Como um jornalista desempregado deu a volta por cima com visualização de dados

por James Breiner
Oct 26, 2015 em Jornalismo de dados

Ser demitido nem sempre é uma coisa ruim para um jornalista. Para Manuel Benito Ingelmo, foi a oportunidade de desenvolver algo que ele estava planejando há muito tempo.

Benito Ingelmo era um jornalista de negócios em Salamanca, na Espanha, com um interesse em estatísticas e visualização de dados. Ele achava que os jornais impressos estavam definitivamente em decadência, ele me disse em uma entrevista via Skype.

"Eu queria dar o salto para uma publicação digital, mas não queria fazer a mesma coisa que estávamos fazendo no jornal."

Então, quando Benito foi demitido de um pequeno jornal diário em 2012, ele recebeu o seu pacote de indenização e começou a experimentar com a forma de aproveitar os pontos fortes da mídia digital -- interatividade, publicação instantânea, audiência potencial enorme -- para criar um produto jornalístico ou serviço que iria construir com base nos bancos de dados que já estavam disponíveis.

Ele e seus parceiros começaram oferecendo gráficos simples sobre desemprego para organizações de mídia. Sua ideia era que essas organizações poderiam usar estes gráficos em vez de fotos de pessoas em filas de emprego. "Em apenas dois ou três meses, abordamos 100 organizações de mídia em toda a Espanha. Descobrimos que havia um nicho de mercado, a possibilidade de vender alguma coisa. Então nós tivemos o problema de [resolver] quanto cobrar pelo serviço."

Os sócios decidiram oferecer às organizações de mídia assinaturas de uma ferramenta simples que poderiam usar para criar seus próprios gráficos de forma rápida, com dados específicos para sua província ou cidade, reunidos a partir de bancos de dados do governo. Eles chamaram o serviço de Porcentual. Não querem competir com os grandes redações que têm seus próprios artistas gráficos e especialistas em visualização de dados. Em vez disso, eles oferecem o seu serviço às estações de televisão e mídia impressa que queriam algo visualmente diferente para ilustrar suas histórias.

Crescimento gradual 

Nos primeiros anos, Benito e seus parceiros investiram €12.000 (US$13.400) para desenvolver o negócio. Ele trabalhou  de casa; o emprego e a renda de sua esposa foram uma grande ajuda.

Aos poucos, eles ganharam assinantes. Entre os primeiros a assinar foram uma agência de relações públicas, PR Noticias, bem como alguns grandes nomes como La Razon e um grupo de mídia chamado Prensa Ibérica. Agora o Porcentual tem mais de 80 clientes, incluindo grandes nomes como El Huffington Post e 20minutos (no gráfico abaixo), La Opinion e Antena 3 Noticias.

Nos primeiros nove meses de 2015, o Porcentual já gerou 170 por cento mais receitas do que em todo 2014, disse Benito. Ele não quis publicar os números específicos, mas ele e um dos parceiros estão recebendo um salário e contratando programadores para construir ferramentas digitais.

As taxas de assinatura são baseadas no número de visualizações que cada gráfico recebe em um site ou aplicativo do cliente, como registrado pelo Google Analytics. Sessenta por cento dos clientes pagam €120 por cada três meses (US$135) por 50.000 visualizações. Na categoria superior, 20 por cento pagam €150 pelo mesmo período (US$170) por 100.000 visualizações. Para alguns clientes com tráfego maior, ele negocia tarifas especiais -- que obviamente são mais elevadas.

Gráficos adaptados a audiências locais

Os gráficos e widgets que os clientes do Porcentual inserem em suas páginas são atualizados automaticamente a partir de bancos de dados do governo sobre a economia e resultados de eleições. O gráfico à direita mostra os votos de 27 de setembro para o parlamento provincial da Catalunha, por partido político. As colunas à direita mostram como a cidade de Cadaqués votou.

Na noite da eleição de 27 de setembro, os gráficos do Porcentual receberam mais de 3 milhões de visualizações, disse Benito.

Mais clientes, taxas mais baixas

Para outros jornalistas que querem criar sua própria mídia, Benito, 41, oferece o seguinte conselho:

"Você tem que entender o seu mercado e quem é o seu cliente". Para ele, os clientes são intermediários, como grupos empresariais e meios de comunicação. "Você tem que entender o nicho e minimizar os custos. Você tem buscar sinergias."

Ele afirmou que o melhor modelo de negócio é aquele que tem muitos clientes que pagam taxas mais baixas em vez de alguns clientes que pagam taxas mais elevadas. Com o último modelo, "quando chega o dia que você perde um cliente, é um desastre. Nós colocamos nossa confiança no modelo de micropagamentos."

"Nem todo mundo pode ser Bill Gates", acrescentou. "Mas entre Bill Gates e o fracasso, há muitas possibilidades de ganhar uma vida decente."

Este post apareceu originalmente no blog News Entrepreneurs de James Breiner e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem principal sob licença CC no Flickr por Lauren Manning  -- outras imagens do Porcentual