Como transformar a cultura da redação impressa e superar os obstáculos às mudanças digitais

porJessica Weiss
Nov 10, 2014 em Jornalismo digital

Em junho de 2009, a cidade de Liverpool, na Inglaterra, levou um susto quando um guindaste de 100 toneladas bateu em um bloco de apartamentos no centro da cidade ao meio-dia. A jornalista Alison Gow e sua equipe digital do Liverpool Echo sairam para apurar a notícia.  Mas logo perceberam que a notícia já estava sendo reportada online por moradores e outras testemunhas oculares tirando fotos e documentando nas redes sociais. 

“A história estava lá, se desenrolando, e se nós não contássemos em tempo real, não faríamos parte dela", disse Gow, agora editora de inovação digital da Trinity Mirror Regionals, uma das maiores empresas multimídia do Reino Unido.

Então, ao invés de esperar para publicar a matéria horas depois, a equipe digital criou o seu primeiro live blog, acrescentando tuites, fotos de celulares e reportagem colaborativa via relatos de testemunhas. Rapidamente, tornou-se um recurso de autoridade. Segundo  Gow, este foi o ponto crítico para a mudança do Echo para o digital. “Foi a demonstração de como um veículo tradicional se tornava totalmente irrelevante na era digital”, ela disse. “A questão é Internet e conteúdo, e o que nosso público queria.”

Esta mudança fundamental, de estar no controle a fazer parte da conversa, está acontecendo em redações no mundo todo em velocidades diferentes. Para redações que estão sofrendo com a mudança, Gow tem oito sugestões sobre como transformar a cultura e superar obstáculos à mudança. Ela apresentou estas dicas durante o 13º International Newsroom Summit do WAN IFRAN. Após a conferência, a IJNet falou com Gow para saber mais:

1 - Construa seu negócio em torno de uma redação que dá prioridade ao digital e ao público

Os dias de discutir sobre imprensa vs. digital já passaram, disse Gow. "Não vai haver um final hollywoodiano para o jornalismo impresso", ela disse. “Os bons velhos tempos não vão voltar".

2 - Forneça conteúdo engajador, quando seu público quiser

As análises do site (analytics) são essenciais para saber quais aparelhos os leitores estão usando para consumir a notícia e que informação eles querem em que hora do dia. Gow destacou que o público online não é “uma coisa grande e homogênea”. Em vez disso, é composto por indivíduos com hábitos diferentes. “A experiência de uma mãe que leva seus filhos na escola de manhã é muito diferente de um trabalhador que mora longe e tem que pegar dois trens."

3 - Seja acessível - operacionalmente, através de plataformas, e culturalmente, na forma como você se envolve e interage

“De manhã, as pessoas nos acessam principalmente via tablet. Durante o dia, é o computador de escritório e de noite, é via tablet ou celular,” Gow disse. O Trinity Mirror usa analytics ao vivo através de Chartbeat para mostrar instantaneamente como as pessoas estão acessando a informação, seja através de plataformas de busca, mídias sociais, boletins eletrônicos ou mensagem instantânea. “Depois de você começar a seguir as tendências e análises, não demora muito tempo para aprender a intuir sobre o que funciona e quando."  

4 - Experimente, colabore, inove

"Eu realmente gosto da ideia de trazer as pessoas que potencialmente não são jornalistas para trabalhar nas coisas", disse Gow. Da mesma forma, o contrário funciona. "Coloque o seu título e você mesmo de volta na comunidade", disse ela. Isso ajuda a inspirar inovação e arriscar em novas ideias, o que é uma chave fundamental para o sucesso nos dias de hoje. "Você tem que experimentar e inovar, ou ficará estagnado", disse ela. 

5 - Comprometa-se em engajar as comunidades

É importante não apenas ficar sentado no escritório, disse Gow. Na região rural do País de Gales, onde a Internet é escassa, sua equipe realizou oficinas digitais com os cidadãos para configurá-los com Skype, Facebook e outras ferramentas. "Não é um prêmio Pulitzer, mas é algo que ninguém mais está fazendo", disse ela. "Nós ajudamos a comunidade e isso significou que as pessoas se sentiram envolvidas conosco". Outras ideias: Vá ​​para as reuniões locais de Hacks/Hackers, sente-se na audiência da prefeitura ou ponha-se no mapa, adicionando sua geolocalização ao seu conteúdo de mídia social e deixe as pessoas conversarem com você. 

6 - Entenda e antecipe as necessidades de seu público 

Trinity Mirror roda calendários internos em torno de eventos para atender às demandas do público. Por exemplo, as pessoas podem começar a pensar no Natal, em outubro. Sabendo esta tendência, as publicações podem começar a publicar conteúdo sobre o Natal logo no início para gerar credibilidade. Outro exemplo: "Se você começar a publicar conteúdo relacionado a neve antes da temporada de neve, quando uma tempestade de neve cair e é notícia urgente, você tem o conteúdo criado e vai aparecer no topo dos resultados de busca," Gow disse. 

7 - Abrace as redes sociais. É seu sistema de comunicação, agência de notícias, plataforma de distribuição, lista de contatos, parque de diversão, seu juiz e júri 

"Eu sempre digo, é esperado não pedido", disse Gow. Embora a mídia social possa ser coordenada por uma pessoa ou equipe dedicada que possa configurar pesquisas e acompanhar os rastros do publicação, Gow recomenda a todos na redação ser especialistas em Twitter. 

8 - Inovação não é restrito à redação -- qual é o seu sistema de gestão de ideias?

Pessoas de todo o espectro pode ter grandes ideias para um evento ou uma forma diferente de apresentar o conteúdo ou a organização de um website. Então, alguém precisa estar lá, dedicada a tomar e considerando ideias. Gow disse que é difícil para os jornalistas, que são usados ​​para ser a autoridade. "Tirar o ego fora das coisas é uma parte muito importante do nosso futuro", disse ela. 

Para mais dicas de Gow sobre como se tornar um exemplo digital na redação, confira sua apresentação para a conferência aqui (em inglês). 

Imagem cortesia de Matteo Parrini no Flick sob licença Creative Commons