Como tradições afetam o jornalismo investigativo em todo o mundo

por Sheila Coronel
Oct 30, 2014 em Jornalismo investigativo

Muito tem se falado sobre as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias na abertura de regimes restritivos e democratização da produção jornalística. Então, na semana passada, durante uma conferência marcando o lançamento da antologia Global Muckraking de Anya Schiffrin, eu fiz esta pergunta a um painel de jornalistas da África do Sul, América Latina e China.

Estamos vivendo numa era de ouro do jornalismo investigativo?

A resposta que obtive não foi um retumbante "sim". Foi mais um "depende". O jornalismo investigativo certamente sobrevive e até prospera, às vezes na mais difícil das condições. Mas a tecnologia, frequentemente citada como um super-arma no arsenal de "muckrakers" [jornalistas que expõem a sujeira] modernos, é talvez um fator menor do que algo muito mais à moda antiga: a tradição. Em alguns países, um histórico orgulhoso de jornalismo investigativo é mais importante para manter tais reportagens, como fazem as conjunturas políticas e --escolha a sua metáfora-- uma infraestrutura ou ecossistema que sustentam reportagens de prestação de contas.

Na África do sul, segundo Anton Harber, o jornalismo investigativo é robusto, com equipes inteiras de investigação com base em jornais diários e semanários, formadas por jornalistas de olho tanto na corrupção política do alto escalão como no estado deplorável dos serviços públicos. Mesmo durante as décadas anteriores ao apartheid, jornais sul-africanos menores mas corajosos davam espaço para o jornalismo de denúncia, e ao longo dos anos, investiram na produção de grandes matérias e construção de suas marcas.

Agora professor de jornalismo, Harber foi editor do jornal investigativo Mail & Guardian no final dos anos oitenta, no alto da luta contra o regime do apartheid. Ele foi processado várias vezes e o jornal foi banido por um mês pelo governo. A atual geração de jornalistas investigativos sul-africanos se baseia nesta tradição, e jornais como o Mail & Guardian atraíram seguidores por causa de sua habilidade de produzir reportagens revelatórias de alto impacto e qualidade.

Outros países não têm essa tradição. Harber citou Ruanda: Apesar da recente abertura do país, os jornalistas ainda são cautelosos em expor comportamentos ilegais. A legimitidade do jornalismo investigativo não é apoiada pela história do país ou sua prática e há poucos exemplos de sucesso para se basear. Diferente da África do Sul, onde investigações são realizadas pela sociedade civil e partidos de oposição, a cultura de investigação não existe.

Tradição foi um tópico importante na conferência da sexta passada. "Global Muckraking", o livro que deu o tema à conferência, examina 100 anos de reportagem investigativa no mundo e explora questões sobre como e que tipo de jornalismo leva a uma mudança social.

Perguntas difíceis, com certeza, apesar de os paineis terem chegado a alguns temas em comum. O impacto das investigações tende a ser individual, não sistêmico; isto é, oficiais individuais podem ser demitidos, mas as causas básicas dos problemas não são resolvidas. Reformas a longo prazo, como banir o trabalho escravo ou infantil, podem levar anos, às vezes décadas, e são resultados não só de jornalistas mas também de ativistas e reformadores em cargos políticos, bem como outros cidadãos.

As denúncias de corrupção podem causar um impacto imediato e dramático, mas rarametne mudam o sistema. A maioria mostra provas do delito e dá nomes, mas práticas corruptas muitas vezes continuam ou assumem outras formas depois dos oficiais corruptos serem expulsos.

Essas investigações são como o tango, disse Silvio Waisbord, que escreve sobre a reportagem investigativa na América Latina. Há muito drama e movimento, com os dançarinos girando em volta de um círculo, mas acabam onde começaram.

A América Latina viu uma onda de reportagens investigativas na década de noventa, após a queda dos regimes autoritários e a consolidação da democracia. Ainda há uma energia investigativa tremenda na mídia, embora a situação seja diferente de país para país. Enquanto os jornais têm sido os portadores tradicionais do jornalismo investigativo, novos sites online estão fazendo ondas através da experimentação de novas formas de contar histórias e envolver o público.

El Faro em El Salvador, La Silla Vacia e Verdad Abierta na Colômbia, Animal Politico no México e Plaza Publica na Guatemala estão produzindo investigações profundas e inovadoras que incorporam dados, narrativa e interatividade. Há também o que Waisbord chama de sites “híbridos” dirigidos por ONGs e jornalistas empregando colaboração do público e entre fronteiras. Infoamazonia, que registra o desmatamento na região Amazônica, é um bom exemplo. 

Em muitos lugares, contudo, os jornais são ainda o local de exposição, especialmetne da corrupção de alto escalão. Na Argentina, La Nacion construiu uma reputação de conseguir documentos e dados em um país sem uma lei de liberdade de informação e de projetos jornalísticos interativos que envolvem os leitores nas reportagens.

No Brasil, disse Angela Pimenta, que segue o jornalismo investigativo desde os anos oitenta, os maiores jornais estão na linha de frente das denúncias que mexeu com a elite política do país, incluindo subornos, estilo de vida extravagantes de oficiais públicos e saques da Petrobras que foram usadas para financiar a campanha eleitoral do partido no poder.

Estas denúncias capturaram a imaginação popular e enfureceram os cidadãos. A hora foi importante. Como Waisbord observou, certas conjunturas políticas são propícias para o jornalismo investigativo de grande impacto. No caso do Brasil, há uma intensa rivalidade entre partidos políticos em competição e uma insatisfação popular com a corrupção e a qualidade de vida. 

Uma nova lei de liberdade de informação está dando pano para a manga para reportagem e uma forte lei anti-corrupçao aumentou as consequências para os criminosos. Tecnologia, especialmente de celular, também ajudou a tornar mais fácil disseminar as notícias dos escândalos políticos. 

A China é diferente do Brasil, mas tem também, apesar das limitações, mais exposição de corrupção e danos ambientais do que nunca. As restrições recentes são preocupantes, mas há trabalho inovador graças a jornalistas e cidadãos que estão se esforçando para superar os limites. 

Enquanto a China tem uma tradição de jornalismo desbravador desde o início do século 20, as sementes da reportagem investigativa foram lançadas nos anos setenta com as reformas de mercado e a retirada dos subsídios estatais da mídia. Organizações de notícias tiveram que confiar em circulação e propaganda para a sua sobrevivência, e investigações são parte de uma estratégia de geração de receita. A Internet ampliou o espaço para a exposição, especialmente blogs e Weibo, o Twitter chinês. Mas, como disse o jornalista da BBC Vincent Weifing Ni, algumas das revelações de mais impacto vieram de publicações independentes como Caixin, um semanário de negócios, e até mesmo da China Central Television (CCTV), a emissora estatal. 

Em 2011, após um acidente de trem que matou 40 pessoas e alimentou a ira do público, Caixin revelou corrupção em grande escala na construção do sistema ferroviário do país. A revista expôs o "sistema quebrado" no ministério das ferrovias e em uma  edição seguinte colocou o ministro na capa e reportou que ele tinha comprado uma mansão de luxo perto de Los Angeles em 2002, quando ganhava menos de US$300 por mês. O ministro foi processado, acusado de desviar até US$2.8 bilhões para contas no exterior. 

Escândalo vende e cria impacto e, em muitos casos, os excessos dos oficiais terminam arruinando-os – sejam as mansões chiques como no caso do ministro Zhang Shugang ou sapatos de sola vermelha de Christian Laboutin como no caso da ministra de comunicação da África do Sul, Dina Pule, cujas irregularidades no cargo público serviram como munição para muitas denúncias.

Sem dúvida, o Partido Comunista tolera e até encoraja a exposição de corrupção. Estes fornecem uma válvula de segurança para a fúria do público e também permitem que o Partido se livre de oficiais. Jornalistas aproveitam estas aberturas para expor comportamento impróprio e continuar a investigar.

Como Ni explicou, os jornalistas chineses veem a si mesmos como "pica-paus",  desgastando a árvore do poder estatal, em vez de cortá-la. Contudo, fazer isso pode ser perigoso, como atesta o número de jornalistas e ativistas chineses presos.

No final, se é ou não uma era de ouro, jornalismo de denúncia ou de pica-pau, a prática prospera, apesar dos desafios e mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Sheila Coronel é a reitora de assuntos acadêmicos da Columbia Journalism School, onde ela fundou o Stabile Center for Investigative Journalism. Ela é cofundadora e ex-diretora executiva do Philippine Center for Investigative Journalism.

Este artigo apareceu orginalmente no Watchdog Watcher de Sheila Coronel e no site da Global Investigative Journalism Network (GIJN). É reproduzido na IJNet com permissão. A GIJN é uma associação internacional sem fins lucrativos que apoia, promove e produz jornalismo investigativo. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via HonestReporting