Dados 'chatos' produzem matérias importantes sobre multas e segurança no trânsito

porChris Roper
Feb 28, 2016 em Jornalismo de dados

Quando o Code for South Africa decidiu analisar os dados sobre orçamentos municipais e receitas provenientes das multas de trânsito, a conclusão foi clara: certos municípios do país manipularam em massa as receitas de multas de trânsito. Isso indicou que estavam usando armadilhas de velocidade simplesmente para ganhar dinheiro e não como uma medida de segurança no trânsito. A matéria resultante -- que multas de trânsito são essenciais para as receitas de alguns municípios da África do Sul -- ressoou com os leitores, muitos dos quais têm uma relação antagônica com a polícia de trânsito.

Há uma conta no Twitter chamada @PigSpotter ["Localizador de Porco" -- "porco" é termo vulgar para policial] que tem mais de 410.000 seguidores que contribuem avidamente ao propósito declarado da conta: "Vamos ajudar uns aos outros a expor onde policiais estão prendendo e [onde] montaram bloqueios nas estradas todos os dias."

Os tuites mostram como alguns motoristas desrespeitam aqueles cujo trabalho é manter as ruas seguras:

Em contraste com essa linguagem vívida, a reportagem de dados financeiros municipal é desinteressante. Descrevendo como encontrou a história de como multas de trânsito são usadas ​​para encher os cofres de certos municípios, Adi Eyal do Code for Africa, disse, "Na verdade, eu estava apenas sendo um nerd de dados. Olhando para os dados mais chatos que você pode eventualmente encontrar, em seguida, buscando uma história interessante nos dados."

A história que Eyal encontrou foi simples, mas com várias ramificações. A notícia principal era que alguns municípios sul-africanos estão usando multas de trânsito para aumentar desproporcionalmente as suas receitas. Olhando para os dados do ano financeiro terminando em 2014, Eyal estabeleceu que o rendimento nacional per capita de multas é ZAR65,20. Concentrando-se nas principais rodovias nacionais, como a N1 de Joanesburgo para Cape Town, Eyal descobriu que municípios ganham até 40 vezes a média nacional per capita de multas de trânsito. O município Ubuntu, por exemplo, ganhou ZAR2.821,01 per capita anualmente -- 44 vezes a média nacional.

O desafio tornou-se então ajudar as organizações de mídia parceiras a encontrar a direção editorial correta. O Code for Africa enviou o bolsista Knight do ICFJ Ray Joseph para o Code for South Africa com a tarefa de ajudar a converter visualizações de dados em histórias interessantes. Como Joseph frequentemente lamenta, às vezes redações não conseguem ver o potencial da utilização de ferramentas de dados para extrair histórias. Ele assegurou que isso não aconteceria com as visualizações de dados atraentes das multas de trânsito e trabalhou estreitamente com o parceiro de mídia escolhido.

TimesLive, a organização de notícias que o Code for South Africa se juntou para criar conteúdo em torno dos dados, levou a história em uma direção populista: "O pequeno município tem uma população de apenas 18.601 pessoas, de acordo com o censo de 2011. No ano passado, 49 por cento de sua receita veio de multas por excesso de velocidade: ZAR18,5 milhões do município em taxas de serviço e ZAR2,5 milhões em impostos de propriedade não é nada comparado aos ZAR52 milhões emitidos em multas de trânsito naquele ano. Nada mau para uma área municipal onde, de acordo com o censo nacional, apenas um em cada quatro moradores tem acesso a um carro."

O título da matéria foi "Ubuntu: Where it is all fine, fine, fine" ["Ubuntu: Onde tudo está/é 'fine, fine, fine'", uma brincadeira com a palavra "fine" que tem dois significados: multa e bem.]

Outras matérias publicaram manchetes igualmente antagônicas, como "Drive safely - bankrupt a broke municipality" ("Dirija com segurança - leve à falência um município"] e "Are traffic fines highway robbery?" ("As multas de trânsito são assalto rodoviário?"), do próprio Code for South Africa. 

O calendário de lançamento das matérias foi bem avaliado, coincidindo com as viagens de férias dos sul-africanos que acontecem anualmente. As matérias foram acompanhadas por visualizações de dados que mostram os pontos quentes sobre as principais estradas nacionais.

Até agora, no entanto, tudo o que temos é jornalismo que reinforça um estereótipo social específico: a crença por muitos que armadilhas de velocidade têm mais a ver com a ganância do que com a segurança rodoviária. A investigação de dados do Code for South Africa mostrou, como disse Eyal, que "há algo sistêmico errado aqui."

"Alguns municípios veem a N1 como um recurso a aproveitar e a história não é tanto que eles estão multando as pessoas, mas que um município como o Ubuntu está essencialmente falido. Quarenta e nove por cento da receita do município vem de multas. Isso é mais do que impostos, eletricidade, água, coleta de lixo e esgoto juntos. É uma importante fonte de renda para o município."

A história esperando a ser deduzida dos dados é que, se multas de trânsito são a principal fonte de receita do município, não há incentivo realmente de prevenir que as pessoas dirijam acima da velocidade, o que reduziria os acidentes.

Novos dados para 2015 acabam de ser lançados e a questão interessante agora vai ser o quanto a linha de orçamento para multas aumentou e o que isso diz sobre os orçamentos gerais, o estado das finanças dos municípios e as implicações para a segurança do tráfego no país.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Andreas Levers