Congresso da Abraji: Colaboração entre jornalistas investiga Lava Jato

porKalinka Iaquinto
Jul 3, 2018 em Jornalismo investigativo
Collaboration

Jornalismo colaborativo foi destaque no painel “Do Brasil para o mundo: a cobertura transnacional da Lava Jato” que fez parte do 13° Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, realizado de 29 a 30 de junho em São Paulo. 

Segundo o painel, a necessidade de entender a fundo as investigações realizadas pela Polícia Federal brasileira no âmbito da Operação Lava Jato levou jornalistas da América Latina, Estados Unidos e África a se unirem. Desse movimento nasceram dois consórcios internacionais de profissionais de comunicação, o Investiga Lava Jato e o Lava Jato en Latinoamerica.

O objetivo de ambos: trazer à tona o esquema de corrupção e lavagem de dinheiro que envolve empresas, empresários e políticos de diversos pontos do globo.

“Sabemos que a corrupção é transnacional por isso o jornalismo também deveria ser dessa maneira. Assim, resolvemos criar uma rede colaborativa horizontal de jornalistas e não de meios para poder investigar o caso”, disse Romina Mella, do IDL-Reporteros, uma das coordenadoras do Lava Jato en Latinoamerica.

Milagros Salazar, do Convoca, responsável pelo projeto Investiga Lava Jato no Peru, argumentou que os consórcios são a saída para realmente informar as populações sobre o que ocorre em seus países ou sobre aquilo que está acontecendo fora da região, mas que impacta diretamente nas realidades locais.

“É mais fácil para os independentes que para as grandes organizações de comunicação já que muitas vezes elas possuem interesses comuns com os denunciados”, afirmou Milagros. E não apenas isso. Unir esforços é também uma maneira de dar luz a tópicos que antes ficavam nas prateleiras.

“No caso da Lava Jato, por exemplo, durante a análise dos documentos tínhamos a menção a uma pessoa de outro país, mas pensávamos: ‘como entrar nessa história se a gente não conhece ninguém nesse local?’ Quantas matérias foram perdidas por não conhecermos alguém que pudesse cuidar do tema com mais atenção?”, questionou Flávio Ferreira, da Folha de S. Paulo, coordenador no Brasil do consórcio Investiga Lava Jato.

A quantidade de informações que envolvem o tipo de pauta é outro fator que justifica esse modelo de trabalho. As sociedades estão exigindo mais transparência de órgãos e entidades o que, consequentemente, aumenta o volume de dados a serem trabalhados.

Do lado da comunicação, os jornalistas estão se especializando na avaliação do conteúdo e entendem que uma só pessoa não é capaz de fazer o trabalho de análise de forma isolada. Exemplos disso são o próprio caso da Lava Jato e da investigatção Panama Papers do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, o qual reuniu centenas de jornalistas, de diversos veículos e países. 

Sem bagunça

Coordenação, organização e comunicação são palavras de ordem. Como pautas desse tipo costumam lidar com muitos dados e informações, é fundamental que haja organização e, mais que isso, que todos os países estejam alinhados sobre o modo como a notícia será tratada já que o acesso a ela também se dará de modo diverso.

“Temos um acordo sobre quando vamos publicar a informação, por exemplo”, destacou Milagros, que emendou: “você tem de compreender o contexto de cada país para estabelecer uma metodologia de trabalho e de publicação.” 

Flávio concordou. “É preciso dosar e trabalhar as ansiedades. Saber que o colega do veículo impresso tem menos espaço em alguns dias que o do digital e isso irá impactar quando a informação tiver de ser publicada em conjunto.”

Nesse cenário, confiança é fundamental para que se construa um consórcio de sucesso. “É muito importante que os profissionais se conheçam pessoalmente para que os elos se estabeleçam. Eles impulsionam o trabalho em equipe”, apontou Carla Miranda, do O Estado de São Paulo, autora da tese de doutorado "A Colaboração no Jornalismo: do Arizona Project ao Panama Papers" (PUC-SP). Carla participou de outro painel no congresso.

É a confiança que levará as pessoas a conhecerem as potencialidades de cada integrante das equipes e a se integrarem sobre as diferenças e semelhanças em relação à forma de cobertura, de legislação, e demais detalhes de cada país.

“No Brasil o sistema de Justiça atua com relativa velocidade se comparado a outros. Apesar de alguns países como Peru, Argentina, Panamá e Equador terem iniciado uma série de processos fiscais, em países como a Venezuela há absoluta impunidade judicial”, explicou Romina.

Questão de segurança

“Essas investigações nos protegem publicamente”, destacou Joseph Poliszuk, do Armando.Info. Construir parcerias vai além das coberturas jornalísticas. Países nos quais a democracia não é muito consolidada ou inexiste se beneficiam dos consórcios.

“Atividades em colaboração são importantes para proteger a integridade do profissional como México e Brasil, por exemplo, nos quais os ataques a jornalistas são comuns”, citou Carla ao lembrar que o Brasil está entre as nações com mais incidência de crimes contra os profissionais. De acordo com o Comitê para Proteção de Jornalistas (CPJ), o país estava em oitavo lugar na lista daqueles com mais crimes sem solução envolvendo jornalistas e, de acordo com estudo da ONG Repórteres sem Fronteiras, em 2018, ocupa o 102° lugar no ranking de liberdade de imprensa, em uma lista de 180 países.

“Esse tipo de trabalho permite que, se o jornalista é perseguido em um país, o colega consiga dar visibilidade ao tema tratado em outro país”, destacou Carla.

Kalinka Iaquinto é repórter e coordenadora de Comunicação da agência independente de reportagens Eder Content.

Foto da apresentação de Romina Mella, do IDL-Reporteros, cortesia de Kalinka Iaquinto