Como notícias de celulares informam comunidades rurais na Indonésia

por Jessica Weiss
Dec 31, 2012 em Temas especializados

No Bornéu Oeste, Indonésia, os agricultores de dendê monitoram o negócio e enviam notícias para seus companheiros agricultores através de telefones celulares.

Eles aprenderam a se reunir e comunicar as notícias -- fundamentais para a sua subsistência -- como parte de um programa liderado por Harry Surjadi, bolsista do Knight International Journalism Fellowship. Surjadi, um jornalista ambiental vetereano, disse que o programa preenche um vazio de informação em uma comunidade pobre e rural muitas vezes ignorada pelos principais meios de comunicação da Indonésia.

Os agricultores e outros jornalistas cidadãos na Indonésia aprenderam a compartilhar informações e notícias através de mensagens de texto usando o FrontlineSMS, uma ferramenta de voz sobre sistemas móveis. Um centro de treinamento na Ruai TV, na capital da província, ensina o jornalismo básico, incluindo a compreensão dos fatos, habilidades de observação, apuração de dados, redação de notícias para SMS, pirâmide invertida e reportagem básica.

Surjadi também está levando o conceito além do jornalismo cidadão, capacitando influentes membros da comunidade local e ativistas, a quem ele chama de "corretores de informações" ou "IBS" (information brokers), para usar ferramentas do jornalismo para informar os membros da comunidade sobre questões como as alterações climáticas. Muitas são comunidades indígenas perto de florestas enfrentando conflitos ambientais.

"Estamos provando que a comunicação pode capacitar as comunidades para resolverem e mudarem as políticas que têm um impacto negativo na vida das pessoas", disse Surjadi.

Surjadi conversou com a IJNet sobre seu trabalho e o potencial do jornalismo cidadão na Indonésia.

JNet: Você trabalha com reportagens ambientais há 20 anos. Viu mudanças na cobertura dessas questões desde que começou?

Harry Surjadi: Posso dizer que não houve grandes mudanças em reportagem ambiental na mídia. As questões ambientais tornaram-se um assunto importante, mas ainda há mais política e assuntos econômicos nas primeiras páginas dos principais meios de comunicação. A maioria dos problemas ambientais é enfrentada por comunidades em áreas propensas e de pessoas pobres. A grande mídia não tem interesse em relatar esses casos. Alguns meios de comunicação na Indonésia pertencem a grandes empresas com práticas de negócios ruins relacionadas ao meio ambiente. Seus meios de comunicação nunca relatam os casos relacionados a seus negócios. Fundei a Sociedade de Jornalistas Ambientais da Indonésia e a organização continua a crescer. Alguns jornalistas ambientais sérios têm seus próprios blogs com notícias ambientais. Mas a mídia tradicional ainda é a mesma. Meu trabalho é ver como o jornalismo cidadão pode capacitar as comunidades que nunca chamam a atenção da grande mídia ou mesmo do governo.

IJNet: Como transformar os cidadãos numa parte mais importante do ecossistema de notícias na Indonésia?

HS: O jornalismo cidadão começou em 2005, mas não foi chamado "jornalismo cidadão". Por exemplo, uma rede nacional de rádio tinha um programa que permitia aos cidadãos ligarem para informar notícias sobre eventos como acidentes de trânsito ou engarrafamentos.

Agora, quase todas as organizações da grande mídia (imprensa, rádio e televisão) têm uma seção de jornalismo cidadão. A participação dos cidadãos na produção de notícias está crescendo. Especialmente nas grandes cidades, onde há acesso à Internet e smartphones, mais cidadãos estão conscientes da oportunidade de participar na produção de notícias para a mídia tradicional. Sua motivação é compartilhar informações ou simplesmente se expressar. As organizações de mídia têm recursos humanos limitados, mas gostariam de cobrir mais notícias.

IJNet: Na sua experiência, os jornalistas profissionais e cidadãos precisam e/ou dependem uns dos outros?

HS: Em termos de aprendizagem mútua, sim, profissionais e jornalistas cidadãos precisam e dependem uns dos outros. Em termos de cobertura e escrever histórias e envio de notícias/informações, na maioria das vezes eles funcionam de forma independente. Quando eu faço meus workshops de formação, eu sempre digo aos jornalistas cidadãos para trabalharem como uma equipe. Já que cada comunidade tem pelo menos dois jornalistas cidadãos, eles podem trabalhar juntos. Em uma comunidade, os 20 jornalistas cidadãos que participaram da oficina de treinamento decidiram que apenas um deles iria apresentar a notícia. Outros iria relatar a essa pessoa.

IJNet: O que distingue um jornalista cidadão de um corretor de informação?

HS: O papel do jornalista cidadão é enviar relatórios para uma organização de mídia, enquanto o corretor de informação é um jornalista cidadão com o papel adicional de compartilhar informações importantes com membros da comunidade. Um corretor de informação não tem de informar a mídia, mas pode informar a organização a que pertence, como uma mídia de ONGs ou veículo não-tradicional, como uma estação de rádio comunitária. O papel do corretor de informação é encontrar informações importantes ou dados que são necessários para a comunidade resolver seus problemas. O corretor de informação se torna os olhos, ouvidos e voz da comunidade. Da mesma forma, o corretor de informação é uma fonte de informações para a comunidade.

IJNet: Você pode nos dar um exemplo?

HS: Em outubro de 2011, eu fiz uma oficina de formação em Silat Hilir [no Bornéu Oeste], onde muitos participantes eram membros da Asmoja, uma cooperativa de agricultores de óleo de palma (dendê) que havia lutado por seus direitos com uma grande empresa por mais de 10 anos. Quando conhecemos eles, o espírito dos agricultores estava muito para baixo. Alguns deles tinham vendido suas terras para a empresa ou para outras pessoas da cidade.

Meus co-instrutores e eu ajudamos a cooperativa de Asmoja a instalar o FrontlineSMS como um canal de comunicação interna. Após o treinamento, havia dois corretores de informações, Hendrik e Simon, que se tornaram ativos na busca de informações para os membros da cooperativa de Asmoja.

Hendrik, especialmente, soube como usar o sistema. Ele sabia que tipo de informação a comunidade precisava. Ele usou o sistema para elevar o espírito dos membros de Asmoja. Enviou SMS para informar os membros sobre regulamentos relacionados com as plantações de óleo de palma. Distribuiu informações sobre o corte ilegal e desmatamento de florestas. Encontrou informações sobre como a empresa havia emprestado dinheiro de um banco em nome dos membros de Asmoja, sem que nunca tivessem aprovado. Ele descobriu que a empresa tinha uma dívida grande que era incapaz de pagar.

No mês passado, depois de uma luta de um ano por seus direitos, em uma reunião especial com altos funcionários do governo local, representantes do banco e da polícia, a cooperativa de Asmoja teve seus direitos de volta. A empresa concordou em pagar a dívida e os agricultores obteram o direito de gerir suas próprias terras.

Você pode dizer Hendrik é mais ativista do que jornalista cidadão. Mas ele estava praticando jornalismo, a fim de encontrar e publicar a informação importante para a sua organização. Ele usa conceitos jornalísticos (coletar, processar, publicar) para fortalecer a [comunidade].

[Saiba mais sobre o trabalho Surjadi aqui.

Imagem: Harry Surjadi treina jornalistas cidadãos no Bornéu. Foto de Harry Surjadi