: os jornalistas sabem como usar esses dados para o benefício do público?

[Eu também estou de olho] em redações que querem contar histórias mais interativas. A Internet está se movendo muito rápido nesses países e as redações estão tendo dificuldade em competir com as mídias sociais e outros sites online. Então, todo mundo está tentando fazer seu conteúdo mais envolvente, mais criativo. Acho que este é o lugar onde eles podem usar uma grande quantidade de ferramentas e habilidades em jornalismo de dados para tornar sua narrativa mais inovadora.

O que você busca em uma boa ferramenta de visualização de dados?

A primeira coisa que eu busco é se requer habilidades de codificação ou não. Quando você conversa com redações em países em desenvolvimento e fala 'você precisa saber um pouco sobre codificação, JavaScript ou HTML', eles vão dizer 'não, é impossível'. A cultura de colaboração de jornalistas e desenvolvedores não chegou lá ainda, assim todos os bons desenvolvedores trabalham para grandes empresas de tecnologia; eles não trabalham em redações.

A segunda coisa é saber se [a ferramenta[ se encaixa na redação. Se a sua redação não publica mapas com frequência, não há nenhuma razão em ensinar como construir um mapa. Se a sua redação lida com um monte de notícias de negócios e você quer mostrar o mercado de ações, então eu vou te ensinar como gerar um gráfico de ações.

DataN já passou por muitas transformações e ajustes enquanto você refinou sua ideia de projeto. Como vê isso mudando no futuro?

Eu tenho um grande visão para este projeto. Espero que consiga construir não apenas um negócio, mas uma rede de jornalistas de dados no mundo em desenvolvimento, como uma rede para o Sudeste da Ásia ou talvez toda a região Ásia Pacífico para que jornalistas de dados, designers e programadores tenham uma plataforma para trocar ideias e trabalhar juntos em colaborações transfronteiriças.

O jornalismo de dados nos EUA e na Europa é importante; é a ordem do momento. Mas nos países em desenvolvimento da Ásia, ainda é algo novo. Na redação eles ainda veem o jornalismo de dados como infográficos. Eu acho que o jornalismo de dados pode ser uma força muito poderosa para abrir os dados, para pressionar por maior transparência nesta parte do mundo.

Você não será conseguirá chegar em todos os redação com necessidade de habilidades de jornalismo de dados em todo o mundo. Então, qual seria sua sugestão para essas redações começarem a aprender por conta própria?

Continue construindo pequenos projetos, você pode até não publicá-los. Mas por construí-los, aprende muito sobre o processo. Se você acabou de ler sobre ele [jornalismo de dados] em um site ou em um livro, realmente não ajuda. A melhor maneira de aprender jornalismo de dados é na verdade construindo algo e levando as pessoas a dar feedback e ver como as pessoas construíram projetos semelhantes.

Imagem de Kuek (esquerda) durante treinamento usada com permissão